O movimento era grande em frente ao Teatro da Cidade, no Centro de BH, na segunda-feira (9/2) à noite. O pessoal descia a escada rapidamente, não para se abrigar do temporal que caía na cidade, mas para garantir bom lugar na plateia do ensaio aberto de “Dona Doida”, o primeiro monólogo dirigido por Pedro Paulo Cava em seis décadas de carreira, inspirado na obra de Adélia Prado. Ele provou ter uma legião de admiradores, que não se importaram com a chuva e atenderam ao convite para conferir o espetáculo protagonizado por Lívia Gaudencio.
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Desde 1981, Pedro Paulo recebe o público em ensaios abertos de suas peças. “É sempre um prazer, porque uso esta técnica para medir a reação das pessoas ao que veem aqui”, disse o diretor, antes do terceiro sinal. O espetáculo não está finalizado.
Lívia Gaudencio no ensaio geral da nova versão de 'Dona Doida', no Teatro da Cidade, em BH
“Não tem luz pronta, não tem cenário todo pronto. Vocês vão assistir a um ensaio sujeito a chuvas e trovoadas. Pode parar, pode voltar atrás. Ensaio é o exercício principal do diretor, de quem encena, porque depois da estreia o espetáculo já não é mais do diretor. É de quem está em cena, dos atores. Mas, até lá, fazemos todos os ajustes para termos um bom resultado”, explicou Cava. Disse também que o público ali presente assistiria a “um quase espetáculo sujeito a tudo, sujeito a erros”. A peça estreia em 6 de março no Teatro Cidade.
• GESTAÇÃO
O trecho apresentado durou pouco mais de 35 minutos, sem interrupção. Pedro Paulo contou que há oito meses trabalha no texto de “Dona Doida”, a partir de poemas de Adélia Prado transformados por ele em prosa. “Não foi fácil. É uma poesia intimista, às vezes assustadora, contundente, vigorosa, feminina. Pegar centenas de poemas de Adélia, estudá-los e transformá-los em texto dramático não é uma brincadeira, foi por isso que fiz. Como a própria Adélia fala, artista tem licença poética para enlouquecer.”
O diretor Pedro Paulo Cava transformou poemas de Adélia Prado em prosa na nova versão do monólogo 'Dona Doida', que estreia em março em BH
Pedro Paulo “inventou” Adélia Prado em “Dona Doida”. “Não sabemos a vida pessoal dela, não colocamos o olho no buraco da fechadura para saber como é a vida da Adélia. Ao criar este espetáculo, fomos aos poucos criando Adélia”, comentou. A atriz Lívia Gaudencio deu grande contribuição, por meio das cartas que escreveu para a poeta. “Mandou uma, há muitos anos, mas não teve resposta. Mas continuou insistindo em escrever para ela”, contou o diretor.
Fã da escritora, Pedro Paulo torce para que ela, do alto de seus 90 anos, possa escrever muitos poemas. Adélia Prado teve alta no último fim de semana, depois de passar 20 dias no hospital em Divinópolis, onde se submeteu a duas cirurgias. Em janeiro, ela caiu em casa, fraturando fêmur, cotovelo e punho.
• “LUA DE CETIM”
Pedro contou uma história curiosa. No final dos anos 1980, foi a Divinópolis com a peça “Lua de cetim”, um de seus maiores sucessos. Na plateia de uma das sessões estavam Adélia Prado, Fernanda Montenegro e Naum Alves de Souza.
“Este trio maravilhoso, justamente naqueles dias, discutia o espetáculo baseado nos poemas da Adélia. Saímos todos para jantar e conversamos muito. Naum fez a peça, mas não criou uma dramaturgia. Colocou um poema, depois outro, e a Fernanda declamava esses poemas”, relembra, referindo-se a “Dona Doida”, que estreou em 1987, no Rio de Janeiro.
Depois da pandemia, Pedro Paulo tentou procurar o texto daquele monólogo, mas não conseguiu a cópia nem com Adélia, nem com Fernanda e muito menos com a Sociedade Brasileira de Autores de Texto (Sbat). Conseguiu apenas alguns poemas que Naum colocou na montagem.
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“Eu quis fazer uma coisa completamente diferente. Já que não achei o texto original, resolvi fazer dessa maneira”, afirmou, ao comentar o novo monólogo. “Sou muito fã da Adélia. A poesia dela toca a gente, independentemente de você ser homem ou mulher. Bate lá no fundo.”
