O espanta-bolinho
Jamais percebe que é espanta-bolinho. Atribui o esvaziamento progressivo a coincidências extraordinárias
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Há na história personagens com um dom peculiar: a capacidade infalível de esvaziar qualquer ambiente com verborragia inconveniente, opiniões tóxicas e timing impecável para dizer o que não deveria. São os espanta-bolinhos, criaturas que transformam confraternizações em debandadas gerais.
Goscinny e Uderzo criaram o arquétipo perfeito: Tulius Detritus, romano plantado na aldeia de Asterix para espalhar discórdia e fomentar intrigas. Com sua língua venenosa, conseguia o que legiões romanas não alcançavam — enfraquecer os gauleses por dentro. A genialidade dos autores foi perceber que o espanta-bolinho não é apenas chato, mas uma arma de destruição social em massa. Enquanto Detritus agia por estratégia, seus equivalentes modernos operavam por pura vocação natural, tornando-os ainda mais perigosos.
A história está repleta desses ilustres cavalheiros da desarmonia. Nero, enquanto Roma ardia, dedilhava sua lira, alheio ao péssimo timing do recital. Rasputin, com olhos de hipnotizador de quinta e cheiro de quem não via banho desde o século anterior, esvaziava salões imperiais. Joseph McCarthy transformou o Senado norte-americano em tribunal de inquisição, vendo comunistas até na sombra do próprio chapéu — o tipo que acusaria o churrasqueiro de ser agente de Moscou por servir picanha mal passada.
Nossa época de redes sociais e polarização produziu safra generosa de espanta-bolinhos virtuoses. Um certo banqueiro conseguiu quase quebrar o sistema financeiro brasileiro e agora, da cadeia, prepara delação premiada. Transformou-se no espanta-bolinho mais eficiente de Brasília sem estar presente — sua simples menção provoca dispersão molecular. Deputados, senadores, juízes e ministros que disputavam assentos em seu jatinho para jogos e festas agora sofrem amnésia coletiva digna de estudo médico. Sua capacidade de esvaziar agendas e apagar fotografias faria Houdini parecer amador.
Outro trapalhão, o "01" (demonstração de humildade que só perde para Luís 14), elevou a arte a patamares estratosféricos. Com rachadinhas, mansões inexplicáveis e talento para entrevistas que parecem confissões não editadas, faz correligionários atravessarem a rua ao avistá-lo. Depois dos 61 milhões saídos da cartola para o filme do azarão do papai, tornou-se um pum ambulante.
E o presidente "Trumpalhão", espanta-bolinho mor da política internacional, transformou a Casa Branca em reality show de mau gosto, onde assessores são demitidos pelo X (ex-Twitter). Esse tem qualidade magnética invertida: em vez de atrair, repele. Sua passagem por ambientes internacionais é como granada em cristaleira. Líderes mundiais desenvolveram técnicas sofisticadas de evasão — compromissos imaginários, crises diplomáticas em países inexistentes — para não sentar à mesma mesa do homem do topete alaranjado. Ainda bem que cerveja e vinho não precisam passar pelo Estreito Ormuz; caso contrário, a Copa do Mundo no seu país teria que ser cancelada.
O espanta-bolinho contemporâneo tem características definidas e complexas. Primeiro, jamais lê o ambiente. Impermeável a olhares de tédio, bocejos e gente checando o relógio, segue como quebra-gelo atravessando o mar da indiferença. Segundo, tem relação disfuncional com a verdade, vivendo em realidade paralela, na qual fatos são sugestões e dados, conspirações disfarçadas. Terceiro, e crucial: jamais percebe que é espanta-bolinho. Atribui o esvaziamento progressivo a coincidências extraordinárias. "Estranho, todo mundo tinha que sair cedo hoje".
A síndrome é democrática, não escolhe classe social, sexo, formação ou partido. Acomete tanto o tiozão do churrasco, que insiste em falar de política após a terceira cerveja, quanto o executivo que transforma reuniões em monólogos. O que os une é a capacidade sobre-humana de criar desertos sociais.
Em ambientes profissionais, é devastador. Aquele colega que transforma a pausa para café em tortura psicológica, falando sem parar sobre dores lombares, problemas conjugais e final de semana glamuroso. Em cinco minutos, a copa fica mais vazia do que estádio de time rebaixado.
Nas redes sociais, habitat natural do espanta-bolinho moderno, atinge proporções epidêmicas. Protegido pela tela e embriagado pela ilusão de que alguém se importa, multiplica-se, cria perfis fakes para concordar consigo mesmo. Comenta em posts de receita de bolo para falar de geopolítica, invade discussões sobre saúde pública para soltar teorias conspiratórias antivacinas.
O mais fascinante é sua resiliência. Por mais evitados, bloqueados e excluídos, retornam incansáveis. Criam novos perfis, aparecem em novos grupos, descobrem novos ambientes para esvaziar. São como aqueles vilões de filme de terror que você pensa ter sido derrotado, mas que ressurgem mais determinados que nunca.
Há quem diga que todo grupo precisa de um espanta-bolinho, que servem como lembrete de como não devemos ser. Talvez. Ou talvez sejam a confirmação de que a evolução ainda não eliminou o gene da inconveniência.
O fato é que, enquanto houver bolinhos, haverá espanta-bolinhos. E enquanto houver espanta-bolinhos, haverá sempre aquela deixa perfeita para encerrar encontros: "Foi ótimo, mas preciso ir, estou vendo aquele senador chegando ali".
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Que Deus nos livre dos espanta-bolinhos. E se não puder nos livrar, que ao menos nos dê sabedoria para identificá-los à distância e agilidade para mudar de calçada a tempo e principalmente de destino.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
