O erotismo como uma forma de estar no mundo
Muito antes de ser reduzido ao sexo, o erotismo nomeava uma força de criação, presença e intensidade de vida
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Na mitologia grega mais antiga, Eros não era visto como o deus do romance ou do sexo, como se pensa comumente, mas sim como uma das forças mais primordiais do universo. Depois do Caos e da Terra, ele surge como potência de união, fecundidade e movimento vital. Muito antes de ser reduzido ao amor romântico ou ao desejo sexual, Eros nomeava aquilo que põe a vida em marcha e nos arranca da inércia, lançando-nos para a criação e para a continuidade do mundo. Platão, no livro “O banquete”, dá intensidade filosófica ao deus: Eros é filho da pobreza (Penia) e do Recurso (Poros), o que significa que o desejo nasce da falta, mas não se esgota nela, já que é justamente da falta que nasce sua força criadora.
No entanto, nossas sociedades foram empobrecendo o erotismo e o conceito antigo foi quase totalmente perdido. Aquilo que na tradição antiga remetia a uma força criadora e de intensificação da vida acabou sendo reduzido quase que exclusivamente ao campo sexual. O sexo, por ser a face mais visível da energia erótica, acabou por eclipsar suas outras manifestações. Com isso, o erotismo deixou de ser compreendido como uma presença no mundo e passou a ser tratado exclusivamente como impulso ou comportamento sexual. Parece pouco, mas a perda é imensa, pois, ao estreitar o conceito de erotismo, estreitou-se também nossa compreensão da própria experiência humana.
No seu sentido mais profundo, o erotismo é um modo de estar no mundo. Ele surge quando o corpo permanece desperto e a vida é sentida com intensidade, nunca com a redução da experiência humana ao mero cumprimento de funções. Nesse sentido, ser erótico é conservar a capacidade de se deixar afetar pelo mundo e de interromper o automatismo da rotina. Por isso o erotismo não se confunde com o sexo, ao contrário, ele é, antes de tudo, uma força de presença na vida dos seres humanos. Se for possível pensar em um antônimo para a erotismo seria a apatia, nunca a castidade, como costumam achar os mais conservadores.
Ao lado dessa mudança de percepção sobre o conceito de erotismo, temos que no mundo contemporâneo somos treinados exatamente para viver em direção oposta a ele. Estamos todos sob a lógica da produtividade e do desempenho, num movimento em que o valor do corpo é reduzido àquilo que ele consegue produzir e suportar. Vivendo desse modo, a existência tende a ser mecânica: cumprimos, executamos, mas não experimentamos estar verdadeiramente presentes. Isso é muito bom para o mercado, que deseja seres humanos automatizados e produtivos, mas ruim para o sujeito, que tem uma redução enorme em sua experiência humana. O erotismo incomoda o mercado porque nos lembra que nosso corpo é um lugar sensível da vida e não apenas um instrumento de rendimento.
Por isso o erotismo sobrevive justamente onde a vida escapa da pura funcionalidade. Há algo profundamente erótico na arte, que nos arranca da neutralidade, na amizade intensa, que suspende o vínculo protocolar, na conversa em que realmente nos abrimos ao outro, na contemplação de uma paisagem que nos descentra e no pensamento apaixonado que busca compreender. Em todas essas experiências, o que está em jogo não é o sexo, mas a intensidade e a presença. O erotismo, assim concebido, é uma pequena insubordinação contra a vida anestesiada. Ele começa quando deixamos de apenas passar pelos dias e voltamos, de fato, a experimentar a existência.
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A pobreza erótica com a qual vivemos não diz respeito à quantidade de sexo que fazemos, mas sim da escassez da presença. Falamos muito sobre liberdade, desejo e prazer, mas vivemos imersos no cansaço e na distração, incapazes de habitar com inteireza aquilo que fazemos, sentimos ou pensamos. Reduzido ao sexual, o erotismo perdeu sua potência crítica e existencial. Recuperá-lo em seu sentido mais amplo é uma forma de lembrar que viver plenamente a vida humana exige sensibilidade, abertura e coragem para se deixar tocar pelo mundo.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
