Artemis II e o abraço que a gravidade não segurou
Entre transmissões em 4K e audiência global, missão marca retorno à órbita da Lua e prova que o maior espetáculo da tecnologia ainda é nossa própria humanidade
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Confesso que ando com dificuldade de me emocionar com novas séries. A última que tentei, inclusive, foi a ficção científica "Pluribus", disponível na Apple TV+ e criada por Vince Gilligan — o gênio por trás de "Breaking bad", uma favorita aqui em casa. Interessante, mas confesso: achei arrastada. Um pouco lenta para o meu ritmo atual, acostumada a ter minha atenção disputada por tantos estímulos domésticos e digitais.
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Mas, nos últimos dias, uma nova história me capturou. Com um roteiro aprimorado ao longo de décadas e uma audiência global, a Missão Artemis II se tornou o fenômeno cultural que eu precisava. Se você não vive na Terra, explico: essa é a nova empreitada da NASA para realizar um sobrevoo ao redor da Lua com quatro astronautas, marcando o retorno humano à órbita lunar desde 1972. O foguete foi lançado na última quarta-feira, 1º de abril, e deve retornar ao nosso planeta na próxima sexta, 10, com um pouso no oceano Pacífico. Além de mim, muitos outros brasileiros ajudaram a colocar o assunto nos trending topics: os dados do Google mostram que o interesse pelo tema saltou 3.200% nos últimos sete dias, com mais de 500 mil consultas vindas apenas do nosso país.
Essa "fome de espaço" não é por acaso. A NASA montou uma operação digna dos maiores players da Creator Economy. Com 14,3 milhões de inscritos no YouTube e mais de 100 milhões de seguidores no Instagram, a agência transportou a órbita lunar diretamente para nossos feeds. Só no YouTube, são duas transmissões ao vivo ininterruptas e resumos diários que nos fazem sentir experts em astronomia entre um café e outro. As imagens, em altíssima definição, são surpreendentes, mesmo para quem, como eu, cresceu cercada por franquias de cinema sobre guerras interestelares e efeitos especiais ultra-realistas.
Estamos acostumados com o espaço pelas cenas de "Star wars" (1977), "Gravidade" (2013), "Interestelar "(2014) ou "A chegada" (2016) — um dos meus favoritos. A ficção nos deu imagens tão perfeitas que o "real" corre o risco de parecer sem graça. Mas é aqui que a realidade bate de frente com a ficção. Por mais que cada segundo seja cronometrado, existe na Artemis II aquela tensão do "risco real" que nenhum roteirista de Hollywood consegue simular. É a sombra de uma nova Apollo 13 (que virou filme em 1995 com Tom Hanks e levou dois Oscars) pairando sobre nós em 4K.
Sabendo desse efeito, a NASA preparou uma ampla cobertura midiática, na ambição de transformar esse feito técnico no maior espetáculo humano da década. E foi um vídeo curto, um reel de bastidor, que, para mim, roubou a cena da tecnologia e me ganhou. Nele, os astronautas sugerem batizar duas crateras lunares. Uma de "Integrity" (integridade), saudando a nave que os levou, inteiros e em segurança, até aquele ponto da viagem. A outra, de forma emocionante, será chamada de "Carroll" — uma homenagem à esposa do comandante Reid Wiseman, que faleceu de câncer em 2020. Na época, Reid quase abandonou o programa espacial para cuidar da família, mas foi encorajado por ela a seguir o sonho.
Às vezes me ponho a pensar no significado de ser humano. Esse vídeo foi, para mim, uma bonita definição. Após o anúncio, emocionada, é possível ver a astronauta Christina Koch limpar as lágrimas e se lançar, sem gravidade, em direção aos colegas. Eles se dão um abraço afetuoso, flutuando no espaço, onde o tempo parece passar em outro ritmo (e passa mesmo). Ali, a tecnologia de bilhões de dólares serviu como testemunha silenciosa de um luto genuíno e de uma cumplicidade profunda, capaz de mostrar o que há de mais sensível nos personagens dessa ambiciosa e perigosa jornada.
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Nenhuma inteligência artificial ou evolução tecnológica seria capaz de replicar a sinceridade daqueles gestos. A emoção de homenagear alguém querido, o acolhimento de ver seus sentimentos reconhecidos, a empatia na ação do outro, e um abraço que celebra a parceria, com suas dificuldades e conquistas. A Artemis II nos mostra que podemos conquistar o ponto mais longínquo do espaço e transmitir tudo ao vivo, em altíssima definição, mas o que ainda nos move, nos engaja e nos faz parar o scroll infinito da tela é a identificação com a nossa própria e insubstituível humanidade.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
