Os iluministas, desde o século XVII, depositavam na crescente racionalização do mundo a esperança de romper com todos os mitos e ignorâncias que marcaram a história. Porém, a empolgação e o otimismo nem sempre são bons conselheiros. É possível que eles não tenham percebido que o excesso de iluminação também cega ou, no mínimo, traz consigo uma contradição: onde há luz, também há sombras.

Abusca pela verdade e pela otimização das relações sociais sempre foram fetiches da consciência humana. Isso funcionaria bem se fôssemos seres plenamente racionais, guiados apenas por essa instância nobre chamada pensamento. O buraco é mais embaixo. Conhecer bem não é garantia de agir bem, como acreditavam Sócrates e Platão. Desde Nietzsche, passando por Darwin e Freud, deparamo-nos com uma realidade muito mais complexa.

Pulsões, instintos, desejos e agressividade não devem ser vistos apenas como produtos das escolhas humanas. Ao contrário: muitas vezes, são justamente a causa das ações. Isso muda tudo. Dizer que o homem não é senhor nem mesmo de sua própria casa não é apenas uma frase de efeito, mas uma compreensão antropológica que nos ajuda a entender a organização social. Quantas vezes, ao longo do dia, não nos deparamos com ações — nossas e dos outros — que escapam à explicação racional?

Para um olhar otimista — e frequentemente simplificador da realidade — bastaria aumentar as aulas de ética nas escolas para que a violência e a corrupção diminuíssem. O mal seria, então, uma espécie de déficit cognitivo, um problema de formação. Se fosse assim, bastaria um projeto universal de educação para que xenofobia, racismo, misoginia e homofobia fossem eliminados de nosso meio. Infelizmente, a filosofia e a educação alemãs não foram capazes de impedir a criação de Auschwitz — e tampouco nossa educação e nossa racionalidade são suficientes para garantir que algo semelhante jamais volte a acontecer.

A fechada no trânsito que gera a discussão, a angústia que surge sem sabermos de onde vem, os vícios que nos prendem a atitudes autodestrutivas: tudo isso revela que carregamos uma verdade insuportável à qual ainda não temos acesso. Talvez por isso seja tão difícil encará-la diretamente, pois não suportaríamos o peso daquilo que produz nossos gestos mais decisivos. É a vitória da vontade sobre a razão, como quase sempre acontece.

Não se trata de “liberar geral”, desconsiderar a importância da inteligência e fazer tudo o que se deseja, mas de tomar consciência de que talvez não sejamos tão nobres quanto imaginamos. Baixar a bola diante do universo é uma tarefa importante, sobretudo em tempos de culto à riqueza e de fascínio pela inteligência artificial.

O homem contemporâneo talvez ainda possua a mesma estrutura psíquica de um sujeito da Idade Média, porém agora marcada por uma dependência tecnológica muito maior. Por isso, não podemos cair no romantismo de afirmar que somos melhores ou mais emancipados do que um indivíduo que vivia no feudalismo. Isso não significa dizer que viver naquela época fosse melhor. Significa apenas reconhecer que, naquele contexto, exigia-se das pessoas o domínio das ferramentas — sociais e tecnológicas — necessárias à própria sobrevivência. De nós, cada vez menos.

Por isso, não somos necessariamente criadores de tecnologia, mas sobretudo usuários — definição semelhante à de quem vive sob outro tipo de dependência, como a química. A prova disso é que muitas pessoas não conseguem sequer se locomover em sua própria cidade sem o auxílio de smartphones. Se a internet cai ou o aparelho desaparece, o caos se instala. Muitos já não conseguem voltar para casa sem orientação digital. É triste quando um ser humano terceiriza o próprio direito de ir e vir dentro de seu “feudo”. Na Idade Média, isso seria impensável. Seríamos hoje mais dependentes? Mas as revoluções — políticas, industriais ecientíficas — não deveriam ter ampliado nossa autonomia?

A crescente racionalização do mundo, como aponta Max Weber, não oferece garantia de maior autonomia ou avanço social; ao contrário, coloca-nos diante do desencantamento do mundo e da submissão a forças cada vez mais impessoais. Isso porque não se trata apenas do uso da razão, mas da criação de técnicas que tornam a eficiência ainda mais eficiente. Ou seja, ações esvaziadas de sentido, mas cada vez mais rápidas e produtivas. Ganha-se em velocidade e desempenho, mas perde-se a possibilidade de construir significado.

O aumento da velocidade do cálculo nem sempre representa um avanço humano verdadeiro. Afinal, acelerar processos não significa, necessariamente, acelerar a razão, a prudência ou a nobreza de espírito. Em muitos casos, o que se potencializa não é a capacidade de reflexão ética, mas as possibilidades de exploração, controle e destruição. A técnica torna mais eficiente aquilo que já existe no homem — inclusive suas pulsões perversas, sua ganância e sua vontade de dominação.

O reino do cálculo, quando desvinculado de qualquer horizonte humano, pode se transformar apenas em uma máquina sofisticada de produzir violência com maior precisão e velocidade. A história mostra que inteligência técnica e barbárie nunca foram incompatíveis: guerras, genocídios e sistemas de exploração também dependeram de planejamento racional e de enorme eficiência operacional. O problema, portanto, não está apenas na capacidade de calcular, mas na ausência de sentido humano que orienta esse cálculo. Uma destruição mais eficiente continua sendo destruição — apenas mais rápida, mais limpa e, talvez por isso mesmo, ainda mais assustadora.

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Chegar mais rápido não significa, necessariamente, chegar ao lugar onde gostaríamos de estar — sobretudo quando isso ocorre à custa dadestruição daquilo que realmente nos faz humanos.

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