LC
Luiz Carlos Azedo
ENTRE LINHAS

O soft power de Flávio Bolsonaro em busca dos votos voláteis do centro

Lula mantém sua base social tradicional nos estratos de menor renda, mas enfrenta limites claros para expandir sua coalizão e dialogar com o eleitor moderado

Publicidade

Mais lidas

Por definição, a expressão soft power, ou seja, “poder brando”, é usada nos meios diplomáticos para explicar a capacidade de um país influenciar o comportamento e as preferências de outras nações por meio da atração e persuasão, em vez de coerção militar ou econômica (hard power). Ou seja, tudo a contrário do que faz o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover


O termo foi criado por Joseph Nye, que foi professor e reitor de Harvard, o pioneiro ao defender a projeção de poder de forma intangível, por meio da música, do cinema, da gastronomia, da literatura, da cooperação e do humanismo, entre outras formas. É uma estratégia para ganhar “corações e mentes” em vez de território. O bolsonarismo não tem nada a ver com o soft power, certo? Errado. Um vídeo de Flávio Bolsonaro que viraliza nas redes mostra o principal candidato de oposição em contraponto, digamos, imagético, ao próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.


O candidato da extrema-direita se apresenta como principal polo de oposição moderada ao governo Lula, com foco na conquista do eleitorado de centro, a partir de uma narrativa de crítica à gestão econômica e à crise de governabilidade. A peça enfatiza a ideia de que o país vive um momento de esgotamento político, marcado por escândalos, inflação persistente e perda de poder de compra. Flávio Bolsonaro busca dialogar com o sentimento difuso de insatisfação presente nas pesquisas de opinião.


Dirigindo o próprio carro, se apresenta como um cidadão comum, dedicado à vida familiar em primeiro lugar. Evita o tom ideológico e aposta numa abordagem mais pragmática, voltada à classe média e aos eleitores indecisos. Ao mesmo tempo que associa sua imagem a ordem, eficiência administrativa e responsabilidade fiscal, explora a percepção de fragilidade do governo no Congresso. As referências ao bolsonarismo são indiretas e suavizadas; o perfil é institucional, menos militante.


Flávio Bolsonaro ainda busca um marqueteiro para chefiar sua campanha, porém, Marcos Carvalho, estrategista digital de Jair Bolsonaro em 2018, é quem já cuida das redes sociais. O rumo da campanha está dado, tem a cara do coordenador, senador Rogério Marinho (PL-RN), e não dos irmãos Carlos e Eduardo. O vídeo sugere que há espaço para mudança, reforça a ideia de que Flávio Bolsonaro pode representar uma alternativa viável; procura neutralizar resistências, evita temas polarizadores e prioriza a estabilidade e a previsibilidade. O objetivo é capturar o eleitor moderado, que hoje oscila entre rejeições e busca uma opção competitiva fora do campo governista.


É esse eleitor que anda fugindo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O cenário eleitoral captado pela pesquisa Realtime Big Data divulgada ontem, 5 de maio de 2026, mostra porque a estratégia de Flávio Bolsonaro é uma ameaça à reeleição do petista. O país está preso entre rejeições elevadas, polarização persistente e ausência de uma alternativa capaz de reorganizar o centro.

Swing voters

Os dados revelam um sistema travado, no qual a disputa segue sendo estruturada mais pelo antagonismo do que pela construção de maiorias sociais estáveis. Nesse ambiente, o soft power da extrema-direita não chega a ser uma surpresa, porque na política brasileira o que se fala a maioria das vezes não é o que se faz. Mas sua capacidade de penetrar no eleitorado flutuante, não por adesão ideológica, mas por captura do descontentamento, não pode ser subestimada.


No primeiro turno, Lula aparece com 40% das intenções de voto, contra 34% de Flávio Bolsonaro, enquanto Ronaldo Caiado e Romeu Zema pontuam apenas 5% e 4%, respectivamente. A fragmentação do campo alternativo é evidente. Mesmo quando o cenário muda, Lula recua a 38% e Flávio a 33%, mantendo-se praticamente inalterada a lógica de dispersão do centro. Ou seja, há uma oferta de candidaturas, mas não há um polo competitivo capaz de romper a polarização.


O dado mais revelador, entretanto, está no segundo turno. Flávio Bolsonaro aparece com 44% contra 43% de Lula, em empate técnico com leve vantagem para a candidatura de direita . Mais do que a fotografia, importa o movimento: entre março e maio, Flávio cresce de 41% para 44%, enquanto Lula oscila de 42% para 43%, graças ao eleitor moderado, exatamente aquele grupo que o cientista político Carlos Melo, ontem, em artigo no Globo, descreveu como os swing voters, que migram conforme o humor do momento.


No centro político, diferente dos “indecisos”, esses eleitores são conscientes e escolhem quem melhor representa seus interesses naquela conjuntura. Nesse contexto, as candidaturas de Ronaldo Caiado e Romeu Zema assumem um papel peculiar. Os números mostram que são intercambiáveis com Flávio Bolsonaro. Vão levar a eleição para o segundo turno, mas Lula não pode contar com eles.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


O presidente mantém sua base social tradicional, ancorada nos estratos de menor renda, mas enfrenta limites claros para expandir sua coalizão. A rejeição elevada e a percepção de governo estreito dificultam o diálogo com o eleitor moderado. Como sugere Melo, Lula parece ter subestimado a necessidade de reconstruir pontes com esse segmento, apostou num capital político que já não possui. Seu isolamento relativo é agravado porque o Congresso ampliou seu poder e reduziu a capacidade de coordenação do Executivo. Nesse cenário, o Centrão opera como força autônoma, à espera da hora certa de apoiar quem vai ganhar.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

eleicoes flavio-bolsonaro lula votos

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay