Brincando de ser racista
Quando alguém se recusa a jogar esse jogo, o incômodo não recai sobre a injustiça. Recai sobre quem a denuncia
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Já faz algum tempo que sou vista por algumas pessoas como "criadora de caso". E talvez elas tenham razão. Talvez eu realmente crie casos. Ou talvez eu apenas me recuse a aceitar aquilo que muita gente aprendeu a chamar de normal. Observando o comportamento das pessoas ao meu redor, percebi que existe uma enorme turma do "deixa disso". Alguns dizem essas palavras com todas as letras. Outros nunca as pronunciam, mas vivem como se elas fossem um princípio de vida.
São pessoas que aprenderam a conviver com as pequenas e grandes injustiças do cotidiano. Aceitam que alguém seja tratado melhor porque tem dinheiro. Porque é amigo de alguém. Porque foi indicado por alguém "importante". Porque ocupa um cargo. Porque pertence ao grupo certo. Sabem que há algo errado, mas preferem adaptar-se às regras não escritas do jogo a questioná-las.
- Gritaram-me macaca, e daí?
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- Quem o seu silêncio protege, Ludmilla?
O curioso é que, quando alguém se recusa a jogar esse jogo, o incômodo não recai sobre a injustiça. Recai sobre quem a denuncia. As pessoas parecem sentir mais desconforto diante de quem rompe o silêncio do que diante da violência que tornou esse silêncio necessário. Foi exatamente isso que vivi.
Em 2018, durante um seminário de segurança pública e prevenção e que uma das pautas era a da letalidade violenta de jovens negros, ouvi de um colega de trabalho a frase: "preto bom é preto morto.” Denunciei. A partir daquele momento, passei a descobrir algo que pouca gente conta sobre denunciar o racismo: quase nunca a primeira preocupação das pessoas é com o racismo. A primeira preocupação costuma ser com o constrangimento causado pela denúncia.
Não faltou quem tentasse minimizar o ocorrido. "Foi só uma brincadeira.” "Você entendeu errado.” "Não precisava chegar a tanto.” Talvez a frase mais reveladora de todas tenha aparecido justamente durante o processo judicial. A defesa sustentou que aquilo era uma brincadeira.
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E foi aí que percebi o tamanho do problema. No Brasil, existe gente que acredita que é possível brincar de ser racista. Como se o racismo pudesse entrar em recesso quando alguém acrescenta a palavra "brincadeira" ao final de uma violência. Como se repetir uma frase que historicamente justificou mortes, perseguições e exclusões pudesse perder seu significado porque quem a pronunciou diz que não era bem aquilo. Não existe brincadeira inocente quando ela depende da desumanização de um grupo inteiro para provocar riso.
Quem ri também participa da normalização. Quem te pedi pra "deixar disso" ajuda a manter tudo exatamente como está. Quase oito anos depois, a Justiça condenou o autor da frase pelo crime de racismo. Não escrevo isso para celebrar uma vitória pessoal. Escrevo porque a sentença faz algo que parte da sociedade ainda se recusa a fazer: estabelecer um limite. Ela diz que existe uma diferença entre liberdade e violência. Entre humor e discriminação. Entre convivência e racismo.
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Talvez eu continue sendo chamada de criadora de casos. Tudo bem. Porque, olhando para trás, chego a uma conclusão simples. Os grandes problemas da nossa sociedade nunca foram criados por quem os denunciou. Eles foram criados por quem esperava que todos continuassem dizendo: "deixa disso."
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
