SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Morreu, nesta quarta-feira (14/1), Vera Valdez, nome artístico de Vera Barreto Leite, atriz que se destacou no teatro brasileiro em palcos como o do Teatro Oficina, ao lado de José Celso Martinez Corrêa, e que teve uma extensa carreira como modelo de grifes como a Schiaparelli e Chanel, aos 89 anos.

Nome próximo à atriz Cacilda Becker, Valdez também participou do cinema nacional, em filmes como "O Homem Nu", de Roberto Santos, em 1968, e "As Cariocas", em 1966, de Walter Hugo Khouri.

 


A informação foi divulgada nas redes sociais do Teatro Oficina. "Hoje à tarde Vera partiu. Voa, Vera! Etherna! Muito amor por essa maneca", diz a legenda. 

Ligado ao palco no centro da cidade, Valdez estrelou, há dois anos, "Vozes Humanas", que entrelaçou relações artísticas e afetivas da artista por meio de uma versão do monólogo "A Voz Humana", de Jean Cocteau.

Vera conheceu o francês quando era modelo de Chanel, em Paris. Testemunhava os almoços do poeta e dramaturgo com a amiga estilista. "A Chanel e os amigos dela olhavam para mim como uma menina ousada, fazendo aquele trabalho com ela, que era uma mulher considerada meio devassa", disse à Folha, em 2024.

Trajetória na moda

A trajetória de Vera Valdez na moda se confunde com um dos períodos mais emblemáticos da alta-costura europeia do pós-guerra. Nascida em 1936 e criada entre países por ser filha de diplomatas, ela chegou muito jovem a Paris, ainda adolescente, sem falar francês, e rapidamente se impôs como presença rara nos ateliês mais disputados do mundo. Aos 15 anos, já era manequim de Elsa Schiaparelli, iniciando uma carreira internacional que a colocaria no centro da história da moda do século 20.

Pouco depois, Vera integrou o elenco de Christian Dior, experiência que ela resumiria mais tarde como decisiva. “Costureiro espetacular, abriu a moda para o mundo”, disse à Bazaar, em 2018. A convivência com Dior marcou sua formação estética e profissional, preparando o terreno para o momento mais célebre de sua carreira: a entrada, em 1954, na maison Chanel, onde brilhou até 1963. Ali, não era apenas uma modelo, mas uma intérprete do espírito criado por Coco Chanel, que via a roupa como ferramenta de liberdade e empoderamento feminino.

Em Paris, Vera e suas colegas — jovens, aristocratas, artistas e herdeiras — ficaram conhecidas como Les Blousons Chanel. Circulavam pela noite parisiense vestidas com os icônicos tailleurs da marca e paravam salões, bares e restaurantes por onde passavam.

“As portas se abriam para nós, a bebida surgia do nada”, lembrava. Mais do que desfiles, elas colocavam a moda em movimento, exatamente como queria Chanel: roupas feitas para a rua, para a vida real, para mulheres ativas e independentes.

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De volta ao Brasil, Vera Valdez também deixou sua marca na moda nacional ao trabalhar com Dener Pamplona de Abreu, o grande nome da alta-costura brasileira nos anos 1960. Sua elegância natural e formação internacional ajudaram a consolidar uma imagem de sofisticação moderna no país. Em 1970, aos 34 anos, ela fez seu último desfile para a Chanel, encerrando definitivamente um ciclo histórico.

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