Pouco mais de uma semana depois de assumir o governo de Minas, Mateus Simões (PSD) deixa claro a que veio: diferentemente de Romeu Zema (Novo), não vai terceirizar nem a gestão e, menos ainda, a condução política dos assuntos do estado e de sua campanha à reeleição. As questões da administração não lhe são propriamente novas: na prática, Mateus já era quem conduzia o estado. Já as questões políticas, inteiramente delegadas por Zema a Marcelo Aro (PP), agora são pessoalmente conduzidas por Mateus Simões.
Pré-candidato ao Senado, Aro se desincompatibilizou na Quinta-feira Santa da Secretaria de Estado de Governo. Dois dias antes, contudo, o primeiro embate público entre o secretário e o governador. Aro criticou a filiação ao PSD do senador Carlos Viana, candidato à reeleição, a convite de Mateus Simões e Cássio Soares, presidente estadual do PSD. Aro reclamou não ter sido consultado e arrematou: “Alguém vai sair chateado dessa história”.
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Carlos Viana é concorrente de Aro na disputa ao Senado. Ele havia sido convidado a se desfiliar do Podemos – legenda presidida pela deputada federal Nely Aquino, do grupo político de Marcelo Aro. O senador estava sem legenda e, diante de si, sobrava-lhe a perspectiva de filiação apenas a partidos pequenos, o que lhe tiraria a competitividade. O grupo político de Marcelo Aro considera-se “traído”.
Integrante da base do governo na Assembleia Legislativa, o pai de Marcelo Aro, deputado estadual Zé Guilherme (PP), desabafou entre colegas na Quinta-Feira Santa: “A conta vai chegar ao Mateus Simões”. A filiação de Viana ao PSD, em princípio, atrapalha o planejamento à reeleição de Marcelo Aro, que trabalhava para uma composição com o PL: a dobrada com o deputado federal Domingos Sávio (PL), candidato ao Senado, ajudaria a atrair o segundo voto do bolsonarismo.
Além de acenar a Mateus com a aliança ao PL, Aro também havia prometido ao governador que traria à coligação a federação União Progressista – que detém 20% do tempo da propaganda eleitoral gratuita. A essa composição se somariam o próprio PSD de Mateus Simões e o Podemos. Tudo posto na balança, a sua própria campanha ao Senado e a de Mateus Simões teriam algo próximo a 40% do tempo da propaganda eleitoral gratuita.
Pelo momento, os fatos não caminharam nessa direção. O novo governador entendeu que a filiação ao PL do empresário Flávio Roscoe, presidente licenciado da Fiemg, é claro sinal de que a legenda tem a alternativa de lançá-lo ao governo de Minas. Em que pese a aliança do PL com Mateus tenha sido defendida por Nikolas Ferreira (PL), com prazo de validade à espera de seu crescimento, o partido ainda tem a opção de apoiar a candidatura do senador Cleitinho (Republicanos), o principal rival de Mateus Simões no campo da direita.
Ao mesmo tempo, Mateus Simões percebe, com a filiação do senador Rodrigo Pacheco ao PSB – e a sua provável candidatura ao governo de Minas – que a federação União Progressista poderá não apoiá-lo em Minas. Embora o PP caminhe em sua direção, o União dá sinais de estar em sentido contrário. Mateus Simões tem a máquina à mão e, diferentemente de Rodrigo Pacheco e Cleitinho, é candidatura confirmada ao governo de Minas. Viu-se em cenário de isolamento. E entendeu, que, mais do que nunca, a prioridade de sua campanha é retirar da cena a probabilidade da candidatura de Cleitinho, que tem potencial para asfixiar o seu crescimento na direita bolsonarista.
CRÍTICA
Diversas iniciativas de diálogo foram conduzidas pelo grupo de Mateus tentando convencer Cleitinho a não concorrer. Até aqui, sem sucesso. A responsabilidade é atribuída ao deputado federal Euclydes Pettersen, presidente estadual do Republicanos e aliado de Cleitinho. Em 12 de março, em agenda em Uberlândia, Mateus disparou: “O Republicanos tem que se preocupar mais em explicar a situação do presidente estadual do partido, que está quase preso pela Polícia Federal, do que ficar falando em administrar o estado”.
Dentro dessa perspectiva, Carlos Viana, que neste momento se apresenta com bom desempenho nas pesquisas de intenção de voto ao Senado e à frente de Aro, é percebido como bom aliado de Mateus. Presidente da CPMI do INSS, Viana acompanhou de perto o relatório de Alfredo Gaspar (PL-AL), não aprovado, que pedia o indiciamento de Euclydes Pettersen. Considerando-se “vítima” de uma “conspiração” conduzida por Viana, Pettersen acusa a tentativa de desgastá-lo. Viana nega tal intenção e defende o relatório.
Adicionalmente a esse contexto político, há algum incômodo no entorno de Mateus Simões com Marcelo Aro. Durante o período em que esteve à frente da Secretaria de Governo, Aro mobilizou deputados e as suas bases de prefeitos, liberando emendas e disponibilizando investimentos: com frequência pedia o apoio das lideranças para o segundo voto ao Senado. Assim, acumulou promessas de apoio para o segundo voto da direita à esquerda.
Ele se projeta como o maior beneficiário do esperado embate entre as candidaturas de Domingos Sávio e Marília Campos: espera ter votos dos dois lados. Quando atuava nas bases de deputados promovendo adversários locais, Aro também acumulou rusgas. Foi o caso no Sul de Minas, no território das microrregiões de Passos e São Sebastião do Paraíso, onde as bases do deputado federal Emidinho Madeira (PL) se interceptam com aquelas do deputado estadual Cássio Soares, que será candidato a deputado federal.
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“Vingança é prato que se come frio” é um mote que se escuta com frequência na política. Viana no PSD prejudica Aro. Aro aposta que Mateus precisará dele e virá recompor forças, já que tem as suas próprias cartas na manga. Uma delas: poderá levar a federação União PP para Cleitinho, ali articulando uma chapa ao Senado em parceria com o PL, o que até aqui se demonstrou improvável em torno de Mateus. A esta altura, está em aberta a pergunta: “Qual será o vetor dessa DR?”
