Cleitinho colheu votos de Lula e de Flávio
Novo governador capturou base conservadora de MG , com autonomia em relação a Flávio Bolsonaro. Descola-se do bolsonarismo com identidade e eleitorado próprios
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Urnas apuradas e contas na mesa, eleito em primeiro turno para o governo de Minas com 6.321.590 votos – 55,40% dos válidos –, o senador Cleitinho (Republicanos) sai do pleito como a liderança mineira com maior capacidade de trânsito entre os campos da direita e da esquerda.
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Não à toa, em seu primeiro discurso após a divulgação oficial dos resultados, assinalou: “Quero ser um governador que vai trazer a pacificação deste país. Minas Gerais vai ser exemplo, porque nós somos um só povo e eu tenho que cuidar de todos vocês.”
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Com votação autônoma, Cleitinho consolidou média de votação de 58,7% dos votos válidos nos municípios mineiros, desempenho que variou de 40,7% dos votos válidos em Belo Horizonte, chegando a alcançar 72,8% em Divinópolis, sua terra natal.
O resultado dele superou em 544.042 votos o desempenho de Flávio Bolsonaro (PL) e em 1.132.654 votos aqueles obtidos por Lula (PT) em Minas Gerais. Cleitinho é a novidade que, neste país polarizado entre lulistas e antibolsonaristas de um lado e bolsonaristas e antipetistas do outro, mantém a tradição política mineira da cesta de votos híbridos.
Mas quantos terão sido os votos dados a Cleitinho compartilhados entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Lula (PT), adversários deste segundo turno do pleito presidencial?
Em Minas Gerais, Flávio Bolsonaro apoiou a candidatura do presidente licenciado da Fiemg, Flávio Roscoe (PL). Estreante na política, pouco conhecido do grande público e com a candidatura formalizada às vésperas do prazo final de registro da Justiça Eleitoral, Roscoe obteve 795.193 votos, 7% dos votos válidos, o terceiro melhor desempenho entre os adversários, associado à tração do bolsonarismo e ao apoio recebido pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL), liderança do campo.
Se ao balaio de votos que Cleitinho teve a mais do que Flávio Bolsonaro em Minas forem computados aqueles conquistados por Flávio Roscoe, firma-se patamar mínimo de 1.339.235 votos dados a Cleitinho descolados de Flávio Bolsonaro. Isso significa dizer de que, na cesta de eleitores de Cleitinho, pelo menos cerca de 21% não votaram em Flávio Bolsonaro.
Com 5.188.936 votos em Minas, 43,3% dos válidos, Lula obteve 2.182.848 votos a mais do que o deputado federal Patrus Ananias (PT)), que conquistou 3.006.088, 58% da base lulista. Ainda que essa diferença de votos possa, possivelmente, ter sido distribuída por eleitores que optaram pelas candidaturas do centro independente – como as de Alexandre Kalil (PDT), que conquistou 403.466 votos, e Gabriel Azevedo (MDB), que obteve 237.051 votos –, restam ainda 1.542.331 votos lulistas que, numa estatística matemática de saldo, podem ter representado a escolha híbrida Lula-Cleitinho: representam cerca de um quarto dos apoiadores do senador eleito. Tais estimativas coincidem com os dados extraídos das pesquisas de intenção de voto que antecederam o pleito.
Para avaliar a intensidade da correlação entre a votação no primeiro turno de Cleitinho e de Flávio Bolsonaro nos 853 municípios mineiros, o cientista político e pesquisador Fábio Vasconcellos, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e da PUC Rio, rodou testes estatísticos a partir dos dados de votação nos municípios disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
“Cleitinho capturou a base eleitoral conservadora em Minas Gerais, mas operou com autonomia em relação a Flávio Bolsonaro. Ele se descola do bolsonarismo com identidade e eleitorado próprio”, afirma o cientista, também pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) no campo da representação e legitimidade democrática (Redem).
Segundo Fábio Vasconcellos, Cleitinho partiu de um piso municipal consolidado de votos e se posicionou na totalidade dos 853 municípios com média de 58,7% de votos, acima da média municipal de Flávio Bolsonaro, que foi de 44,8%.
“Enquanto 36% dos votos de Cleitinho e de Flávio Bolsonaro variam juntos nos municípios, 64% da votação de Cleitinho nas cidades não é explicada pela votação de Flávio Bolsonaro”, aponta o cientista, em referência ao coeficiente de determinação (R2/36%), métrica que mapeia o quanto Cleitinho e Flávio Bolsonaro compartilham da votação nas cidades.
Isso significa que embora ambos tenham conexão, há em média 64% da votação do governador eleito nos municípios que não acompanha a variação de Flávio Bolsonaro. São, portanto, votos não associados ao voto bolsonarista em Flávio, mas que são explicados pelas características do candidato como carisma, a comunicação nas redes sociais, os vídeos populares e a capilaridade individual dele.
Por sua vez, a votação de Flávio Roscoe apresenta forte semelhança geográfica com a de Flávio Bolsonaro. Ele acompanha de perto a distribuição territorial dos votos do bolsonarismo (R2/45%), porém com ritmo de crescimento tímido e o teto médio, nos municípios, restrito a 5,3%. Esse descompasso evidencia a migração do voto da direita para Cleitinho, apesar do apoio de Flávio Bolsonaro a Flávio Roscoe.
No espectro oposto, a relação entre Cleitinho e Lula revela uma oposição clara e previsível, expressando a polarização ideológica nacional no estado: onde a votação de Lula é alta, a de Cleitinho tende a recuar proporcionalmente. Ainda assim, nos redutos lulistas mais consolidados, como o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha, onde Lula supera 65% a 70% dos votos, a votação de Cleitinho mantém-se firme, sem cair abaixo de 35% na maioria dos casos.
O acoplamento territorial mais expressivo do mapeamento dos votos nos municípios entre os dois candidatos a presidente e os principais candidatos da sucessão estadual ocorreu entre Patrus Ananias e Lula (R2/59%). A votação de ambos demonstrou forte simbiose, com 59% do comportamento dos eleitores dos municípios sincronizados entre ambos.
O cálculo municipal mostra que Patrus reteve cerca de 56% de cada ponto percentual conquistado por Lula nas cidades do estado, com o mineiro registrando média municipal de 26% dos votos ante 48% de Lula.
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Diferentemente do ex-governador Romeu Zema (Novo), que em 2022 foi reeleito em primeiro turno com 6.094.136 votos, 854.872 a mais do que Flávio Bolsonaro – portanto, também foi brindado com o voto híbrido Luzema –, Cleitinho reinaugura a gramática da política mineira: reconhece e acolhe os votos de quem grita com Lula e daqueles que marcham com Bolsonaro. Sinaliza que governará para um só povo.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.