Espíritos votam?
Votam pela mão da senhora de bengala, que carrega consigo um marido, três irmãos e uma mãe que não viveram para ver esta manhã
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Acordei cedo, como quem tem compromisso com a pátria e com a bicicleta. A pátria ficava para as nove; a bicicleta veio antes, às seis. Rodei na estrada de Confins, com o céu ainda indeciso entre o cinza e o azul, e pensei que o céu de Belo Horizonte, neste domingo, era o único eleitor com direito a não escolher. Um biguá secava as asas num poste, imóvel como um candidato que não comparece ao debate. Não o julguei. Bicho molhado, arisco e escaldado tem suas razões.
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Li a crônica do Ruy Castro, cronista que me inspira. Ele chamou de anticlímax a noite de quinta na televisão: um candidato que avisou que não iria, e outro que foi, mas saiu aos 44 do segundo tempo, como quem lembra de repente que deixou o gás ligado. Ruy, que escreveu a vida do Garrincha, sabe que há jogadores que driblam o adversário e há os que driblam o jogo. Fiquei com a imagem da cadeira vazia e do pódio abandonado, dois móveis de estúdio ocupando o lugar que caberia duas pessoas. E me veio a pergunta que dá título a esta crônica, e que não sei responder: espíritos votam?
Porque foi isso que o Brasil viu: um debate inexistente entre ausências. Uma ausência anunciada e uma ausência que se produziu ao vivo, diante das câmeras, como quem evapora ao sopro do Supremo. A gente, do sofá, assistiu a um programa de ectoplasmas. O moderador falava para o ar. O ar não respondia, mas também não interrompia, o que já é uma vantagem sobre os presentes, que não tinham proposta alguma nem para os fetos, ou vivos e mortos.
Sou médico, e a medicina me ensinou a desconfiar de quem some na hora do exame. O paciente que falta à consulta é, quase sempre, o que mais precisava dela. O que foge do toque retal, costuma estar com o coração acelerado. Não digo isso de nenhum candidato em particular; digo da espécie. O corpo político, como o corpo humano, dá sinais, e um dos sinais mais eloquentes é a fuga. Não se foge do que não dói.
Mas deixo a política de lado, que ela já se ocupa demais de si mesma. O que me interessa é a outra assembleia, a dos espíritos de verdade. Estive hoje na fila da escola, atrás de uma senhora de bengala e de um rapaz que votava pela primeira vez, assim como a Sophia minha filha, e tirava fotos de tudo, inclusive da fila. Pensei nos que não estavam ali. Nos que morreram esperando um remédio, uma vaga no hospital, o ônibus que a Leia, minha funcionária, pega as 5 da madrugada. Nos que morreram na pandemia, quando a cidade fechou e eu, ajudei a fechá-la. Nos que não nasceram ainda e vão herdar o que a gente decidir até as cinco da tarde. Esses não têm título. Não digitam número. Não confirmam. E, no entanto, são eles, me parece, os eleitores mais interessados do país.
Espíritos votam? Não na urna, claro. A urna é um aparelho de plástico e circuitos precisos, pouco afeitos a transcendências. Mas votam de outro jeito. Votam pela mão da senhora de bengala, que carrega consigo um marido, três irmãos e uma mãe que não viveram para ver esta manhã. Votam pela mão da Sophia, pela primeira vez, que ainda não sabe que leva nos dedos a esperança de gente que ela jamais conheceu. Cada dedo que aperta a tecla verde é um dedo coletivo. Há uma multidão invisível em cada cabine, e por isso a cabine é tão pequena: para que a multidão fique bem apertada e não se disperse.
O que me espanta, e me comove, é que o ritual é quase sempre silencioso. Ninguém grita na fila. Ninguém chora na cabine. Pessoas comuns, de chinelo e de camisa de time, entram, apertam, saem e seguem seu destino, deixado na urna com milhares de espíritos silenciosos. É um ato de uma banalidade sagrada, se é que existe isso, e acho que existe. A democracia, bem vista, é um domingo. Um domingo com mesários sonolentos, com o cheiro de café da sala dos professores, com a criança que pergunta ao pai se já pode votar também. Já pode, menina. De certo modo, você está votando desde antes de existir.
Confesso que, diante de tanta gente presente, achei pequena a história das ausências ilustres. Quem some do debate some de uma noite e talvez de uma arapuca. Quem está na fila está ali desde sempre. O biguá do poste, afinal, já havia voado quando passei de volta. Fugiu da arapuca. Secou as asas e foi cuidar da vida, que é o que se espera de qualquer bicho e de qualquer homem público.
Voltei para casa pela sombra. Em Belo Horizonte a sombra é um bem escasso e por isso valioso, como a decência. Pensei que o país inteiro, nesta tarde, era uma imensa sala de espera, com gente folheando revista velha e olhando o relógio. Nós, médicos, conhecemos bem essa sala. Sabemos que lá dentro o diagnóstico já está pronto, e que o que demora é a coragem de ouvi-lo.
Não sei quem vai ganhar. Sei que ganhou, por ora, a senhora de bengala. Ganhou o rapaz que fotografou a fila. A Sophia que estreou na urna eletrônica. Ganharam os mortos que votaram por procuração. Ganhou o biguá, que não precisou de assessor para saber a hora de secar as asas e voar.
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Espíritos votam? Votam, sim. Com a única cédula que lhes resta, que é a nossa memória. E há de haver, em algum lugar fora do alcance das pesquisas, uma seção eleitoral onde a fila é longa, ninguém reclama, e a apuração nunca termina, porque nunca termina o que se faz por amor a uma terra, mesmo quando a terra, aos 44 do segundo tempo, parece ficar sem ninguém no palco.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.