Nasci e cresci no Prado, exatamente na Rua Turfa. Rua boa, larga, nem íngreme, nem plana, calçada de pedra, uma casa depois da outra e suas cozinhas cheirando a comida gostosa. Minha rua era um retrato da comida belo-horizontina, uma mistura das muitas Minas: a do Norte, a do Sul, a do Triângulo, a da Zona da Mata, a de Ouro Preto, a de Sabará e, ainda, a da Itália.
Outro dia, fui cozinhar no Prado em um evento de rua. O convite me catapultou para os cheiros e sabores do passado, a começar pela carne de panela da dona Erci. Na minha casa, a comida era um pouco metida a besta: cozinhava-se carne “de primeira” – alcatra, patinho, filé, lombo e, como concessão, lagarto e chã de dentro. Nenhuma delas cheirava como a carne de panela da dona Erci. Tinha vontade de pedir um naquinho daquela carne cozida até desfiar, mas tinha vergonha; só olhava.
Esse cheirinho bom ficou grudado em mim e até hoje sou vidrada em carne de panela. Pesquiso, testo cortes diferentes, coloco laranja, evito pressão, persigo aquela crostinha mágica que fica no fundo da panela e espalha caramelo, pingo e frito. Amarro bonito uns galhos de alecrim, de tomilho e de louro, e chamo São Benedito! Fica uma delícia, mas não é igual àquela carne que lembro bem de ver na panela da casa da vizinha.
Dona Erci era casada com seu Lindolfo, uma família muito grande e animada que veio de Pitangui. Uma vez viajei com eles em uma excursão para o Sul do Brasil. Uma viagem inesquecível: um tanto de gente grande, alguns idosos e duas crianças – eu e a Lulu, filha do casal. Imagine esse grupo num ônibus, estrada afora! Era uma cantoria, uma gritaria e uma risaiada sem fim. Mas o melhor de tudo era uma lata de paçoca de carne que circulava entre as poltronas do busão. Nunca tinha visto aquilo! Como de costume, comia-se com a mão e de arremesso, uma maravilha!
Quando virei cozinheira de verdade, logo quis aprender a fazer essa iguaria. Semana passada, na Semana Criativa de Tiradentes, preparei ao vivo essa receita e lançamos o Primeiro Campeonato de Arremesso de Paçoca de Minas Gerais, quiçá do universo!
Para acompanhar a sonhada carne da dona Erci, ficava imaginando o que se servia lá em casa, o imbatível arroz soltinho com feijão cremoso e as batatas da minha mãe, sempre bem douradinhas por fora e claras por dentro, no ponto perfeito entre firmes e macias. Farofa não podia faltar, e a glória era quando vinham duas empadinhas de queijo Minas (naquela época tratado assim, genericamente). Se tivesse couve fininha assustada na banha com um tiquitinho de alho, o que já era bom ficava melhor ainda.
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Em ocasiões especiais, outros pratos vinham para a cozinha da vizinhança. Na casa da dona Mafalda, descendente de italianos, o espetáculo eram os capeletes. Ela juntava a família toda, filhos e filhas, e ainda uma vizinha enxerida como eu. E dá-lhe serviço: abrir a massa, cortar, rechear, moldar... Não me lembro de ter comido os capeletes, só lembro mesmo do ritual e de ver as mesas todas da casa – da copa, da cozinha e da sala de jantar – cheias de discos de massa. Pois, quando preciso de uma comida capaz de me tirar da escuridão, desejo capelete al brodo.
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Para arrematar as refeições, era inevitável a goiabada com queijo ou uma bacia de laranja descascada na hora, em meio a muita conversa fiada. Quando o responsável por essa tarefa conseguia tirar uma fita de casca inteirinha, as meninas disputavam o troféu. A mágica era rodar a casca dizendo o abecedário inteirinho. Quando a casca arrebentava, a letra que estava sendo dita correspondia ao nome do moço com quem ela iria se casar. Gente, quem será que inventou essa brincadeira? Não sei, só sei que era assim!
