Malu Gonçalves
Malu Gonçalves
Mineira de BH e mãe de dois, é jornalista com especialização em Jornalismo Cultural (FAAP-SP) e MBA em Gestão pelo Ibmec. Há seis anos no Google, é Head de Comunicação do YouTube no Brasil. Escreve sobre encontros e desencontros entre cultura e tecnologia

Dá para fugir das deepfakes? Se você for mulher, é mais difícil

Imagens falsas têm as mulheres como principal alvo. Checar a veracidade do conteúdo é o primeiro passo, mas não basta

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Nos últimos dias, o relato da atriz Paolla Oliveira sobre deepfakes tomou as redes e repercutiu amplamente na mídia. Para quem não conhece o termo, trata-se de uma modalidade de manipulação visual criada por Inteligência Artificial que gera vídeos e fotos hiper-realistas, geralmente a partir do uso não consentido da imagem de alguém, com o intuito de enganar o público. Mas não é necessário ter um rosto famoso para ser vítima. O simples fato de ser mulher já aumenta drasticamente as suas chances.

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Dados mostram que há uma motivação de gênero por trás dessa prática: pesquisas internacionais da Sensity AI e da Home Security Heroes apontam que cerca de 98% dos vídeos de deepfakes pornográficos na internet têm mulheres como alvo. Isso significa que a manipulação sintética de mídias não é apenas um desafio tecnológico, mas a vertente mais recente e cruel da violência de gênero. Historicamente, o corpo e a reputação das mulheres são os alvos de ataques que buscam descredibilizar, humilhar e silenciar. O uso da IA para criar pornografia não consentida é a atualização digital da dinâmica patriarcal de dominação, operando para nos expulsar dos espaços públicos e virtuais por meio da vergonha, como aconteceu recentemente com um grupo de oito meninas, vítimas de montagens pornográficas criadas por um colega de escola, que se dizia amigo…

Ao mesmo tempo em que maus atores instrumentalizam a tecnologia para propagar mentira e ódio, a sociedade vai desenvolvendo mecanismos de defesa. Engenheiros e equipes de segurança nas empresas de tecnologia têm aprimorado diretrizes de uso, além de criar ferramentas de verificação para ajudar a população a checar a origem de mídias e proteger a própria imagem.

Para verificar se um conteúdo foi manipulado, o primeiro passo é a busca reversa. Pelo Google Lens (acessível pelo aplicativo do Google ou no ícone de câmera da barra de busca), você pode varrer a web para localizar a foto original usada na montagem. Outra opção de alta precisão é o TinEye, onde é possível ordenar os resultados para visualizar a versão mais antiga da imagem antes de qualquer edição.

Se a dúvida persistir, o ideal é enviar o arquivo para plataformas especializadas em detecção de IA, como o Hive Moderation. Esses softwares analisam padrões invisíveis de pixels e frequências de áudio para calcular a probabilidade de geração algorítmica. Além disso, marcas d'água digitais embutidas nos metadados, como o SynthID (do Google DeepMind) e o padrão C2PA, ajudam a rastrear a "certidão de nascimento" do arquivo. Também vale consultar o histórico da imagem clicando no recurso "Sobre esta imagem" (nos três pontinhos ao lado dos resultados do Google) para ver quando ela foi indexada pela primeira vez e se já passou por checagem de fatos.

No YouTube, a proteção já pode ser feita de forma proativa. Pelo YouTube Studio, clique na aba “Detecção de Conteúdos” e, depois, em “Semelhanças”. Você vai precisar mandar uma foto do seu documento pessoal e gravar um vídeo curto para cadastrar seus padrões faciais e de voz. Depois disso, a ferramenta de Likeness Detection (detecção de semelhança) varre a plataforma automaticamente em busca de envios não autorizados que simulem sua imagem, facilitando a solicitação de remoção, que é feita com base em regras de privacidade. A ferramenta está disponível para criadores, celebridades, políticos e qualquer usuário do YouTube maior de 18 anos.

Investigar a veracidade das informações que compartilhamos é fundamental. No entanto, quando se trata da intimidade feminina, focar apenas no "é verdade ou mentira?" é nadar na superfície do problema. Seja o conteúdo uma montagem, IA ou uma foto real, repassar esse material perpetua a ideia de que o corpo feminino é de domínio público, disponível para julgamento e entretenimento alheio. Quem aperta o botão de compartilhar deixa de ser mero espectador e se torna cúmplice da violência.

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Também é importante acompanhar o debate público sobre o tema, exigir leis contra a violência digital de gênero, cobrar ação das plataformas de tecnologia e, principalmente, ensinar nossos jovens a respeitar a privacidade alheia. A pergunta que devemos nos fazer antes de repassar qualquer arquivo não é apenas "isso é real?", mas "por que me sinto no direito de expor a intimidade de alguém?".

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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