Juraciara Vieira Cardoso
Juraciara Vieira Cardoso
Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito
VITALidade

A vida que não vivemos

O envelhecimento talvez não seja a derrota de quem fracassou, mas o momento em que finalmente deixamos de viver para um personagem imaginário

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Retomando em parte o assunto da última semana, quero propor um experimento mental perturbador: imagine que você está prestes a morrer e, nesse momento, percebe que a vida que viveu não era legitimamente sua. Era de um personagem que você mesmo construiu e defendeu durante toda a vida e que, de tão íntimo, acabou se confundindo com sua própria identidade.

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A familiaridade desse personagem, ao longo dos anos, fez com que ele passasse despercebido e você vivesse quase que exclusivamente para satisfazer esse ideal, que Kierkegaard ajuda a compreender por meio da figura simbólica de César, fazendo referência indireta ao imperador romano Júlio César.

O filósofo entende que nosso “César” interior, construído arduamente ao longo dos anos, por meio das versões sobre nós mesmos - que organizaram cada uma de nossas escolhas- é aquele que nos faz sentir angustiados com quem somos, pois estamos sempre aspirando ser maiores que somos.

Queremos estar acima do padrão em todos os planos de nossas vidas: familiar, laboral, econômico e assim em diante - não há limite para o “César” (eu) imaginado dentro de nós, ele aspira conquistar tudo. No entanto, César se angustia diante do eu real, que não consegue sê-lo, já que esse lugar é inalcançável. Todas as vezes que nos aproximamos de César, o projeto se redefine e desloca o horizonte, de modo que estamos sempre aquém.

Kierkegaard chamou essa condição de desespero. Não se trata de um desespero daquele que conhecemos, que nos leva a uma ruptura ou a um colapso, mas um desespero quase que silencioso, pois seguimos funcionais, cumprindo nossas obrigações, acumulando conquistas e buscando, por todos os meios, manter lampejos de quem somos genuinamente, ainda que sob a presença constante de quem gostaríamos – e outros gostariam – que fôssemos.

Para o filósofo, o desesperado, muitas vezes, sequer sabe que o está, e a angústia que sente diante de si mesmo rotineiramente é o sintoma de quem vive numa identidade emprestada. 

A distância entre quem se é e quem projetamos ser não é a mesma em todas as fases da vida. Na juventude, vivemos pela imagem e a maior parte da nossa identidade é construída pelo ambiente externo e pelo projeto futuro de quem deveríamos ser.

Nesse momento, César é muito poderoso porque o tempo parece infinito e a transformação se mostra sempre viável. Com o passar dos anos, na fase adulta, somos tomados por compromissos reais, que muitas vezes são ancorados em escolhas que acabam por fechar outras possibilidades e, diante da vida concreta, César tende a ceder, mas não sem certo ressentimento, como se ela fosse uma concessão feita à vida que estaria no porvir. 

Esse ressentimento costuma se arrefecer com o envelhecimento, pois ele é um lembrete sobre nossa finitude e nos coloca diante das impossibilidades da existência, dos projetos que não podemos mais cumprir e dos amores que não vamos mais ter.

Diante disso, a pergunta que se coloca é sobre quem se foi e não sobre quem se projetou ser. É possível saber quem se é por meio das grandes conquistas, mas também por meio das pequenas escolhas, dos dias comuns e dos afetos que resistiram ao tempo. É nesse olhar honesto sobre a vida que se viveu, já despido da urgência que César impunha, que se pode viver em comunhão com quem se é, não mais com a projeção que se carregou pela vida.

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O envelhecimento, quando acolhido com suas perdas e ganhos, nunca será a derrota de quem não foi César, mas sim um encontro feliz com quem se é. Reconhecer os projetos cumpridos, os abandonados e os que a vida nos trouxe sem avisar é o oposto do desespero. É no reconhecimento de que não se pode ser César que está a alegria de ser quem de fato se é. César pode ter sido necessário durante uma fase de nossas vidas, mas enquanto tentávamos ser ele, era nossa própria vida que esperava por nós. 

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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