Chico Mendonça
Chico Mendonça
Chico Mendonça é jornalista (formado pela PUCMG em 1981), consultor de comunicação e escritor. São de sua autoria os livros "As Horas Esquecidas" (finalista do Prêmio Jabuti de 2018, com várias crônicas e contos publicadas no portal UAI) e o romance "A Vi
CHICO MENDONÇA

O que é, o que é, meu irmão?

"Mas e a vida?/Ela é maravilha ou é sofrimento?/Ela é alegria ou lamento?/O que é, o que é, meu irmão?"

Publicidade

Mais lidas

As pessoas ainda estavam se aglomerando diante do palco quando o violão, o cavaquinho e o pandeiro marcaram o início do show. “Malandro, eu ando querendo falar com você/Você tá sabendo que o Zeca morreu/Por causa de brigas que teve com a lei?”, conversa o samba de Jorge Aragão, na voz do mestre e cardiologista Carlão. O público se agita, canta junto, samba no pé aproveitando os últimos espaços disponíveis. Entre eles, um grupo é pura exuberância, velhos amigos que se reúnem uma vez mais nas ruas de Diamantina, sob a assinatura do Becudos do Mota. Mais de 40 anos de carnaval, iniciados na adolescência de cada um deles. “Valeu, Bolão”, gritam no curto intervalo entre as músicas, agradecendo aquele que esteve na fundação da batucada.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

“A amizade, nem mesmo a força do tempo irá destruir/Somos verdade/Nem mesmo este samba de amor pode nos resumir”, celebram os Becudos, entreolhando-se como quem rememora muitas histórias. O público já toma a rua em frente ao palco, saltitando ao ritmo crescente do surdo e do repinique. Sentado na beira do palco, um par de olhos vasculha inquieto o ambiente e volta sempre ao mesmo ponto - o menino observa a mãe diante dele. Ela samba, leva as mãos à testa e alisa os cabelos curtos, como quem tenta parecer mais bonita, como quem tenta esconder o desespero. Sorri, mas há mais aflição que alegria em sua expressão. A criança vem ao seu encontro, abraça-lhe as pernas, cola a cabeça em seu colo, tenta tolher a dança que ela ensaia. A mulher enfim livra-se dele e o manda de volta ao lugar de espectador.

“O que será o amanhã/Como vai ser o meu destino/Já desfolhei o malmequer/Primeiro amor de um menino”, a cuíca sublinha os versos de Didi e João Sergio, gravados para sempre na memória pela voz de Simone. Homens e mulheres com fantasias improvisadas, mulheres e homens de bermudas e blusas surradas, tiradas das gavetas e espanadas de qualquer vestígio de rotina para desfilar pelas ruas como arranjo especial de carnaval. Um homem grisalho surge ao lado da caixa de som e afaga a cabeça da criança. Olham ambos para a mulher que sorve, ansiosa, goles e goles da lata de cerveja. O menino a chama com olhos que mendigam. “Explode coração/Na maior felicidade/É lindo o meu salgueiro/Contagiando, sacudindo essa cidade”. O surdo, vigoroso, o repinique, enlouquecido, conduzem a multidão um passo além da alegria, sacodem a turba à beira da euforia.

A mulher gesticula, manda homem e menino embora. E que não demorem a ir, gritam suas mãos enquanto varrem o ar diante de si, insistem seus pés enquanto pisoteiam o chão à beira do despenhadeiro. “Chora, não vou ligar/Não vou ligar/Chegou a hora, vai me pagar/Pode chorar, pode chorar/Mas chora!”. Torcedores do Galo vão à loucura. O homem vocifera contra a mulher em inútil concorrência com a bateria. É silêncio que sai da sua boca. Ela vira a latinha sobre os lábios e quando olha de volta há um grande vazio onde estavam o homem e o menino. “Vou festejar, vou festejar! O teu sofrer, o teu penar/Você pagou com traição/A quem sempre lhe deu a mão”.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

A multidão samba freneticamente, puro êxtase ao ritmo da batucada contagiante do Becudos do Mota. De cima de um alpendre, Roberto Feio, o mais amigo de todos os amigos, se esforça para registrar com seu celular tanto momento no coração de todos nós. “Não estou dando nem vendendo/Como o ditado diz/O meu conselho é pra te ver feliz”. Os meus olhos, rodeados por tanta alegria, na presença de tantas pessoas queridas - “Quero chorar o teu choro/ Quero sorrir teu sorriso/ Valeu por você existir, amigo” – surpreendem outro homem que se aproxima da mulher. Ele vem do lugar onde estavam o velho e a criança. Ela sorri cervejante, talvez cansada de sofrer, entregue, quem sabe, à esperança de ser feliz. “E vai chegando o amanhecer/Leio a mensagem zodiacal/E o realejo diz/Que eu serei feliz, sempre feliz”. Ela canta, quem dera aliviada, enquanto dos meus olhos escorrem as lágrimas mais inconvenientes que já chorei na vida. “Mas e a vida?/Ela é maravilha ou é sofrimento?/Ela é alegria ou lamento?/O que é, o que é, meu irmão?”

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay