Tempos de pós-verdades
Governos fazem discursos maquiados, escondem as verdadeiras intenções. Assistimos a ficções criadas para justificar atos terríveis como se fossem o bem
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Como disse Yuval Noah Harari, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e Ph.D. em história pela Universidade de Oxford, vivemos o tempo da pós-verdade. Entre vários assuntos abordados em seu livro “21 lições para o século 21” (Companhia das Letras), este tema me interessou por causa das fake news. Elas são tratadas como coisa atual, mas, na verdade, vêm desde o princípio da civilização.
No livro, que veio depois de dois grandes sucessos, “Homo sapiens: Uma breve história da humanidade” e “Homo Deus: Uma breve história do amanhã”, o autor destrincha questões político-tecnológicas, sociais e existenciais que impactam a vida cotidiana do homem, da humanidade. Estamos cercados de mentiras e ficções.
Yuval Harari nos convida a pensar o contemporâneo, no qual estamos imersos em medos e incertezas. Não sabemos o que é verdade ou não. Não podemos confiar em notícias sem duvidar das tramas que se armam por trás do que se diz.
Sempre presentes na história, algumas fake news duram para sempre. Os governos fazem discursos maquiados, escondem as verdadeiras intenções. Assistimos a ficções criadas para justificar atos terríveis como se fossem o bem.
Trump, na Venezuela, claro, quer o petróleo, mas afirma ser Maduro narcotraficante (isso foi desmentido depois), ditador que empobreceu o país, tomando o poder e o controle de todo o petróleo venezuelano, como se o sequestro e a prisão dele fossem o melhor para o povo. Justifica assim sua violência e o desrespeito a todas as leis internacionais que visam impedir a força do mais forte sobre o mais fraco. Cria a “ficção de nobreza” onde só há desmoronamento de todos os pactos simbólicos que limitam a agressão entre as nações. Voltamos à lei da selva.
O presidente dos Estados Unidos ameaçou atacar o Irã, onde o governo reprime violentamente protestos e anunciou execuções. Teerã aparentemente recuou das condenações à morte, Trump aparentemente deu passo atrás na mobilização militar contra o país. As duas partes se atacam, colocam a estabilidade do mundo por um fio e travam verdadeira guerra de informações e narrativas. O alvo é sempre a verdade.
Discursos na ONU mostram claramente a incoerência, para não dizer a falsidade, das nações mais poderosas do mundo. China e Rússia condenam os Estados Unidos, apesar das respectivas ações em Taiwan e na Ucrânia. Outras pós-verdades, ou chamem como quiserem, são disseminadas explicitamente no cotidiano.
No Brasil, a campanha de descrédito do Banco Central para esvaziar a competência técnica de liquidar o Banco Master foi realizada por meio de discursos cheios de falsidades. Há ingerências, caiu-se na politicagem. A interferência do Tribunal de Contas da União (TCU), que tem seus quadros ex-parlamentares, mira no descrédito do Banco Central.
O risco é prejudicar a credibilidade do Brasil, expondo ao perigo e à instabilidade nosso sistema financeiro. É injustificável quererem recuar na liquidação do banco. Ora, sabemos o que esperar de muitos de nossos políticos.
Voltando ao professor Yuval Harari, as religiões, as políticas e as versões do que vivemos são ficções e pós-verdades que inspiram crenças, servindo ao propósito de gerar sentido. Nem todas são negativas. As religiões, por exemplo, ajudam o fiel. Mas entre a Bíblia, o Alcorão, o Livro dos Mortos egípcio, o Livro dos Mórmons, o Talmude, onde estará a verdade? Ou serão apenas ficções? Todos os escritos reivindicam as próprias verdades. Elas orientam o mundo do fiel, respondem às inquietações.
Diz-se que Goebbels, mago da propaganda nazista, explicou desta forma seu método: a mentira dita uma vez é mentira, mas repetida mil vezes torna-se verdade.
Nós, os “normais”, também construímos uma ficção sobre nossas experiências familiares, escolares e vivências, dando a elas estrutura ficcional. Isso inclui a interpretação que fazemos da família; é a história que contamos como nossa, nossa versão, acreditamos nela. É o nosso norte, mas pode ser bem diferente daquela relatada por um irmão, da mesma família, com os mesmos pai e mãe.
Costumamos nos desvestir de nossas ficções, dos fantasmas que criamos e carregamos depois de fazermos análise. Vemos o mundo diferente, sem o drama da sobrecarga afetiva que nos atormentou. Cada um cria sua ficção, somos ficcionistas, mas isso não é ser mentiroso. E precisamos separar o joio do trigo.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
