Na última semana, recebi dois amigos vindos do outro lado do Atlântico. Quem me acompanha por aqui sabe que adoro o exercício de observar minhas próprias práticas alimentares pelo prisma do outro. Afinal, receber é elaborar explicação para muitas coisas; selecionar tantas que consideramos dignas de atenção; decidir o que mostrar, o que comer, porque comer.
É preciso também lidar com o acaso, pois nem sempre o que julgamos imprescindível acaba se concretizando. Por exemplo? O compromisso que tínhamos domingo de manhã se arrastou e não conseguirmos almoçar no Xapuri. Falha gravíssima, eu sei, mas é o imponderável da vida.
Sempre tenho à mão minhas listas (meus “salvos” do Instagram são um inventário meticuloso), mas a lista, por si só, não resolve. A experiência gastronômica é um cálculo delicado: quem é essa pessoa? O que ela valoriza? O barulho incomoda? A mesa na calçada é um convite ou um entrave?
Articular uma experiência gastronômica agradável é uma equação de variáveis sensíveis, onde o resultado raramente é exato. Pois bem. Uma coisa que é, para mim, incontornável nas práticas alimentares desta cidade é o boteco. Mas o bar faz ainda mais sentido quando se está diante de um alemão que, como muitos, gosta de cerveja. É ali, nesse espaço, que se compreende tanto de nós, belo-horizontinos.
Essa nossa paixão pelo balcão não é de hoje e carrega uma herança que a historiadora Leila Algranti descreve muito bem ao analisar o Rio de Janeiro de 1808. Enquanto as elites mimetizavam a etiqueta europeia em jantares privados e domésticos, as tabernas e botequins se consolidavam como os pilares da vida pública das camadas populares. Esses espaços eram locais de consumo “voluntário” de bebidas estimulantes, transcendendo a mera sobrevivência biológica para se tornarem lugares de encontro.
O que hoje celebramos como o nosso “clima de boteco” era, no século 19, um espaço de tensão e vigilância constante. A polícia tentava, através de multas e toques de recolher às 22 horas, conter os “ajuntamentos” de negros, escravizados e libertos que desafiavam a ordem urbana.
Assim, o nosso jeito de comer e beber em bares e botecos dialoga diretamente com tabernas e botequins, onde a sociabilidade forjava uma rede comunitária que a elite, refugiada em seus aparelhos de chá importados, jamais conseguiu plenamente controlar.
Lá pelas tantas, com meus amigos, pedimos a saideira. Mas depois, pedimos a saideira de novo. Como explicar isso para um gringo? É como pedir bis em um show. Estava previsto para encerrar, mas a gente reluta em ir embora. A saideira pode ser a nossa resistência poética contra o fim da noite e contra a rigidez do tempo produtivo. Me parece o desejo de manter a chama da conversa acesa por mais alguns minutos de glória, ignorando o relógio.
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Cada vez mais quero ir a bons botecos em Belo Horizonte e menos a restaurantes metidos a besta. Inclusive, o concurso Comida di Buteco está batendo à porta agora em abril. Bom momento para pedirmos uma saideira e ganharmos mais alguns minutos de boas conversas.
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Aliás, esta é a minha saideira por aqui. Como todo bom encontro de balcão, este ciclo na coluna se encerra com o desejo de ter esticado o tempo, de ter mantido a chama da conversa acesa. Baixo as cortinas desta “História à Mesa” com o mesmo espírito da última rodada: relutante em ir embora, mas grata por cada prosa partilhada.
