Depois de o campo lulista aguardar por mais de um ano pelo senador Rodrigo Pacheco (PSB) para concorrer ao governo de Minas, agora é a vez do campo bolsonarista esperar pelo senador Cleitinho (Republicanos). Nas muitas voltas que a política dá, Cleitinho, que lidera as pesquisas de intenção de voto, buscou interlocução ao longo de 2025 com o PL mineiro. A legenda, naquele momento, atuava para uma composição com Mateus Simões (PSD), hoje governador de Minas. O cenário da disputa presidencial e a resistência dos parlamentares que se intitulam “bolsonaristas autênticos” convergiram para inviabilizar essa construção.


Mateus Simões não conseguiu assegurar um palanque único para Flávio Bolsonaro em Minas. Ao mesmo tempo em que a pré-candidatura do ex-governador Romeu Zema (Novo) é sustentada por Mateus Simões, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) é da mesma legenda do governador mineiro. Embora teçam promessas de unidade do campo da direita bolsonarista, no primeiro turno, Zema e Caiado concorrem com Flávio Bolsonaro por uma posição no segundo turno da disputa presidencial.

 


Antes da “unidade”, virá o fogo amigo. Zema anda em modo “morde e assopra” ao filho 01, conforme se evidenciou nas críticas dirigidas pelo mineiro aos áudios em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar um filme promocional do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Flávio em BH brindou ao lado de Zema à “amizade” com um gole de leite, recomendando-lhe que não dê ouvido a “marqueteiros”, mas “fale com o coração”. Contudo, está ali uma rachadura visível naquele copo de vidro, em que se celebrou o leite mineiro.


Outro complicador que dificultou a aliança do PL com Mateus Simões: deputados estaduais e federais bolsonaristas, que mantêm base eleitoral junto às forças de segurança, resistiram ao acordo, porque a categoria nutre longa lista de ressentimentos com o governo Zema e, por extensão, com o seu sucessor. Nikolas Ferreira (PL) tentou articular uma aproximação de Mateus Simões com as forças de segurança, mas até aqui não evoluiu bem.


Olhando para o desempenho, neste momento, de Mateus Simões e convencido de que, para impulsionar a sua candidatura em Minas, Cleitinho é o nome mais popular, Flávio Bolsonaro formalizou o interesse da legenda na coligação entre Republicanos e PL na cabeça. Havia um entendimento implícito de que o vice da chapa seria Vittorio Medioli (PL), ex-prefeito de Betim. Ao deputado federal Domingos Sávio (PL) seria reservada uma vaga ao Senado e a segunda estaria aberta para expandir alianças. Se a composição com Cleitinho não evoluísse, a hipótese Flávio Roscoe, presidente licenciado da Fiemg, estava posta para encabeçar uma eventual chapa do PL ao governo de Minas.


Apesar do plano B do PL desenhado com a candidatura própria, Flávio Bolsonaro chegou a Minas na expectativa de selar a composição PL-Republicanos com o anúncio da chapa Cleitinho-Vittorio Medioli. Mas nem tudo saiu como previsto. Com compromissos familiares, Cleitinho não pretendia estar em Minas naquela semana. Convencido por Luís Eduardo Falcão, ex-prefeito de Patos de Minas filiado ao Republicanos, o senador voou de Brasília a Patos na quarta-feira (3) para se encontrar pessoalmente com Flávio Bolsonaro. Desembarcou dez minutos depois do filho 01 e, no próprio aeroporto, fecharam-se numa sala Flávio Bolsonaro, Cleitinho, Domingos Sávio, Luís Eduardo Falcão e Nikolas Ferreira.


INCOVENIENTES

Cleitinho pediu um prazo de dez dias para se posicionar, pois não está certo de que será candidato. Foi franco: “O apoio de vocês é muito bem-vindo, mas o meu candidato a vice é o Falcão”. Explicou-se: “Ele deixou a prefeitura e a presidência da Associação Mineira de Municípios (AMM), filiou-se ao Republicanos, evoluímos na conversa. Enquanto isso, o PL fazia acenos para Mateus Simões”. Cleitinho assinalou que, das três demandas postas pelo PL – palanque nacional para Flávio Bolsonaro, a posição ao Senado para Domingos Sávio e o vice da chapa –, aceitava duas.


As lideranças do PL assentiram, mas não saíram confortáveis do encontro. A indefinição de Cleitinho traz inconvenientes: a Copa se aproxima e, ao final dela, as convenções partidárias. A corrida é também contra o tempo. Não à toa, Vittorio Medioli defendeu, na quinta-feira (4) que o PL avalie lançar candidatura própria, garantindo um palanque a Flávio Bolsonaro na hipótese da desistência de Cleitinho. Medioli se encontrou algumas vezes com o senador e é o vice defendido por deputados estaduais bolsonaristas, em eventual coligação Republicanos-PL. Sentindo-se incompreendido pelo meio político e, com frequência, subestimado, Cleitinho tampouco atravessa uma boa fase com a direção nacional do Republicanos. Ciente de que grupos políticos ligados ao governo de Minas pressionam a direção nacional do Republicanos para evitar a sua candidatura – o que beneficiaria Mateus Simões –, Cleitinho chegou a manifestar recentemente desconfiança de que terá a legenda para concorrer. Foi rebatido por Marcos Pereira, presidente nacional.

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Há, contudo, um desgaste do senador com o partido, sobretudo em decorrência da permanência no Republicanos de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados. Ele irá concorrer à Câmara por Minas Gerais. Cleitinho já chamou Eduardo Cunha de “vagabundo”, Cunha avisou que iria processá-lo. Mas fato é que Eduardo Cunha está à espreita da carona eleitoral do puxador de votos Gleidson Azevedo, irmão gêmeo de Cleitinho e ex-prefeito de Divinópolis. Eduardo Cunha, neste momento, está sendo julgado no Supremo Tribunal Federal (STF) pela acusação de ter sido beneficiário de um esquema de recebimento de vantagens indevidas da empreiteira OAS em troca de favores no Legislativo. Nesse balaio de desentendimentos, Cleitinho poderá lançar Gleidson Azevedo ao Senado, assim dando a sua resposta ao Republicanos pelo apoio a Eduardo Cunha.

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