Os olhos de Inês
Com a ajuda da inteligência artificial, Inês voltou a falar — não com a boca, mas com os olhos. Voltou a se comunicar. Voltou a ensinar
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Ontem conheci Inês e seus três avatares. Ela quer um quarto avatar só pra ela e seus desejos mais íntimos. Inês é amiga antiga do Fábio, meu compadre, um visionário incorrigível.
Inês conhecia a mente humana como poucos. Psiquiatra, professora, especialista em transtorno borderline — essa região sensível onde o sofrimento grita antes de saber falar. Inês passou a vida escutando dores alheias, ajudando pessoas a organizar o caos interno, a nomear o indizível, a encontrar frestas de sentido onde só havia ruído.
Então, aos 53 anos, o corpo lhe impôs silêncio. Há prisões que não têm grades, nem muros, nem carcereiros. Há prisões que começam no corpo — esse território que julgamos nosso até o dia em que ele nos impõe limites.
A esclerose lateral amiotrófica (ELA) não pede licença. Ela chega como um apagamento progressivo: primeiro a força, depois o gesto, depois a voz. O corpo vai se tornando um território ocupado, centímetro por centímetro, até restar um último lugar livre — os olhos e a mente. Dois pontos de resistência. Dois sobreviventes.
Inês está hoje completamente paralisada. Não anda. Não fala. Não escreve. Não move as mãos que ensinaram. Não move os lábios que explicaram a dor psíquica de gerações de alunos e beijaram seus filhos. Mas pensa. Pensa com a mesma sofisticação. Com a mesma lucidez. Com o mesmo rigor ético. A mente intacta, encerrada num corpo que se tornou cárcere.
É aqui que a história deixa de ser apenas trágica e se torna profundamente filosófica.
Com a ajuda da inteligência artificial, Inês voltou a falar — não com a boca, mas com os olhos. Voltou a se comunicar. Voltou a ensinar. Voltou a dar aulas em uma faculdade, mediada por avatares que emprestam rosto e voz ao que o corpo não consegue mais executar. O que parecia fim vira transmutação.
Ela está, ao mesmo tempo, aprisionada e livre. Aprisionada num corpo imóvel. Livre no intelecto que atravessa telas, salas de aula, alunos atentos. Aprisionada na biologia implacável. Livre na cultura, no conhecimento acumulado, no pensamento que não adoeceu.
Há algo de quase platônico nisso — como se a mente, separada da carne, insistisse em continuar existindo no mundo das ideias. Mas há também algo profundamente contemporâneo: a tecnologia como ponte entre o pensamento e o mundo.
A IA, tão frequentemente retratada como ameaça, aparece aqui como prótese de humanidade. Não substitui Inês. Não pensa por ela. Não cria por ela. Apenas remove o entulho que impede o pensamento de expandir. A máquina não é autora; é meio. O conteúdo continua sendo humano, sensível, experiente, ético.
E isso importa. Porque a mesma tecnologia que permite a Inês continuar ensinando pode ser usada para enganar, manipular, fabricar verdades falsas, simular pessoas que não existem, apagar a autoria humana. O mesmo instrumento que liberta pode escravizar. A diferença não está no código — está no propósito.
Inês não usa a IA para se tornar mais poderosa. Usa para continuar sendo quem sempre foi. Professora. Médica. Intelectual. Alguém que devolve ao mundo aquilo que o mundo um dia lhe ofereceu: conhecimento.
E há algo de comovente — quase subversivo — nisso. Num tempo obcecado por performance, produtividade e juventude, Inês ensina imóvel. Ensina sem corpo. Ensina sem voz. Ensina com os olhos. Como se dissesse, silenciosamente: o valor de uma vida não está na força do músculo, mas na persistência do sentido.
Talvez o maior risco da inteligência artificial não seja nos substituir. Talvez seja nos fazer esquecer o que merece ser preservado. Inês funciona como antídoto contra esse esquecimento. Ela lembra que tecnologia sem ética é ruído, mas tecnologia a serviço da dignidade é cuidado.
Como médico, é impossível não pensar que há doenças que não têm cura, mas têm resposta. A ELA tirou de Inês o movimento, mas não roubou o pensamento. E a IA, nesse caso, não desafia a medicina — ela a completa. Permite que o cuidado ultrapasse o corpo e alcance o lugar onde a pessoa ainda vive inteira.
Os olhos de Inês, que agora escrevem, falam, ensinam, são mais do que interface. São testemunho. Testemunho de que a liberdade não coincide perfeitamente com o corpo. De que o cárcere biológico não é o fim da existência simbólica. De que ainda é possível contribuir, amar, ensinar e deixar rastro, mesmo quando o corpo já não responde. Nada é mais íntimo que o gozo.
Talvez o futuro da tecnologia devesse ser medido assim: ela amplia ou reduz a dignidade humana? No caso de Inês, a resposta é clara. A IA não a transformou em alguém diferente. Apenas garantiu que ela pudesse continuar sendo ela mesma — contra todas as probabilidades. E isso, num mundo que frequentemente confunde avanço com desumanização, é um gesto radicalmente ético.
Os olhos de Inês não olham apenas para uma tela. Eles olham para nós, e perguntam: o que vocês farão com o poder que criaram? A resposta — como sempre — não está na máquina. Está em quem decide usá-la.
Por ora, prefiro seguir um critério simples, quase clínico, quase poético: se uma tecnologia ajuda alguém a voltar a dizer “eu estou aqui”, então há esperança. Se ela serve para tirar de alguém a possibilidade de ser reconhecido como real, então é o mesmo velho abismo — apenas com luzes mais coloridas.
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No meio desse contraste, ficam os olhos de Inês: pequenos faróis insistindo em lembrar que o futuro, antes de ser algoritmo, é escolha.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
