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Como consequência involuntária das sanções impostas pela Europa e pelos Estados Unidos à Rússia ao longo da última década, a moeda chinesa, o yuan, oficialmente denominada renminbi (RMB), ou a moeda do povo, encontrou um atalho para testar, em grande estilo, os meios de se tornar uma moeda internacional. Trata-se de um feito notável para um país que ainda mantém sua conta de capital fechada.
O fato é que a gigante Rússia passou a usar o renminbi de forma quase exclusiva em suas trocas com a China, seu maior parceiro comercial. De modo mais amplo, atualmente mais de 50% das transações da Rússia com o exterior são realizadas em RMB. Não custa lembrar que a Rússia é o país com o maior território do mundo, uma das 10 maiores economias do planeta, além de ser um país com forte influência política regional e capacidade de projetar força militar para além de sua região. É um gigante. E hoje, a Rússia depende da moeda chinesa para fazer seu comércio internacional.
Na semana que passou, chamou atenção o anúncio de que o banco central da Rússia quer que os bancos comerciais de seu país mantenham reservas obrigatórias em RMB para evitar a escassez da moeda chinesa no mercado de câmbio e conter a concessão excessiva de crédito inflacionário. Caso isso se confirme, teremos, na prática, a transferência de parte da política monetária russa para Pequim.
Será interessante observar como essa ligação se desenrolará ao longo do tempo, sobretudo no que diz respeito ao quanto Pequim levará em conta variáveis da economia doméstica russa nesse arranjo. Isso é relevante porque, ao manter sua conta de capital fechada, o Banco do Povo da China, que é o banco central do país, conserva um grau muito elevado de controle sobre sua moeda e, por extensão, sobre sua economia.
Mas se a Rússia se entregou à China para sobreviver não há o que dizer de países que se entregam a China para se enfraquecer como nação. São vários exemplos de países se tornando fazendas da China, montadores de automóveis da China, indiferentes ao regime político-econômico fechado da China.
Agora, a renminbização da Rússia envolve um país de um tamanho e de uma relevância que dolarização nenhuma jamais chegou perto. O país mais importante dominado pelo dólar até hoje foi a Argentina, que ainda é bem relevante na América Latina, mas, inclusive por causa das suas políticas, que variam entre erráticas e esdrúxulas, tem decaído internacionalmente e, independente disso, não é nenhuma Rússia.
Muito antes de iniciar sua jornada como moeda internacional, a moeda do povo teve uma criação sub- regional na China em um percurso bastante peculiar. Moeda revolucionária, o renminbi teve origem antes mesmo da fundação da República Popular da China em 1949. A moeda foi criada para ser usada nas partes da China controladas pelo Partido Comunista durante a guerra civil. A partir de 1º de outubro de 1949, a nova República Popular estatizou todos os bancos do país e fez do RMB a moeda oficial.
Uma outra ironia sobre as voltas que o mundo dá é que lá naquele princípio de República Popular, as autoridades de Moscou esnobaram bastante a China. Em particular, quando Mao Zedong fez de Moscou seu primeiro destino internacional, entre o final de 1949 e o início de 1950, o então líder soviético, Stalin, deu memoráveis chás de cadeira no líder chinês, entre outras descortesias.
O tratamento que a China está oferecendo a Moscou nos dias atuais é muito mais cordial do que o que recebeu naqueles arrogantes tempos em que Moscou era comunista, capital da URSS. De todo modo, a saída encontrada pela Rússia para fugir do asfixiamento imposto pelo Atlântico Norte, se vinculando à economia chinesa, dá um trunfo importante à Pequim.
Além da questão da expansão do uso do RMB para além das fronteiras chinesas, o processo de grande alinhamento comercial e político entre China e Rússia é parte de um período extremamente favorável para expansão do peso da China mundo afora.
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A China não gosta de tocar a bola de primeira, é mestre em ficar na banheira esperando a bola perdida, ou o passe perfeito do alinhado deslumbrado ou o cálculo mesquinho do adversário desinformado. Inatividade estratégica é o nome que se dá no futebol à arte de jogar parado e fazer gol. O peso da China vai crescendo como consequência involuntária de ações tomadas de forma unilateral, abrupta, ingênua e arrogante por outros países, especialmente os Estados Unidos nos últimos anos. Em grande parte, tem bastado à China jogar parada, observando os erros de quem desconfia de sua ascensão e dos iludidos com a vantagem estratégica desse alinhamento automático que ninguém sabe no que vai dar.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
