Em 7 de setembro de 1822, Dia da Independência do Brasil, às margens do Ipiranga, D. Pedro I proclama o fim da colonização portuguesa. O Grito do Ipiranga, ensinado nas escolas de todo o país: Independência ou morte! E que assim continuemos, defendendo nossa soberania e lutando contra qualquer um que tenha a intenção de interferir nos assuntos da Pátria Amada.

Teremos duas ocasiões cívicas: o Dia da Independência e, logo mais, as eleições. Uma nos trouxe liberdade e a outra nos obriga à lei. O voto obrigatório, com sanções e punições aos que não obedecem, elimina o espaço do desejo. Não se pode obrigar alguém a desejar. Ainda assim, é enorme responsabilidade exercer, por meio do voto, nosso dever e direito de apontar quem nos representará, caso seja eleito.

Na escolha do candidato – aqui, sim –, estamos no campo do desejo. É a liberdade possível, mesmo se metralhados por apelos e ofertas: comícios, entrevistas na mídia, programas de governo, muitas vezes tautológicos, características do candidato que nos tocam.

Quer sejamos seduzidos, quer fiquemos com nosso juízo de valor entre o que já sabemos e o que nos apresentam os candidatos em questão, somos livres para decidir.

Entre os dois – obrigação de votar e escolha livre do candidato –, há o trabalho da mídia, as pesquisas de opinião, a propaganda eleitoral à qual somos submetidos. Trabalha-se com afinco para direcionar interesses, driblar a singularidade do desejo, único em cada sujeito cidadão, no intuito de transformar o um a um do desejo no todo que aparece na soma dos votos. Todos juntos vamos... Pra frente, Brasil!

Mesmo assim, é impossível eliminar a especificidade do desejo de cada um. Neste momento de polarização extrema entre esquerda e direita, assistimos a separações radicais entre dois blocos, separam-se até pessoas que sempre se quiseram bem.

Lamentável e reduzida margem de escolha. De certo modo, os marqueteiros eleitorais conseguiram duas grandes massas enlouquecidas que se digladiam agressivamente, fato curioso e negativo, faltando com o respeito democrático que o nosso sistema político requer.

A indústria das fake news influencia opiniões, retirando do público a condição de escolher com base em fatos verdadeiros, ludibriando os desavisados. É sempre bom conferir e pesquisar tudo o que se ouve antes de sair repetindo...

Candidatos seduzem o eleitorado com promessas de realização de sonhos e desejos, de atender a pedidos e interesses de cada região, o que, na realidade dos fatos, nem sempre (ouso dizer, quase nunca) vai se materializar em ações, porque se promete mais do que a realidade permite.

Os eleitos se deparam com limites orçamentários, opositores no Senado e o jogo político brasileiro, onde interesses partidários impedem as realizações caso não se compactue com determinadas condições. Nosso famoso toma lá dá cá...

Os votos nulos e em branco expressam a declaração do eleitorado de que nenhum candidato, marqueteiro, nem mesmo a lei conseguiu ser atraente e amealhar interesses.

Dizia Freud que o desejo não é da ordem do racional, ultrapassa a vontade, sendo, em parte, inconsciente, portanto, desconhecido do próprio sujeito. Sobre isso, afirmava sua grande descoberta de que “o eu não é senhor em sua própria casa”.

Assim, a racionalidade não controla totalmente o eu. O próprio sujeito se desconhece completamente. É submetido à linguagem que vem do outro. Marcado pelos sons do desejo do outro, o corpo natural se humaniza. Essas marcas, que desconhecemos, nos determinam, são marcas de amor estruturantes.

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Em “Psicologia de grupo e análise do eu”, Freud aponta que o líder é aquele cujo traço atrai. Por amor a ele e aos ideais comuns entre os membros. Exemplos disso são a Igreja, o Exército, a política. Nessa relação, cabe ao líder o dever de ser suporte e o direito de responder pelos desejos e interesses, trazendo pacificação quando atendem, pelo menos em parte, aos anseios do povo.

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