Comunicação para a vida
A comunicação amadurece quando aceitamos que nem sempre teremos a resposta certa, a palavra exata ou a segurança desejada
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
Há uma diferença, por vezes quase imperceptível, entre o que uma pessoa diz e o que transmite. Alguém pode afirmar estar seguro e, ao mesmo tempo, evitar o olhar, hesitar ou demonstrar tensão nos gestos. As palavras podem estar corretas e o argumento, bem construído, mas a comunicação também passa pelo tom de voz, pelas pausas, pela postura e pela maneira de reagir ao outro. Nenhum desses sinais, isoladamente, revela com certeza o que alguém pensa ou sente, mas, em conjunto, eles ajudam a formar a percepção que temos de quem está diante de nós.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Por isso, comunicar-se bem exige mais do que dominar as palavras; exige coerência entre o que se pretende dizer e a forma como se está presente na conversa. Essa coerência, porém, se perde quando há um esforço constante para causar uma boa impressão. Em ambientes profissionais e sociais, é natural cuidar da maneira como nos apresentamos, mas esse cuidado se torna um problema quando ocupa tanto espaço que a pessoa deixa de prestar atenção no encontro que está acontecendo.
- Proteção de ativos: você blinda a empresa, mas quem cuida do seu corpo?
- A ilusão do faturamento: o risco invisível que derruba gigantes
- Profissionais competentes também fracassam por falta de comunicação
Quem se observa o tempo inteiro também escuta menos: calcula a resposta antes que o outro termine, procura sinais de aprovação, corrige a própria postura e tenta descobrir se agradou. Com isso, a espontaneidade diminui, e o esforço para demonstrar segurança pode produzir a impressão contrária. A confiança, afinal, não depende de atravessar todas as situações sem medo ou hesitação. É possível estar nervoso antes de uma reunião, conduzi-la bem e admitir, quando necessário, que não se tem uma resposta. Há segurança também em reconhecer limites sem transformar cada falha em ameaça à própria imagem.
A autoestima interfere diretamente nesse processo. Quem chega a uma conversa convencido de que será julgado tende a procurar sinais de desaprovação, enquanto quem precisa demonstrar superioridade pode transformar o diálogo em disputa. Nos dois casos, o interlocutor passa a ocupar o lugar de juiz, concorrente ou plateia. As comparações reforçam esse desequilíbrio, porque quase nunca são feitas em condições equivalentes: conhecemos de perto nossas hesitações e inseguranças, mas dos outros vemos apenas a parte exposta.
Joseph Martin, autor de “A arte da comunicação”, diz que “parecer confiante e ser confiante não são a mesma coisa”. Para ele, a tentativa de fabricar segurança por meio de gestos, postura ou comportamento pode produzir o efeito contrário e tornar o comportamento menos natural. A confiança se torna mais consistente quando se apoia numa percepção equilibrada de si, sem sentimento de inferioridade nem necessidade de demonstrar superioridade. Nesse sentido, a naturalidade decorre da coerência entre aquilo que a pessoa pensa, sente e demonstra.
Timidez, medo de errar ou qualquer característica percebida como defeito pode ganhar ainda mais peso quando há um esforço constante para disfarçá-la. A atenção se afasta da conversa e passa a se concentrar na vigilância sobre si mesmo: será que perceberam? Reconhecer uma dificuldade, no entanto, é diferente de se resignar a ela. Limites podem ser trabalhados com preparo, experiência e consciência. Em muitos casos, admitir um limite é mais produtivo do que gastar energia tentando convencer os outros e a si mesmo de que ele não existe.
Leia Mais
A comunicação amadurece quando aceitamos que nem sempre teremos a resposta certa, a palavra exata ou a segurança desejada e que isso, por si só, não compromete uma relação. Quando deixamos de controlar a própria imagem a todo instante, sobra mais atenção para escutar, perceber o outro e acompanhar o que de fato está acontecendo na conversa. As palavras encontram um ritmo mais natural, as pausas deixam de incomodar e o encontro deixa de funcionar como uma apresentação permanente de si mesmo.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
No fim, uma conversa muda quando deixamos de nos preocupar o tempo todo com a impressão que causamos e passamos a prestar atenção, de fato, na pessoa que está diante de nós.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.