Carlos Starling
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SAÚDE EM EVIDÊNCIA

O porquê dos porquês

Tem gente que nega vacinas como se fossem invenções de ficção científica, como se estivesse recusando uma sopa que, dizem, mata o dragão

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“Por que o céu é azul? Por que o cachorro abana o rabo? Por que a vovó faz bolo só de chocolate?”. A fila de porquês vem como um trem sem freio nas crianças. Cada pergunta uma pequena lâmina que divide o mundo ao meio: aquilo que a gente sabe, aquilo que a gente imagina e aquilo que a gente finge saber. As respostas das crianças não exigem elegância: querem sentido, nome, razão. Quando um adulto responde com meia-verdade ou com um gesto cansado, é como se oferecesse um remédio diluído — cura momentânea, mas a febre da curiosidade persiste.

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É curioso: quando perguntam “por que?”, insistimos em ensinar leis da natureza, cores, nomes. Mais tarde, quando um “por que?” reaparece com roupagem política ou médica, muitos de nós trocamos a explicação por um credo. O mesmo cérebro que, de joelhos no tapete da sala, entendia que o céu é azul por causa da dispersão da luz, passa a acreditar em narrativas que são simples, quentes e indulgentes. A infância é pedagógica; a maturidade, por vezes, é defensiva.

Negar o óbvio virou esporte da espécie humana. Tem gente que nega vacinas como se fossem invenções de ficção científica, como se estivesse recusando uma sopa que, dizem, mata o dragão. O ato de negar é ritual: reúne grupos, cria discursos, liberta culpabilidades. “Não é pânico, é liberdade”, dizem, e misturam termos como se palavras fossem talheres que isolam a verdade. A vacina — tão humilde no frasco, tão potente na história — vira símbolo, estandarte de identidades. Curioso: aceitamos redução ao absurdo quando nos serve um sentido de pertencimento; discordamos do método científico se ele não nos acolhe como vizinho simpático.

Guerra é outra negação — uma linguagem que se recusa a chamar o que é, pelo nome. Chamam de “conflito” e escondem a palavra “morte” em acrônimos. Bombas são “eventos” e civis, estatísticas que não entram na garagem onde moramos. A estupidez é eficiente: produz justificativas como fábricas produzem peças, com linhas de montagem de raciocínios que se encaixam uns aos outros num propósito terrivelmente humano: preservar quem tem poder. E, enquanto isso, crianças nas zonas de guerra perguntam “por que a casa caiu?” e recebem respostas que soam como remendos em roupas muito velhas.

Roubo, corrupção, fraude — o cotidiano que insiste em se parecer com ficção. As pilhas de papel e de promessas são sempre amadas por quem acredita que “todo mundo faz”. Assim se constrói uma moral de trânsito rápido: se o erro é generalizado, vira hábito; se vira hábito, vira normal; se vira normal, vira desculpa. O absurdo se legitima pelo espelho: olhamos para os outros, vemos a conduta, e concluímos que a ação é aceitável. A razão perde, aos poucos, para o conforto de não se sentir estranho ao cometer uma falta. E quando se tenta explicar, encontram-se olhares que preferem colchões de explicações frouxas — mais convidativas que a disciplina. “Era apenas para pagar um filme sobre a vida do papai”. Azar dos velhinhos que ficarão sem seus fundos de pensão.

Há algo de poético nessa irracionalidade: ela prova que há riqueza além da lógica. Alguém nega vacina porque nega medo; outro nega a guerra até o estilhaço acertar sua janela. Não é mera estupidez, é um espelho de fragilidade: quando a realidade é dura, a mente cria suavizantes. A questão é que esses suavizantes muitas vezes têm efeitos colaterais devastadores.

Rimos — e devemos rir — das pequenas hipocrisias cotidianas que nos fazem humanos. Lembremos do sujeito que, ao voltar da viagem a Santiago de Compostela, diz ter aprendido sobre humildade enquanto ostenta nas redes o saldo do cartão em viagens.

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O absurdo, no entanto, tem uma geometria: repete-se em padrões previsíveis. Primeiro vem a negação; depois, a justificativa; em seguida, a rede de apoios; por fim, a naturalização. O sistema é eficiente porque pouco exige: basta conformar-se ao fluxo de banalidades. Quando tudo é relativo e o óbvio é questionado por princípio, perdemos a linguagem comum para negociar a sociedade. Sem essa língua, declinam as promessas de vacina, de paz, de honestidade.

Mas há resistência — e que bela resistência: pessoas que ainda respondem aos porquês com paciência científica, com histórias e receitas. É a voz do professor no recreio, do enfermeiro que toma a mão do paciente, do jornalista que checa os fatos. Resistir ao absurdo é verbo ativo: exige conversas, pequenas humilhações, orgulho, presença. Já dizia Confúcio 2000 a.C.: “Quem lê esquece, quem vê aprende e quem faz , ensina!”.

Sejamos, então, circunspectos e bem-humorados. Quando uma criança voltar com um “por que?”, façamos o favor de responder com clareza e sem cinismo. Quando um colega negar a ciência, não o empurremos para o abismo com deboche; ofereçamos o telescópio e a lupa, não apenas a sentença. E quando nos pegarmos justificando um erro com a desculpa de que “todo mundo faz”, que haja vergonha — não para nos afundar, mas para nos guiar de volta.

No fundo, o antídoto contra o absurdo talvez seja um hábito perdido: a admissão simples do limite. Admitir é começar a conversar. E conversar é, em última análise, responder aos porquês — não com verdades prontas, mas com mapas para quem quer atravessar o labirinto.

A irracionalidade está disponível na prateleira do supermercado da esquina; os absurdos são os itens mais vendidos. Resta-nos abrir uma nova vitrine: mostrar que o óbvio não é enfadonho, que vacina é cuidado, que guerra não é evento, que roubo é ferida. E se alguém, ainda assim, preferir negociar com invenções, que ao menos tenha a cortesia de perguntar: “por que eu acredito nisso?” Porque o “por que?” das crianças é urgente: é porta de saída para a estupidez — se aceitarmos atravessá-la juntos.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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