Não sei muito bem por quê, mas, vira e mexe, vem alguém me fazer perguntas sobre racismo para as quais eu gostaria, mas, evidentemente, não tenho resposta. E geralmente são perguntas bastante objetivas para problemas que levariam algumas horas, muitos livros, uns bons copos de cerveja e talvez algumas gerações para começar a responder. “Quando você acha que o racismo vai acabar no Brasil?” foi uma delas. Quem me perguntou foi uma conhecida negra de quem gosto bastante. Mulher negra, concursada federal, pós-graduada, dessas que não precisam que ninguém explique que o racismo existe. Todo ano, inclusive, ela coloca o corpo na rua integrando o corpo de baile de um bloco afro.

Eu poderia ter respondido com escravidão, abolição inconclusa, racismo estrutural, distribuição de renda, acesso à educação, violência, mercado de trabalho, representação política. Poderia ter puxado uma Sueli Carneiro da bolsa e transformado uma conversa despretensiosa numa banca de qualificação. Ninguém merece. Preferi devolver a pergunta de outro jeito: “Em quantas mulheres negras você votou na última eleição?” Ela pensou e respondeu que em nenhuma. Então perguntei sobre a eleição anterior, e ela novamente respondeu que não votou em nenhuma. Até que veio a resposta que me deixou genuinamente surpresa: “Acho que nunca votei em uma mulher negra”.

E foi nesse momento que a pergunta “quando o racismo vai acabar?” ficou muito mais interessante para mim. Não por achar que o racismo brasileiro acabaria se todas as mulheres negras passassem a votar exclusivamente em mulheres negras. Seria uma resposta tão simplória quanto a pergunta original. Tampouco acredito que toda pessoa negra, por ser negra, esteja automaticamente comprometida com o enfrentamento ao racismo. Conhecendo Fernando Holiday, Negão do Bolsonaro, Sergio Camargo, dentre tantos outros e outras, nós sabemos que não.

O que aquela conversa colocou diante de mim foi outra questão. O que fazemos politicamente com a consciência racial que dizemos ter? Porque é relativamente fácil reconhecer o racismo quando ele acontece conosco. É possível identificá-lo no mercado de trabalho, na abordagem policial, na ausência de pessoas negras nos lugares de prestígio, no salário menor, na televisão, nas universidades, nas empresas, no Judiciário e, óbvio, na política.

 

O mais complicado é perceber que muitas de nós somos persuadidas a fortalecer a permanência dos que nos oprimem com escolhas aparentemente individuais. E o voto é uma delas. Foi aí que comecei a pensar numa pergunta urgente, sobretudo para nós, mulheres negras: para que conquistamos o direito ao voto se não discutirmos também para onde estamos direcionando o poder que existe nele? Não se trata de substituir uma obediência eleitoral por outra. Mulheres negras não são um bloco homogêneo. Pensamos diferente, temos ideologias distintas, projetos de sociedade diferentes e, como qualquer candidato, uma mulher negra precisa ser interrogada sobre suas propostas, sua trajetória e os interesses que representa. A questão é outra. Por que aprendemos tão facilmente a reconhecer determinados corpos como naturalmente aptos ao poder?

A gente confia em mulheres negras para organizar a comunidade, para cuidar dos filhos, para cuidar dos nossos pais, a gente confia para ensinar, para aconselhar, para liderar movimento social de forma voluntária, confia inclusive para organizar campanha, pedir voto, montar campanha, para distribuir santinho e até para convencer os outros a votar. Mas confiamos em mulher negra para receber o nosso voto?

Essa pergunta é importante porque votar não é apenas escolher uma pessoa, votar é distribuir poder. E poder significa decidir orçamento, formular políticas públicas, elaborar leis, fiscalizar governos e determinar quais problemas serão tratados como urgentes e quais poderão esperar mais quatro anos e até oito, no caso do Senado. Por esse motivo, existe algo que me inquieta naquela conversa até hoje. Uma mulher negra, escolarizada, participante de um bloco afro, perfeitamente consciente da existência do racismo, olhava para a ausência de mulheres negras nos espaços de poder como parte de um problema chamado “racismo”. Mas nunca havia pensado no próprio voto dentro dessa equação.

Aos poucos, fui constatando que ela não é uma exceção, infelizmente talvez seja a regra. Até porque nós, mulheres negras, somos parte da população do país. São mais de 60 milhões, 28,5% dos brasileiros, e correspondemos também à maior percentagem de brasileiros em idade ativa: 48,3 milhões, ou 28,4% do total. No entanto, dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que nós representávamos apenas 4,98% das candidatas eleitas para mandatos legislativos nas câmaras municipais em 2016, 6,36% em 2020 e 7,46% em 2024. No mesmo intervalo, os homens brancos seguiram como o grupo dominante: 48,66% dos eleitos em 2016, 44,02% em 2020 e 42,35% em 2024. Ainda que a hegemonia esteja em leve declínio, o ritmo da mudança é lento e desigual.

Nos últimos anos, o número de mulheres negras que disputaram mandatos legislativos aumentou, mas pouquíssimas conseguiram se eleger. No Congresso Nacional, as negras ocupam apenas 8% das cadeiras. Nas assembleias legislativas, as negras também seguem sub-representadas. Enquanto o número de mulheres brancas eleitas em 2022 continuou praticamente o mesmo, o de negras (pretas e pardas) subiu de 51 para 74 cadeiras em um universo de 1.059 parlamentares.

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Não escrevo isso para transformar mulheres negras em culpadas pela própria sub-representação política. Seria intelectualmente desonesto ignorar partidos, financiamento eleitoral, estruturas de campanha, acesso aos meios de comunicação e todas as barreiras que tornam algumas candidaturas muito mais competitivas do que outras. Estou falando daquilo que acontece quando finalmente estamos sozinhas diante da urna. Do nosso senso crítico, do nosso direito de transgredir essas normas implícitas ao nosso favor. E aí volto à pergunta daquela conhecida. Quanto tempo ainda falta para o racismo acabar no Brasil? Não sei, continuo sem saber responder. Mas talvez eu tenha encontrado uma pergunta melhor: Em quantas mulheres negras você vai votar no domingo?

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