Tiago Baumfeld
Tiago Baumfeld
Ortopedista Especialista em Pé e Tornozelo. Doutor em Ortopedia pela UFMG.
PÉ & TORNOZELO

Retorno ao esporte: ainda prometemos mais do que entregamos

Enquanto continuarmos prometendo retornos perfeitos para corpos imperfeitos, seguiremos frustrando pacientes e a nós mesmos

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Poucas frases geram tanta expectativa no consultório quanto “quando vou poder voltar a treinar?”. Ela aparece cedo, às vezes antes mesmo do diagnóstico completo, e quase sempre carrega um desejo silencioso de normalidade. Voltar ao esporte, para muitos pacientes, não é apenas retomar uma atividade física. É recuperar identidade, rotina, pertencimento e, em alguns casos, saúde mental.

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Talvez por isso o retorno ao esporte tenha se tornado uma das promessas mais delicadas da ortopedia contemporânea. E, em 2026, precisamos admitir com mais honestidade: ainda prometemos mais do que conseguimos entregar.

Não por incompetência técnica. Não por falta de tecnologia. Mas porque o retorno ao esporte é mais complexo do que aprendemos a comunicar e mais incerto do que gostaríamos de admitir.

A evolução das técnicas cirúrgicas contribuiu para uma falsa sensação de previsibilidade. Procedimentos menos invasivos, fixações mais estáveis, reconstruções anatômicas e reabilitações aceleradas criaram a ideia de que o retorno ao esporte é apenas uma questão de tempo. Basta esperar o prazo correto e tudo voltará ao normal. Essa promessa implícita é confortável, mas perigosa.

O primeiro problema está no próprio conceito de “retornar”. Retornar a quê? Ao nível pré-lesão? À mesma performance? Ao mesmo prazer? Essas perguntas raramente são feitas de forma clara. O paciente responde “quero voltar a correr”, “quero voltar ao futebol”, “quero voltar ao crossfit”, como se essas categorias fossem homogêneas. Não são. A intensidade, a frequência, o contexto competitivo e o histórico individual mudam completamente o significado dessa volta.

Outro ponto pouco discutido é que o retorno ao esporte não depende apenas da integridade do tecido reparado. Depende de força global, controle neuromuscular, confiança, adaptação psicológica e, sobretudo, da capacidade de lidar com a imprevisibilidade do movimento. Um ligamento cicatrizado não garante um corpo preparado. Um tendão íntegro não assegura tolerância à carga repetitiva. Uma articulação estável não elimina o medo de se machucar novamente.

Em muitos casos, o corpo até está pronto. A cabeça não.

A literatura mostra que o medo de nova lesão é um dos principais fatores associados ao não retorno ao esporte, mesmo após reabilitação adequada. Ainda assim, seguimos tratando o retorno como um evento biológico, e não como um processo multifatorial. Liberamos o paciente com base em tempo e exames, mas negligenciamos aspectos fundamentais da preparação real para o esporte.

Talvez o maior erro esteja na comunicação prévia. Em algum momento, muitas vezes de forma implícita, vendemos a ideia de retorno completo, rápido e sem limitações. O paciente se apega a isso. A comparação com atletas profissionais piora esse cenário. Vídeos de retorno rápido, reportagens sobre recuperações “milagrosas” e narrativas heroicas criam expectativas irreais. O que raramente se diz é que esses atletas têm estrutura multidisciplinar intensa, tempo dedicado à reabilitação, controle rigoroso de carga e, muitas vezes, aceitam conviver com dor e risco que não seriam aceitáveis para a população geral.

O paciente amador tenta replicar esse modelo sem as mesmas condições. O resultado costuma ser sobrecarga precoce, recidiva de sintomas e sensação de fracasso.

Em 2026, começa a ficar mais claro que retorno ao esporte não é um ponto de chegada, mas uma fase instável do tratamento. É quando o risco de recaída é maior, quando a confiança ainda é frágil e quando a diferença entre capacidade física e demanda esportiva se torna evidente. Tratar esse momento como simples “liberação” é reduzir demais um processo complexo.

A reabilitação, por sua vez, muitas vezes termina cedo demais. Protocolos são cumpridos, metas básicas são atingidas e o paciente é devolvido ao esporte sem preparação específica suficiente. Falta transição. Falta progressão real de carga. O resultado é previsível: o corpo falha não porque a cirurgia foi mal feita, mas porque foi exposto a demandas para as quais não estava preparado.

Há também uma dificuldade cultural em aceitar limites. O esporte, especialmente na vida adulta, costuma ser visto como sinônimo de saúde. Questionar se determinado retorno é adequado soa quase como heresia. Mas nem todo esporte é saudável para todo corpo em qualquer fase da vida. O papel do ortopedista, nesse contexto, precisa evoluir. Não basta autorizar ou proibir. É preciso orientar, negociar, contextualizar. Explicar que retorno não significa ausência de risco. Que voltar a competir envolve aceitar incerteza. Que, às vezes, o maior sucesso é manter-se ativo sem se machucar, e não reproduzir exatamente o passado.

Prometer menos não significa desistir do paciente. Significa respeitá-lo. Alinhar expectativas desde o início reduz frustrações, melhora adesão à reabilitação e fortalece a relação médico-paciente. 

A ortopedia que amadurece em 2026 começa a entender que sucesso não é apenas colocar o paciente de volta em campo, mas ajudá-lo a permanecer ativo de forma sustentável. Às vezes, isso significa voltar diferente. Com mais consciência, mais preparo e menos ilusão.

Enquanto continuarmos prometendo retornos perfeitos para corpos imperfeitos, seguiremos frustrando pacientes e a nós mesmos. Talvez seja hora de trocar a promessa de “voltar como antes” pela proposta mais realista e mais humana de “voltar melhor preparado para o que vem pela frente”.

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As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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