Se neste milênio a única eleição ao governo de Minas em dois turnos foi a de 2018 – quando o outsider e empresário Romeu Zema (Novo), no contexto do lava-jatismo, se projetou como alternativa às candidaturas de petistas e tucanos –, a tradição mineira de ampla composição que se firma ajudou a encerrar todos os pleitos em um único turno. Soma-se a essa tendência o registro da reeleição de mandatários bem-avaliados. De quatro eleições em que governadores concorreram a um novo mandato, exceção a 2018, venceram em três – 2006, 2010 e 2022.

 


Em 2002, o então governador Itamar Franco, que morreu em 2011, estava no MDB e só não disputou a reeleição porque Newton Cardoso (MDB), também já falecido, era vice-governador e controlava a legenda. O emedebista não abriu mão de disputar o governo mineiro. Itamar Franco, que já havia sido rechaçado pelo MDB nacional para concorrer ao Planalto por determinação do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), respondeu ao estilo da terra: apoiou na sucessão estadual o então presidente da Câmara dos Deputados, Aécio Neves (PSDB), assim acertando as contas com Newton Cardoso. O tucano elegeu-se em primeiro turno. Ao mesmo tempo, Itamar deu sustentação à chapa Lula (PT)-José Alencar (PL). Matou dois coelhos em uma só cajadada: pôs um tucano no Palácio da Liberdade e, para o Palácio do Planalto, ajudou a viabilizar um petista.


Costurar alianças é arte para lideranças. Enquanto em Minas o tucanato teve Aécio Neves no comando das composições estaduais e Fernando Pimentel (PT) liderando acertos municipais, registrou-se a concertação de amplas coligações. Ao ponto de, em 2008, petistas e tucanos se unirem para eleger à Prefeitura de Belo Horizonte Marcio Lacerda, que era do PSB. É verdade que quatro anos depois, esse acerto ruía pela movimentação nacional, e, em 2014, Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves se viram em confronto direto pela Presidência da República. Mas em Minas, ao longo da primeira década do milênio, petistas e tucanos se uniram para enfraquecer o adversário comum: o tucanato paulista. Hoje, Geraldo Alckmin, ex-tucano e adversário em 2006, é vice-presidente da República, está no PSB, e é o aliado que viabilizou o retorno de Lula ao Planalto.


Na última eleição presidencial, o país contava os seus mortos, resultado de uma desastrada gestão da COVID-19, ao mesmo tempo em que já se dividia, também pela força dos algoritmos, entre “pessoas de bem” e “pessoas do mal”, “deus” e o “diabo”... O mundo colorido da política de alianças e composições foi transformado numa foto preto e branca, insossa. A dimensão da pluralidade, que habita todos nós – já que o bem não existe sem o mal – foi pisoteada: dois terços do eleitorado brasileiro estavam polarizados em 2022, conforme atesta em análises de grandes bancos de dados o pesquisador e cientista político Jairo Nicolau.


Embora as sociedades democráticas ainda estejam sob o impacto da tecnopolítica, pelo mundo, o eleitorado dá sinais, aqui e ali, de que, mais do que ideologias, deseja soluções para problemas reais de vida. Em Minas, os pleitos municipais de 2024 mostraram que a cristalização entre bolsonaristas/antipetistas e lulistas/antibolsonaristas craquelou em algumas grandes cidades, em que candidaturas foram costuradas em ampla aliança. Em Belo Horizonte, embora a federação PT-PV-PCdoB tenha lançado o deputado federal Rogério Correia (PT) e, o PL, anunciado o deputado estadual Bruno Engler em aliança com o PP, petistas e bolsonaristas não polarizaram a disputa. Esse enfrentamento se deu por “procuração”, no segundo turno, entre Bruno Engler e o então prefeito Fuad Noman (PSD), que reuniram em torno de si Solidariedade, União Brasil, PRD, Agir, Avante e Federação PSDB/Cidadania. Em Contagem, a então prefeita Marília Campos (PT), candidata à reeleição, venceu em primeiro turno com uma ampla aliança de 14 legendas.


Ainda com a sucessão estadual aberta, pela não definição das candidaturas dos dois campos que polarizam a sucessão presidencial, são as composições que irão definir as características do pleito. Em Minas, no campo lulista, Marília Campos é o nome mais competitivo. Entretanto, enquanto o partido dela tenta pressioná-la para encabeçar a chapa majoritária ao Palácio Tiradentes, Marília prega a frente ampla, expandindo a composição principalmente com o MDB, que no plano nacional não é um aliado “natural” do PT como o PSB e o PDT. Ao lado de Gabriel Azevedo, pré-candidato do MDB e de Jarbas Soares Júnior, pré-candidato do PSB, Marília Campos, neste sábado, em Montes Claros, pretende reafirmar a sua proposta de construção de frente ampla. O PT de Minas, contudo, fez valer o seu ponto, em reunião com o presidente Lula (PT), em defesa de uma candidatura própria ao governo do estado, de preferência, encabeçada pela própria Marília. Seria uma aposta na polarização, com uma candidatura de perfil de composição. A tendência é de que Marília não invista nesse projeto.


No campo bolsonarista, há igualmente dilemas. O PL sente que a candidatura do senador Cleitinho (Republicanos), embora vinculada ao campo bolsonarista, extrapola a perspectiva da polarização: ele abraça pautas do governo Lula, evitando reproduzir o posicionamento automático do bolsonarismo raiz. Por isso, o PL gostaria de ter Cleitinho, mirando expandir apoios à sua esquerda. Cleitinho, contudo, até aqui, elege a ambiguidade. Ora quer, ora não quer. Tanta incerteza, levou o PL a se preparar para lançar a candidatura ao governo de Minas de Vittorio Medioli (PL), empresário e ex-prefeito de Betim.


No campo bolsonarista, também colocado na disputa está o governador Mateus Simões – agora no PSD, recém-chegado do Novo – apostando que, uma vez em legenda não polarizada, possa repetir, com a máquina, a trajetória de Fuad Noman. Mateus lutou para ter o PL, mas, até aqui, a candidatura à Presidência da República de Romeu Zema (Novo) inviabilizou o projeto. Também na disputa, o ex-prefeito Alexandre Kalil (PDT), vem mantendo diálogo com a Federação PSDB-Cidadania, ao mesmo tempo em que aguarda os desdobramentos à sua esquerda, na expectativa de receber, por gravidade, o eleitorado de esquerda como ocorreu nos pleitos de 2016 e de 2020, sem que para isso precise se posicionar com Lula no primeiro turno.


O que será do pleito mineiro, ainda é uma interrogação. Mas sabe-se que, se por um lado a ideologia delimita nichos, por outro é a costura de diferentes que conquista maiorias. Eleição não é, nem nunca será, um tribunal de virtudes, mas um exercício de somas.

 

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