“Aos pobres, que necessitavam de remédios, sempre encontrava um meio para mandar aviar-lhes as receitas. Era como se estivesse saldando dívidas antigas, cujos pagamentos vinham sendo protelados desde a minha infância, em Diamantina... Mais tarde, disputando eleições, o grosso de minha votação era obtido justamente nas áreas que eu havia frequentado como médico da Imprensa Oficial”, escreveu Juscelino Kubitschek (1902-1976) no primeiro volume (de três) de suas memórias, “Meu caminho para Brasília”.
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Porta de entrada de JK para a política, a medicina, que ele exerceu a partir de 1927, ao se graduar na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, é o foco da exposição “Dr. Juscelino, o médico que pensou o Brasil”. Aberta ao público a partir desta sexta-feira (9/1) no foyer do Teatro Feluma, a mostra apresenta reproduções de fotos raras, cartas e documentos trocados entre o estadista e amigos próximos, entre eles o ginecologista Lucas Machado (1901-1970), fundador da Faculdade de Ciências Médicas.
A exposição é o segundo eixo de uma iniciativa maior, que reúne três mostras, todas uma parceria da Feluma com a Secretaria e a Fundação Municipal de Cultura e a Casa de Juscelino em Diamantina. A primeira, em cartaz desde outubro na Casa Kubitschek, na Pampulha, é “Retratos de uma era: as fotos raras de JK”. Já em fevereiro a casa onde ele viveu em sua cidade natal vai inaugurar uma terceira exposição.
Urologia
O pesquisador Fábio Chateaubriand assina a curadoria das três mostras. “Juscelino médico é um recorte importante, pois poucos o conhecem como profissional da saúde e a medicina foi essencial para formar o político”, afirma. Vindo de Diamantina, JK chegou a BH com 19 anos para trabalhar como telegrafista e estudar medicina. Passou uma temporada em Paris, onde se especializou em urologia.
“Além da Europa, ele vai também para o Oriente Médio e volta com muitas ideias na cabeça. Na Revolução de 1932, ele vai como médico (militar) para Passo Quatro, na divisa entre Minas, São Paulo e Rio. É ali que conhece Benedito Valadares, interventor de Minas, que insiste em que ele sirva ao povo através do governo. A princípio ele titubeia em largar a medicina, dona Sarah (1908-1996) era contra, mas a ‘mosca azul’ foi mais forte”, acrescenta Chateaubriand.
Mesmo com a chegada à Prefeitura de Belo Horizonte, em 1940, JK continuou, por um ano, atendendo aos pacientes – chegou a tenente-coronel-médico da Polícia Militar. Para Chateaubriand, as gestões de JK – no município, depois no estado de Minas Gerais e, mais tarde, na Presidência da República – foram marcadas pelas portas abertas para o povo como uma influência da maneira como ele atuou na medicina.
“Juscelino era totalmente diferente, com um coração maravilhoso, muito sentimental”, afirma Serafim Jardim. Aos 90 anos – “e cinco meses”, conforme ele mesmo ressalta –, foi próximo do político, trabalhando durante nove anos (até a morte de JK, no controverso acidente automobilístico em 1976) como seu assistente. “Eu, por exemplo, vi o presidente chorar duas vezes: com a morte da mãe dele (Júlia Kubitschek) e da irmã, Naná (Maria da Conceição).”
Jardim é o fundador da Casa Juscelino, em Diamantina – em 2025, o museu-casa completou 40 anos. Ela nasceu por meio de um pedido do próprio JK, poucos dias antes de morrer, aos 73. “No dia 9 de agosto de 1976, ele me pede dois favores: que fosse colocar uma carta no correio e que comprasse a casa dele (em que havia morado até vir para BH), pois queria restaurá-la para se hospedar nela quando fosse à cidade”, conta.
Só que 13 dias após essa conversa, em 22 de agosto, JK morreu. A fidelidade ao companheiro fez com que Jardim realizasse seu desejo. “Lutei durante nove anos para desapropriar a casa (na Rua São Francisco, 241) e fazer com que ela virasse um museu.” Inaugurada em 1985 – com a presença de dois governadores e três ministros – a Casa Juscelino continua na ativa e com Jardim à frente. Em fevereiro, o espaço vai inaugurar a terceira exposição do projeto encabeçado pela Feluma, com mostra que abordará a relação de JK com Brasília, sua maior realização.
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“DR. JUSCELINO, O MÉDICO QUE PENSOU O BRASIL”
A exposição abre para o público nesta sexta-feira (9/1), no foyer do Teatro Feluma (Alameda Ezequiel Dias, 275, Centro). Visitação de quarta a sábado, das 16h às 19h. Entrada franca. Até 7 de fevereiro.
