Cidades-pêndulo que decidirão a eleição
"Os municípios-pêndulo são, por definição, aqueles onde a eleição ainda está em disputa"
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Em 1904, a rígida geografia política americana, ainda dividida pela memória da Guerra Civil (1861-1865), registrava o persistente e estável voto no Partido Democrata na região do Sul Sólido (Solid South). Já o Nordeste e o Meio-Oeste industrial norte-americano eram redutos do Partido Republicano. Com tais resultados nas eleições presidenciais consolidados de véspera, a disputa nacional era decidida por uns poucos estados infiéis do Meio-Oeste, que oscilavam entre democratas e republicanos, em decorrência de situações específicas nos diferentes pleitos. Ao prospectar, nesses estados, as estimativas de resultados da disputa presidencial entre o republicano Theodore Roosevelt e o democrata Alton B. Parker, o jornal The Daily Tar Heel, da Carolina do Norte, cunhou pela primeira vez o termo “swing states” – estados que balançam ou simplesmente estados-pêndulo. A mídia nacional adotou. A expressão se disseminou e ganhou novo interesse na era da tecnopolítica, em que, mundo afora, as eleições presidenciais se tornam cada vez mais apertadas e de resultados dependentes do estreito nicho do eleitorado não polarizado.
Assim como os pêndulos que oscilam pela mecânica da gravidade e da inércia, esse é o eleitor que, no caso brasileiro, pode votar em Lula (PT) ou em Flávio Bolsonaro (PL), na provável hipótese de que ambos se enfrentem no segundo turno. Mas em que cidades estão esses eleitores-pêndulo? Entre 2002 e 2022, 1.062 municípios brasileiros, dos quais 248 em Minas Gerais, oscilaram entre um pleito e outro na preferência por candidaturas presidenciais de esquerda e de direita. Se em 2002, escolheram Lula, em 2006, preferiram Geraldo Alckmin, então no PSDB, que se opunha à “esquerda” petista.
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Nas sucessivas eleições de 2010 e 2014, esses municípios balançaram entre petistas e tucanos. Em 2018, tornaram-se bolsonaristas e, em 2022, se deslocaram para o lulismo. “São os chamados municípios-pêndulo”, assinala o cientista político Fábio Vasconcelos, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), da PUC Rio e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) no campo da representação e legitimidade democrática (Redem). As cidades-pêndulo, que ao longo das duas últimas décadas oscilaram entre eleições à esquerda e à direta, segundo contextos específicos, serão decisivas nesta eleição presidencial de 2026, que se projeta acirrada, conforme apontam as pesquisas de opinião.
Em análise de grandes bancos de dados com resultados eleitorais de segundo turno de seis eleições presidenciais compreendidas entre 2002 e 2022, nos 5.563 municípios brasileiros, Fábio Vasconcelos identificou três blocos territoriais, que exibem diferentes padrões de votação. Além do bloco das 1.062 cidades-pêndulo, de característica volátil, onde residem 34,1 milhões votantes – 21,6% do eleitorado nacional – o pesquisador classificou outros dois blocos territoriais estáveis. O primeiro bloco reúne 1.489 municípios, entre os quais 267 em Minas, que votaram no PT nos seis segundos turnos presidenciais.
Estão concentrados sobretudo no Nordeste. Tais cidades reúnem 33,7 milhões de eleitores – que representam 21,3% do eleitorado nacional – entre os quais 2,4 milhões em Minas Gerais. Ouro Preto, Viçosa, Janaúba, Mariana, Cataguases, Januária, Ponte Nova, Leopoldina, Diamantina, Santos Dumont, Bocaiuva, Salinas, Almenara e Iturama estão entre os maiores municípios mineiros de votação hegemônica do PT, com eleitorado que varia entre 30 mil e 64 mil eleitores.
O segundo bloco territorial de municípios com comportamento eleitoral estável reúne 546 cidades, entre as quais 46 em Minas, que votaram em candidaturas da direita nas seis eleições consecutivas. Estão em grande parte localizados no interior do Sul e do Centro-Oeste brasileiro, reunindo 8,2 milhões votantes – que representam 5,2% do eleitorado nacional –. entre os quais 454,4 mil em Minas Gerais. Entre essas cidades mineiras, que têm até 31 mil eleitores, estão Santa Rita do Sapucaí, São Gotardo, Ouro Fino, Carmo do Paranaíba, Santo Antônio do Monte, Sacramento, Monte Sião, Senador José Bento, Cedro do Abaeté, Consolação.
OUTROS blocos
Além dos dois grandes blocos de municípios que votaram nas seis eleições presidenciais na esquerda e na direita, Fábio Vasconcelos também identificou dois outros grupos, que embora não sejam hegemônicos, votaram majoritariamente – em pelo menos quatro dos seis pleitos – à direita ou à esquerda. São no Brasil 1.409 cidades, entre as quais 181 em Minas, que, nos seis pleitos presidenciais de segundo turno apresentaram votação predominantemente à esquerda. Concentram 34,2 milhões de eleitores, dos quais, 4 milhões em Minas. Outras 1028 cidades brasileiras, entre as quais, 111 em Minas, votaram majoritariamente à direita. Belo Horizonte se enquadra nessa categoria: em 2002 e em 2006 Lula venceu o pleito; em 2010 e 2014 venceram os tucanos José Serra e Aécio Neves; e em 2018 e 2022, Jair Bolsonaro (PL) foi majoritário. Em seu conjunto, representam 47,6 milhões de eleitores, dos quais, 5,5 milhões mineiros.
Considerando blocos hegemônicos e grupos majoritários, há, segundo o estudo de Fábio Vasconcelos, 1.574 cidades que somam 55,8 milhões de eleitores – 35,4% do eleitorado total – que votaram hegemonicamente ou majoritariamente na direita no período de análise. No campo da esquerda, são 2.898 cidades, onde vivem 67,9 milhões de eleitores – 43,1% do eleitorado. “Com o eleitorado nacional estimado em 157,8 milhões de pessoas para 2026, os municípios-pêndulo concentram 21,6% do total. É o terceiro maior bloco por eleitorado, maior do que o das cidades hegemônicas do PT e muito maior do que o das cidades hegemônicas da direita”, afirma Fábio Vasconcelos.
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Na avaliação do pesquisador, esses dados sugerem que na configuração geográfica dos votos, nenhuma candidatura vencerá apenas com as suas bases consolidadas. “Os municípios-pêndulo são, por definição, aqueles onde a eleição ainda está em disputa. Ou seja, uma campanha que pretenda chegar ao segundo turno em posição competitiva precisa de uma estratégia para este grupo, e os dados mostram que ele é geograficamente disperso, mas com maior peso (contingente eleitoral) em municípios dos estados de São Paulo, seguido por Rio Grande do Sul e Minas Gerais”, sustenta Fábio Vasconcelos.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
