Andei sumida desta coluna por motivos de: coisas demais no meu pratinho. Correndo de um lado para o outro tentando equilibrar a vida pessoal e profissional, descobri uma terceira e inesperada — mas muito desejada! — gravidez, que demandou reorganizar as prioridades. Também estreei nos “enta” e aproveitei para me dedicar a reunir familiares e amigos queridos que me ensinaram a ser quem sou para celebrar esse marco da vida, em que já não “somos tãããão jovens”, mas ainda há muita vontade de fazer um milhão de coisas. Enfim, estou de volta.

Neste retorno, retomo o tema da minha última coluna, que não saiu da minha pauta profissional nem das minhas telas nos últimos meses e, possivelmente, nem das suas: Copa do Mundo! O confronto final acontece no próximo domingo, 19/7, e três campeãs mundiais — Espanha, Inglaterra e Argentina — seguem na disputa para levar a taça. Nessa perspectiva, pouca coisa mudou. O desejo de vencer, a tradição de determinadas equipes, a surpresa de azarões cheios de garra que renderam novas celebridades para o esporte (alô, Vozinha!), além de novos contratos de peso no mercado da bola.

Por outro lado, essa Copa foi ancorada em inovações tecnológicas que vão deixar um legado em nossa cultura digital. Porque esse é um evento massivo, capaz de escancarar para o mainstream tendências e mudanças de comportamento que já estavam em curso na sociedade.

O primeiro grande pilar dessa transformação é a consolidação definitiva do streaming como praça pública do esporte. Se em 2022 a internet ainda ensaiava o seu protagonismo no Mundial, desta vez ela ditou o ritmo do jogo. Vimos a CazéTV alcançar marcos históricos no YouTube, batendo picos de audiência na casa dos 20 milhões, que pareciam exclusivos da televisão aberta. A transmissão com chat fervendo, linguagem descontraída e proximidade com o público deixou de ser um formato alternativo para se tornar o padrão de desejo de marcas, torcedores e também de emissoras tradicionais.

Essa é uma mudança sem volta. Diversos canais digitais já asseguram direitos de transmissão de grandes ligas — a própria CazéTV garantiu torneios de peso como a Eurocopa e a Copa do Mundo Feminina no YouTube. O esporte mostrou o que é possível fazer quando o assunto é conteúdo ao vivo, abrindo caminho para o crescimento de outras verticais de entretenimento no digital, como filmes, séries e novelas (tema para outra coluna). 

O segundo legado habita o campo da imaginação — e, claro, da Inteligência Artificial. Se antes o futebol rendia conversas de bar no dia seguinte, hoje ele gera uma avalanche instantânea de narrativas na nossa timeline. A IA generativa se transformou na maior criadora de memes e conteúdos de humor do torneio. Vimos vídeos ultrarrealistas de craques como Vini Jr. e Haaland em situações inusitadas, recriadas a partir de roteiros de filmes, que viralizaram em minutos, engajando os próprios protagonistas.

Mais do que piadas rápidas, a tecnologia permitiu nos emocionarmos com realidades paralelas. Não precisa ser fã do Neymar para se sensibilizar com a conversa entre a sua versão de hoje e seus "eus" do passado e do futuro sobre a tão sonhada glória mundial. Seguindo a lógica das redes, não demorou para o vídeo se multiplicar em incontáveis novos memes, como o de um Neymar fora de forma, vindo do carnaval de Salvador, ou sua versão mineira.

Pegando o gancho no Torneio, ainda vimos a iniciativa fantástica do Google de recriar digitalmente, com apoio de inteligência artificial, o lendário gol de Pelé contra o Juventus na Rua Javari, em 1959, lance emblemático da carreira do jogador que não foi registrado em vídeo. A tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta de edição para se tornar uma máquina de resgate histórico e nostalgia, permitindo que a gente reconstrua momentos do passado ou vislumbre futuros possíveis e impossíveis.

Há ainda um terceiro ângulo — acompanhado por uma boa dose de ruído e controvérsia: a transformação da arbitragem em uma ciência exata com precisão cirúrgica. As partidas foram inundadas por sensores capazes de detectar toques que o olho humano do juíz jamais perceberia no calor do momento.

O jogo entre Croácia e Portugal é um ótimo exemplo. Um gol da Croácia, que selaria o empate nos acréscimos, foi anulado porque os sensores na bola acusaram um contato ínfimo do jogador croata Igor Matanovic com a bola antes de ela chegar ao final da jogada, alterando o destino da partida. O descontentamento do time ecoou o de milhares de torcedores: a tecnologia, que nasceu para corrigir erros evidentes, como o gol de mão de Maradona em 1986, passou a rastrear imperfeições invisíveis a olho nu, redefinindo o que consideramos um lance interpretativo.

Tudo isso nos empurra para uma reflexão sobre o que essa Copa nos deixa. O impacto dessas inovações vai muito além das regras do futebol; ele espelha o nosso próprio comportamento em sociedade. Vivemos uma era obcecada pela exatidão, pelo controle de dados e pela eficiência milimétrica. A tecnologia nos entrega ferramentas fantásticas de justiça, conectividade e resgate da memória. No entanto, o desafio ético e democrático do nosso tempo é entender como integrar essa precisão à nossa capacidade de lidar com o imprevisto, com a controvérsia e com a espontaneidade.

Garantir uma tecnologia mais ética e democrática não significa frear o progresso, mas sim humanizá-lo, abrindo espaço para que todos nós tenhamos voz sobre os limites dessas ferramentas. A beleza da inovação está em nos abrir novas janelas para o mundo; mas a graça da vida — e do futebol — continua residindo no imprevisível. Mora no desvio inesperado da bola, no salto milagroso do goleiro ou na surpresa de uma gravidez que chega para reorganizar nossos planos. Coisas que a gente simplesmente sente e vive, e que nenhum algoritmo ainda é capaz de calcular.


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