Oscar 2026: as regras para Inteligência Artificial e o valor do analógico
Em um mundo onde quase tudo pode ser otimizado digitalmente, a pergunta que fica é: onde escolhemos ser analógicos?
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O feed de notícias das últimas semanas tem demandado resiliência — especialmente de nós, mulheres. Feminicídios, violência de gênero, desastres climáticos, crises institucionais... e olha que só estamos em março. É uma sensação recorrente de que o mundo opera em modo de urgência e de que, invariavelmente, estou me esquecendo de algo. Nessas horas, respiro fundo e busco frestas de sanidade.
Para mim, o cinema sempre foi esse lugar de inspiração e reflexão. Mais que entretenimento, é um universo capaz de provocar deslocamentos, permitindo uma conexão com o mundo pelo olhar do outro. Como faço todo ano, tento maratonar os indicados ao Oscar, que acontece no próximo domingo (15/3). Mas esta edição traz uma novidade histórica: será a primeira regida por uma posição oficial da Academia sobre o uso de Inteligência Artificial generativa.
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A regra não surgiu do nada, claro. Ela foi anunciada após a temporada passada, quando se discutiu o quanto o uso de IA poderia ter beneficiado produções vitoriosas. É o caso do Respeecher, um gerador de voz baseado em IA. Em "O brutalista" (2024), a ferramenta foi utilizada para aprimorar o sotaque de Adrien Brody e Felicity Jones em húngaro, e em "Emilia Pérez" (2024), ajudou Karla Sofía Gascón a manter o tom nas músicas. A resposta da Academia veio para clarificar a questão: a IA não ajuda nem prejudica o mérito; o julgamento será centrado no grau em que um ser humano esteve no centro da autoria criativa.
Se, de um lado, somos rodeados por essa profusão tecnológica, de outro, há um movimento de valorização do artesanal. Nas telonas, esse é o caso de um dos meus favoritos, "Pecadores" (2025), de Ryan Coogler. Ele escolheu rodar o filme em película de 65mm, com aquela textura granulada que a alta definição tenta, mas não consegue copiar. Nos efeitos, Coogler trocou o digital pelo físico: maquiagem, próteses e lentes de contato reais para conferir o brilho nos olhos dos vilões (sem spoilers!). Até o suor de Michael B. Jordan é fruto de esforço real; o ator, junto com a equipe, encarou os pântanos da Louisiana em takes que exigiram presença, e não apenas pós-produção.
Essa aura analógica não vem necessariamente da técnica, mas está presente no enredo de "O agente secreto" (2025), de Kleber Mendonça Filho, fonte do nosso orgulho de ser brasileiro em 2026. Ao mergulhar no Recife de 1977, o filme nos devolve a um mundo de arquivos de papel, orelhões e vigilância feita a poucos passos de distância — um tempo em que ainda era preciso saber o nome da rua para se chegar a algum lugar. A tensão vivida pelo personagem de Wagner Moura não vem de um efeito high-tech, mas da materialidade física de uma era pré-algoritmo.
Imediatamente sou levada aos primórdios do cinema, com mestres como Georges Méliès. O pai dos efeitos especiais usava truques para envolver a plateia e surpreendê-la com um mundo onde o impossível era possível. A intenção não era enganar, mas encantar (se você ainda não viu, vale conferir "A invenção de Hugo Cabret" (2011), que conta uma parte dessa história). Hoje, o uso da IA muitas vezes aponta para o caminho oposto: um perfeccionismo exagerado que é sintoma de um mundo viciado em filtros. A tecnologia vem "limpando" a realidade, removendo a ruga, a nota fora do tom e o imprevisto. É uma busca por assepsia que nos afasta do real. Quando a imagem se torna perfeita demais, ela deixa de ser um espelho e nos envolve em ilusão, não em encantamento.
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Em um mundo onde quase tudo pode ser otimizado digitalmente, a pergunta que fica é: onde escolhemos ser analógicos? Talvez a resposta esteja na coragem de ser imperfeito (alô, Brené Brown!). Escolher o analógico é valorizar o suor, o grão da película e a voz que oscila, reconhecendo a beleza no erro e no caminho — por vezes torto — construído até o acerto. Sentir o processo, com todas as suas texturas e falhas, ainda é um território completamente humano, que só quem o vive é capaz de processar.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
