O impacto do celular na postura e nos músculos
O corpo humano foi feito para se movimentar, não para permanecer estático, mesmo que em uma posição considerada correta
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Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão inclinados. O celular se tornou uma extensão do corpo. Acordamos e olhamos para a tela, trabalhamos com ela ao lado, usamos nos intervalos e, muitas vezes, encerramos o dia da mesma forma. Esse comportamento, aparentemente inofensivo, vem trazendo consequências cada vez mais visíveis no consultório: dores no pescoço, na coluna, nos ombros e até nos membros inferiores, especialmente em pessoas cada vez mais jovens.
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O problema não está no celular em si, mas na forma como o utilizamos. A postura mais comum ao manusear o aparelho envolve flexão do pescoço, ombros projetados para frente e, muitas vezes, a coluna em posição encurvada. Essa posição, mantida por longos períodos ao longo do dia, altera significativamente a distribuição das cargas no corpo.
A cabeça de um adulto pesa, em média, entre quatro e cinco quilos. Quando estamos com a postura ereta, essa carga é bem distribuída ao longo da coluna cervical. No entanto, à medida que inclinamos a cabeça para frente, o peso efetivo sobre a coluna aumenta de forma progressiva. Em ângulos maiores de flexão, essa carga pode chegar a mais de vinte quilos de força sobre as estruturas cervicais. É como se estivéssemos sustentando um peso adicional constante ao longo do dia.
Esse aumento de carga leva a uma sobrecarga muscular importante. Os músculos do pescoço e da parte superior das costas precisam trabalhar continuamente para sustentar essa posição. Com o tempo, isso pode gerar fadiga, dor e pontos de tensão conhecidos como “trigger points”. Muitos pacientes descrevem a sensação de rigidez no pescoço, dor ao final do dia e, em alguns casos, dor irradiada para os ombros ou até para os braços.
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Além da musculatura, as estruturas articulares também sofrem. Discos intervertebrais, ligamentos e pequenas articulações da coluna cervical são submetidos a estresse repetitivo. Embora o corpo tenha capacidade de adaptação, a exposição prolongada a essa sobrecarga pode contribuir para processos degenerativos ao longo do tempo.
Com o passar do tempo, esse conjunto de alterações pode se traduzir em dor crônica. Esse cenário é cada vez mais comum entre adolescentes e adultos jovens. Diferentemente de gerações anteriores, que desenvolviam problemas posturais ao longo de décadas, hoje observamos queixas semelhantes em pessoas com vinte ou trinta anos. O tempo de exposição às telas aumentou de forma significativa, e o corpo está respondendo a esse novo padrão.
Do ponto de vista ortopédico, é importante entender que não existe uma “postura perfeita” que, por si só, resolva o problema. O corpo humano foi feito para se movimentar, não para permanecer estático, mesmo que em uma posição considerada correta. A principal estratégia para reduzir os impactos do uso do celular é quebrar a repetição.
Pequenas mudanças de hábito podem fazer grande diferença. Elevar o celular à altura dos olhos, por exemplo, reduz significativamente a necessidade de flexão cervical. Fazer pausas ao longo do dia, levantar-se, alongar e mudar de posição ajudam a aliviar a sobrecarga acumulada. Alternar tarefas e evitar longos períodos contínuos na mesma postura também são medidas eficazes.
O fortalecimento muscular desempenha papel fundamental nesse contexto. Músculos mais fortes e equilibrados suportam melhor as demandas do dia a dia. Exercícios voltados para a musculatura cervical, escapular e do core contribuem para melhorar a postura e reduzir o risco de dor. Além disso, atividades físicas regulares ajudam a compensar o tempo prolongado em posições estáticas.
O celular não deve ser visto como um vilão absoluto. É uma ferramenta indispensável na vida moderna, com inúmeras utilidades. O problema está no uso excessivo e na falta de consciência sobre os impactos desse comportamento no corpo.
Assim como aprendemos ao longo dos anos sobre a importância da ergonomia no trabalho, estamos começando a entender a necessidade de uma “ergonomia digital”. Isso envolve não apenas a forma como utilizamos dispositivos, mas também o tempo de exposição e a frequência de pausas. Talvez o maior desafio seja reconhecer que pequenas atitudes, repetidas diariamente, têm um impacto cumulativo importante.
No consultório, é cada vez mais comum ouvir relatos de pacientes que nunca tiveram dor e passaram a apresentar desconforto progressivo sem um evento específico que justificasse o início dos sintomas. Ao investigar a rotina, muitas vezes encontramos longos períodos de uso de celular associados a baixa atividade física e poucas pausas ao longo do dia.
A boa notícia é que, na maioria dos casos, essas dores são reversíveis. Ajustes de comportamento, fortalecimento muscular e aumento do nível de atividade física costumam trazer melhora significativa.
Vivemos em uma era em que a tecnologia facilita a vida em muitos aspectos, mas também impõe novos desafios à saúde. O celular encurtou distâncias, acelerou a comunicação e transformou a forma como nos relacionamos com o mundo. Ao mesmo tempo, nos colocou em uma posição que o corpo não foi feito para sustentar por tanto tempo.
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Cuidar da postura no uso do celular não significa abrir mão da tecnologia, mas aprender a utilizá-la de forma mais consciente. No fim das contas, não se trata apenas de evitar dor no pescoço ou nas costas, mas de preservar a capacidade de movimento e bem-estar ao longo da vida.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
