IDHM, educação e a necessidade de revisão urgente das IES
Problemas endógenos costumam criar ciclos orgânicos viciosos que correm por dentro
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD-Brasil), a Fundação João Pinheiro e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançaram os resultados do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) – uma "adaptação" do IDH calculado pelo PNUD (Nova York) para os 193 países-membros das Nações Unidas. O Brasil alcançou, pela primeira vez, alto desenvolvimento humano. Os indicadores saúdam nossos avanços, mas não são capazes de revelar nossos desafios. E são enormes!
Poucos dias antes da divulgação dos resultados do IDHM-2024, o movimento Todos pela Educação lançou uma nota técnica sobre os resultados da última avaliação do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) das Licenciaturas – prova nacional para avaliar a formação de docentes preparados para lecionar no ensino básico nacional. A prova do Enade passou por uma reformulação que permitiu capturar melhor a qualidade da formação do (futuro) docente e trouxe resultados alarmantes.
A adesão à prova do Enade é voluntária. No caso do Enade das Licenciaturas, 82% dos estudantes que faziam formação na modalidade presencial participaram da prova ante 65% da modalidade a distância. Naturalmente, alunos mais aptos tendem a se expor mais, enquanto os menos preparados costumam evitar provas e outros tipos de avaliação. Sendo assim, o resultado final poderia ser ainda pior.
Os resultados gerais do Enade das Licenciaturas apontaram que 42% dos estudantes de licenciatura apresentaram resultado abaixo do nível básico. No recorte por modalidade, 53% dos estudantes à distância estavam abaixo do nível básico, contra 26% dos estudantes dos cursos presenciais. Como dito anteriormente, é provável que os resultados sejam ainda piores, o que acende um grande alerta, sobretudo para os cursos a distância.
Leia Mais
Nos desempenhos por tipo de licenciatura, no curso de letras-português, 36% dos estudantes obtiveram resultado abaixo do básico, enquanto no curso de matemática esse desempenho foi ainda mais assustador: 56% dos alunos obtiveram desempenho abaixo do nível básico. Esses dados explicam muito do que os exames Saeb (nacional) e Pisa (internacional) têm revelado há anos.
Saeb e Pisa são, respectivamente, provas de avaliação do nível de aprendizado (i) dos alunos em anos específicos do ensino básico e (ii) dos alunos com 15 anos. Os resultados do Brasil vêm reforçando a baixa qualidade nacional e internacional de seus jovens estudantes. Uma das variáveis fundamentais do ensino é a preparação dos docentes. Assim, é bem provável que uma das – ou a principal – causas da baixa performance dos alunos nas provas supracitadas seja a baixa formação docente.
Enquanto o IDHM-2024 traz um alento em termos da universalização do ensino e da saúde, o desafio da qualidade do aprendizado ainda impacta diretamente a produtividade da nossa mão de obra e a capacidade do mercado de trabalho de remunerar dignamente seus trabalhadores. Enfim, a questão da fraca base se reflete no futuro do aluno, que se torna um trabalhador, e impacta sua renda futura.
Em 2023, o relatório “Construir caminhos, pactuando novos horizontes”, do PNUD Brasil, celebrou 25 anos da implementação das ideias sobre o desenvolvimento humano no país. Tive a oportunidade de coordenar os cálculos (de 2010 a 2021) realizados pela equipe da FJP, bem como participar da análise que deu suporte ao relatório. Naquele ano, já tínhamos a clareza da dicotomia entre aumento dos anos médios de escolaridade e não acompanhamento da qualidade do ensino.
Entre 1991 e 2021, a expectativa de vida ao nascer dos brasileiros avançou 6,8 anos, e a média de anos de estudo da população cresceu 4,4 anos. Sem dúvida, ganhos muito expressivos acabaram por se manter em ascensão e promover o país ao mais alto grau de desenvolvimento humano. Mas a questão das médias é algo que preocupa o PNUD há anos – vide o Relatório Global 2019, em especial seus capítulos três e sete, que tratavam das desigualdades intraindicadores.
Convivemos, há décadas, com a obviedade que parece nos cegar: os governos sabem como avançar nos indicadores do desenvolvimento humano e têm ciência do que precisa ser feito, mas vivem na inércia ou na má-fé do não fazer. Lembrando que o ensino básico é de responsabilidade de municípios e estados; a outorga do ensino não pode ser creditada exclusivamente aos entes federativos, mas implica também a União, responsável pelo repasse e pela auditoria da aplicação dos recursos.
Vimos, recentemente, as notas do EnaMed – reformulação do Enade Medicina – apontando que 30% das Instituições de Ensino Superior (IES) de medicina alcançaram notas entre 1 e 2, resultado que deixa qualquer cidadão com medo de ir a um pronto-atendimento hospitalar e ser atendido por um(a) estudante ou recém-formado(a). A baixa qualidade atravessa todas as etapas.
Assim como avançamos na dimensão Longevidade do IDHM, em decorrência do aumento da qualidade de serviços básicos sanitários e do SUS, é preciso olhar para a qualidade dos profissionais que o país está formando para atuar na área de saúde. Analogamente, deve-se olhar com urgência para a qualidade dos futuros professores que formarão crianças e jovens que ingressam no ensino básico, em sua maioria, nas escolas públicas – que representam 72% dos alunos, conforme o Censo Escolar 2025.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Sem tratar a origem dos seus males, o país segue avançando em médias que, lamentavelmente, pouco explicam as raízes da perpetuação da baixa produtividade, da evasão escolar e das disparidades de renda, cor/raça, sexo e região. Problemas endógenos costumam criar ciclos orgânicos viciosos que correm por dentro. A sociedade adoecida clama por cuidados, seja nos postos de saúde, seja nas escolas.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
