O governador Mateus Simões (PSD) recolhe o maior saldo positivo de uma das mais conturbadas e agressivas batalhas para a definição de chapas da sucessão mineira desde a redemocratização do Brasil. Mateus Simões conseguiu recuperar a Federação União Progressista para a sua coligação, ampliando para quase 30% a sua fatia de exposição do tempo do horário eleitoral gratuito. Estão também na aliança do governador a Federação PRD-Solidariedade, o Avante e o Novo, este, sem acesso ao tempo de antena. Mateus Simões trouxe o União e o PP, mas conseguiu isolar o ex-secretário de Estado de Governo Marcelo Aro, com quem rompeu acusando-o de traição.

Aro, que tentou sem sucesso articular uma frente ampla à direita para concorrer contra Mateus Simões, será candidato ao Senado em chapa avulsa. O governador deu o troco lançando duas candidaturas ao Senado em sua própria chapa: Carlos Viana (PSD) e Marco Antônio Costa (Novo), conhecido como Superman. Assim Mateus amplia o leque de opções ao segundo voto da direita bolsonarista, dificultando o acesso de Aro a esse ativo eleitoral.

Desse processo de definição de candidaturas e chapas, Mateus Simões teve ainda um outro excepcional ganho indireto: o senador Cleitinho, até aqui, não irá concorrer. A candidatura de Cleitinho está pendente, aguardando o recuo do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, o que é pouco provável. Apesar dessa sinalização, o presidente estadual do Republicanos, Euclydes Pettersen, faz o jogo: registrou em ata que a legenda terá candidatura ao governo, sem apontar nome. Luís Eduardo Falcão poderá ser a saída negociada, para não desautorizar Marcos Pereira, que degolou a candidatura de Cleitinho, no momento em que divulgou o vídeo em que o senador chora e anuncia que não concorrerá.

Sabe-se como isso aconteceu, mas já não importa. O que de fato conta agora é que, para Mateus, a presença de Cleitinho na disputa sempre foi um obstáculo ao seu crescimento de difícil transposição: Cleitinho converge o voto bolsonarista, o voto antissistêmico e o voto popular. No cenário em que concorre, se houvesse qualquer candidatura minimamente competitiva no campo do centro ou da esquerda, a chance de Mateus transpor ao segundo turno seria reduzida.

Se por um lado Mateus Simões levou a melhor, por outro, Cleitinho e Marcelo Aro, por motivos diferentes, sofrem as maiores baixas nessa fase da disputa. O primeiro carrega o desgaste junto às suas bases pela exposição proposital, pela direção de seu próprio partido, de um vídeo que denota um momento de fragilidade emocional que soou como instabilidade. Já Aro, porque saiu do episódio acusado por Mateus Simões de traição e não conseguiu apresentar argumentos razoáveis para ter cuspido no prato que comeu.

Todas as demais candidaturas registradas que estarão na batalha campal a partir de 15 de agosto são sobreviventes do processo. No PL, Flávio Roscoe, que era o nome da preferência de Flávio Bolsonaro (PL), quase foi atropelado por Marcelo Aro em seu projeto de unificar o PL, o Republicanos e a Federação União Progressista em torno de seu nome. Foi um ataque frontal. Lutou, resistiu, sobreviveu com o apoio da força tarefa da base bolsonarista raiz do PL, que se fechou em defesa de um nome próprio para concorrer ao governo de Minas. Roscoe terá 19,41% do tempo de antena para a sua campanha.

No MDB, Gabriel Azevedo foi assediado pelo PSD de Mateus Simões, que trabalhando com as cúpulas nacionais do PSD e do MDB, tentou atrai-lo para uma composição como vice em sua chapa. Gabriel manteve a candidatura, a despeito de todas as especulações. Não conseguiu ampliar alianças, porque a sua campanha não está sustentada nem no lulismo, nem no bolsonarismo, nem em uma estrutura administrativa. Terá 8,68% do tempo de antena para expor o seu programa. Sobreviveu. No PDT, Alexandre Kalil conseguiu se aliar ao PSDB – o que lhe ampliará de 3,33% para 6,86% o acesso ao horário eleitoral gratuito. Não é muito, mas com tucanos, Kalil saiu do isolamento, já que recusou qualquer tentativa de composição com o campo lulista. Sobreviveu.

Pela Frente PT, PCdoB, PV, o deputado federal Patrus Ananias (PT) vai encabeçar a chapa com o vice do PSB, o ex-procurador geral de Justiça, Jarbas Soares Júnior. Também terá o apoio da Federação Rede-Psol. A coligação lhe garante 21,38% da propaganda eleitoral gratuita. Patrus pretendia concorrer à Câmara dos Deputados e, como único nome de convergência disponível no campo lulista, assumiu a candidatura. Algo ou muito ainda pode mudar até 15 de agosto. Mas o rosto da corrida já é conhecido. Os concorrentes estão postos. A fase das rasteiras e do fogo amigo dá lugar agora à guerra campal. E ao julgamento das urnas. Não basta mais apenas habilidade para articular, mas, é preciso carisma para sobreviver ao escrutínio do eleitor mineiro.

 

Zema quer IA no lugar de juízes

O ex-governador Romeu Zema, candidato do Novo à Presidência, defende o uso de inteligência artificial (IA) para substituir juízes. A proposta foi feita em entrevista à GloboNews, transmitida ao vivo ontem. Segundo ele, é preciso que “a máquina pública no geral, municípios, estados e União, fique pelo menos 1% mais eficiente ao ano”. Para isso, o candidato propõe o uso de recursos tecnológicos já adotados no setor privado. “No Judiciário, tem muita coisa que um juiz faz hoje que inteligência artificial pode assessorar ou ficar muito mais produtivo. Em vez de ter 10 mil juízes, você pode ao longo do tempo reduzir para 8 mil, depois para 6 mil, porque eles vão ficar mais produtivos. O setor público, eu estive lá dentro, do outro lado do balcão, ele só quer mais estrutura, só quer mais carne, só quer mais poder e mais orçamento”, defendeu.


“Privatizar tudo”

Durante a entrevista, Romeu Zema disse também que, se eleito presidente, pretende dar “quatro choques” no país. “Eu quero privatizar tudo, a começar pela Petrobras. Em Minas Gerais, nós privatizamos 118 empresas. Vamos fazer uma reforma administrativa. Vamos fazer uma reforma previdenciária. E vamos melhorar os programas sociais”, afirmou. Questionado sobre como seria a privatização da Petrobras em curto período, levando em consideração que não conseguiu privatizar a Cemig em seus dois mandatos, Zema fugiu do questionamento e afirmou que “as coisas estão andando”. A proposta de privatização da Cemig feita por Zema está “engavetada” na Assembleia Legislativa.

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Trump “fanfarrão”

Romeu Zema declarou também durante a entrevista que, se fosse presidente do Brasil hoje, iria retaliar os EUA por causa das recentes medidas adotadas contra o país. “Certamente [iria retaliar], naquilo que tiver ao nosso alcance, eu vou falar: 'Não, pera aí. Vocês têm tanta facilidade aqui, não é desse jeito que a coisa funciona, não. Tudo tem limites. Agora, nós temos que lembrar que temos lá nos Estados Unidos um presidente imprevisível e um tanto fanfarrão, uma pessoa que está causando turbulências em boa parte do mundo e que, em breve, provavelmente, não estará lá mais”, declarou.

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