LC
Luiz Carlos Azedo
Luiz Carlos Azedo

O velho iberismo na encruzilhada da história que pauta Lula e Flávio

A eleição presidencial brasileira é a mais importante fora dos Estados Unidos em 2026, avalia Daron Acemoglu, vencedor do Prêmio Nobel de Economia

Publicidade

Mais lidas


Sim, os resultados da nossa democracia são insuficientes diante da desigualdade brasileira, mas não autorizam tratar a redemocratização como um grande fracasso.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

A eleição presidencial brasileira é a mais importante fora dos Estados Unidos em 2026, avalia Daron Acemoglu, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), laureado com o Nobel de Economia. Em entrevista à BBC News Brasil, o economista compara a eventual volta da família Bolsonaro ao poder à decisão dos americanos de reconduzir Donald Trump à Casa Branca. Seu alerta ultrapassa a disputa entre candidatos: segundo ele, está em jogo o lugar do Brasil na crise das democracias e na reorganização do poder mundial.

Mais uma vez, o país chega a uma encruzilhada histórica, na qual suas contradições internas se encontram com as grandes transformações internacionais. Desde a expansão marítima portuguesa, participamos das conexões entre Ocidente e Oriente. A chegada de Cabral ocorreu numa expedição destinada à Índia. Mais tarde, sobretudo a partir da segunda metade do século 17, Salvador se consolidou como escala da Carreira da Índia, integrando circuitos que ligavam Europa, África, América e Ásia. Antes de existir como nação, o Brasil já participava da economia mundial.

Essa inserção deixou marcas. A colonização nos vinculou à circulação internacional de mercadorias, pessoas e conhecimentos, mas organizou a sociedade pela escravidão, pelo monopólio e pela concentração da propriedade. A conexão com o mundo conviveu com o fechamento das oportunidades dentro de casa. A riqueza atravessava os oceanos; a cidadania encontrava barreiras na estrutura social.
É nesse sentido que o velho liberalismo continua sendo uma chave para compreensão do presente. Não como destino cultural inevitável, embora sua presença seja uma vertente de nossa identidade nacional, nem como explicação para todos os nossos males, como fazem aqueles que veem no povo o grande problema, mas como uma herança da centralização do poder, hierarquias sociais e dependência da sociedade em relação ao Estado.

Nossa modernização frequentemente avançou por decisões tomadas de cima, mediante acordos entre elites que incorporavam demandas populares sem distribuir o poder na mesma proporção e, muito menos, o conhecimento e a renda.

Nosso populismo é parte desse processo. Como destaca Alberto Aggio, em seu livro “Um lugar no mundo” (Fundação Astrojildo Pereira), não cabe reduzi-lo a simples demagogias. Sua emergência correspondeu à crise da ordem liberal oligárquica e à tentativa de construir sociedades industriais com protagonismo estatal. A nossa revolução burguesa foi passiva, incorporou trabalhadores pela legislação social, mas submeteu sua organização à tutela do Estado. Ampliou direitos e restringiu autonomia.

A Constituição de 1988 procurou superar essa cidadania tutelada ao combinar direitos sociais, liberdades individuais e participação democrática. Sim, seus resultados são insuficientes diante da desigualdade brasileira, mas não autorizam tratar a redemocratização como um grande fracasso. O impasse está na dificuldade de converter direitos reconhecidos em serviços de qualidade, oportunidades e segurança, enquanto grupos organizados, velhas oligarquias e corporações do poder instalado capturam recursos e instituições.

Entre dois mundos

É aqui que o economista norte-americano volta a essa história. Em seu novo livro “What happened to liberal democracy?”, Acemoglu relaciona a vitalidade da democracia liberal à prosperidade compartilhada, ao governo democrático e à liberdade de produzir conhecimento. Sua reconstrução exige, pois, recuperar as condições sociais que tornam a liberdade efetiva para a maioria.

Resguardadas as mudanças na estrutura e na composição das classes sociais no Brasil, o velho dilema da “classe em si” ou “classe para si” pode ser traduzido pela seguinte pergunta: como assegurar que o trabalhador seja um cidadão autônomo, com voz e perspectivas de ascensão? Essa é a tarefa inconclusa para social-democratas e liberais, no poder ou fora dele. As razões também são uma boa discussão para depois das eleições.

Nossa relação com o exterior tem a ver com isso. A tradição diplomática brasileira construiu instrumentos para ampliar a margem de decisão nacional diante das potências. Em diferentes governos e regimes, houve esforços para negociar vantagens, diversificar parceiros e evitar compromissos que subordinassem o desenvolvimento brasileiro às prioridades alheias. Essa tradição produziu um patrimônio de Estado, que está em risco nessas eleições.

Agora, a rivalidade entre Estados Unidos e China recoloca o Brasil entre dois grandes centros de poder. Entretanto, é um erro transformar essa circunstância numa escolha simplista. A aproximação com Washington não constitui, por si, uma garantia democrática, assim como o comércio com Pequim não determina nosso regime político. O critério deve ser o interesse nacional, submetido ao debate público e aos limites constitucionais.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Relações com os Estados Unidos, a China, a União Europeia e o Brics precisam ser avaliadas por seus efeitos sobre emprego, tecnologia, produtividade e capacidade de decisão. Nossa soberania perderá substância se depender excessivamente de qualquer parceiro ou com uma corrente política estrangeira como referência de autoridade para lideranças nacionais. Isso também coloca em xeque nossa democracia representativa.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay