O horror ou o desejo
Em meio a tanto barulho, tanta pressa - embora não haja porto de chegada -, existe uma escolha esperando nossa atenção
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O velho maestro está estirado de bruços sobre a maca. A jovem massagista desliza sobre suas costas mãos firmes e macias. Ela fala num tom baixo, de quase não ser ouvida:
- Hoje, a massagem é diferente porque você está estressado. Ou melhor, está emotivo...
- Suas mãos conseguem ler as pessoas, não é?
- ...
- Talvez, elas falem de prazer...
Um sorriso quase imperceptível movimenta levemente os lábios da massagista.
- Você não gosta de conversar? – ele insiste.
- Eu nunca tenho o que falar...
O diálogo não é exato, trago-o de volta à memória. A cena se passa no belíssimo filme “Juventude”, de Paolo Sorrentino, o mesmo do monumental “A Grande Beleza”. O velho é um maestro aposentado e amargo que passa férias num hotel na Suiça. Também estão lá a filha do músico, seu melhor amigo – um cineasta em final de carreira, que escreve o roteiro de um filme-testamento, pretendido legado para a posteridade. E ainda, um ator em processo de construção de seu próximo personagem, Maradona se arrastando nos últimos 100 metros de vida e outros comensais.
O silêncio da massagista, a atenção de quem lê pessoas com as mãos, consultando músculos e sua intuição – o que vale esse talento neste momento em que você lê essas linhas? Sobre a outra bandeja deposito o barulho do mundo. Sem adjetivos, apenas o ruído do falatório, o ressoar das poucas bandeiras ao vento, o frenesi das atividades produtivas, o ruidoso cansaço de muitas vidas que se esgotam diariamente em si mesmas, os gemidos ao amanhecer antes do falatório ruidoso. De um lado o silêncio da massagista, de outro o vazio.
É um balé suave e terno o movimento da massagista sobre as costas do maestro, o olhar que se aprimora sobre esse dorso desde o tempo da moça fazendo suas primeiras escolhas. Não ter assunto, diante da verborragia do mundo, é um contraste – pincelada em azul sobre pano exaustivamente vermelho. Mãos que deslizam sobre a pele untada em óleo perfumado, movimentos firmes de baixo para cima, ladeando a coluna. Atravessando-a de um lado a outro, elas se lançam sobre o trapézio, indo e voltando em busca do equilíbrio perfeito - ombros, pescoço e cabeça. A jovem inclina seu tronco, acelera o movimento, junta os dedos e as mãos entre os triângulos das escápulas, mergulha em busca do tambor que ressoa, quase imperceptível, ao centro do peito do maestro. Não há rede de segurança, o outro é o lugar em quem ela se encontra, exclama para si mesma a massagista, mas não diz nada. Guarda para si o escapulário de sua devoção.
Salão de refeições do hotel. O ator surge maquiado e vestido com as roupas de seu personagem: ele é Adolph Hitler e seus modos. Sozinho em uma mesa circular, todos estão voltados para o personagem, olhares de estupefação e repulsa sobre ele. De repente, Adolph se levanta e bate com força a mão sobre a mesa. Penso que o personagem enfim assumiu o corpo de quem deu a ele a extemporânea vida: vai dizer algo agressivo à plateia. Mas não, quem fala, na cena seguinte, é o ator, de volta a seus trajes e a si mesmo. Ele diz ao diretor de cinema: “Depois de observar cuidadosamente todos vocês percebi que estava diante de uma escolha: o horror ou o desejo”. E comunica que escolheu o desejo, pois do horror não há mais nada a acrescentar.
Corta para uma conversa do diretor com o maestro. Ele é pura decepção: conta que não haverá mais filme porque a atriz principal não aceitou o papel. Sem ela, não haverá interesse em sua última obra, ao seu legado. Fica evidente o duplo fracasso: rejeição e desinteresse. Em seguida, dirige-se à varanda e salta no vazio. O maestro não se move da cadeira: chora. Aquele que vibrava com sua criação, desiste. O que fará este outro velho, seu amigo? Ele visita a ex-mulher, demente, internada numa casa de repouso.
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A cena final se passa em um grande teatro, lotado. O ator está no meio da plateia que acompanha encantada o maestro regendo sua obra-prima, chamada “Canções Simples”. Também ele, o regente, diante de suas perdas, escolheu o desejo. Os olhos do ator se enternecem com a beleza da música. Em lugar de uma civilização moribunda e do abandono, o ator e o maestro escolhem a vida e suas incertezas, o potencial de poesia em qualquer idade. Creio, firmemente, que, ao final, aplaudiremos de pé o nosso espetáculo.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
