Ao ameaçar descumprir decisões judiciais do Tribunal de Justiça de Minas Gerais e anunciar que, quando assumir o governo de Minas – o que irá acontecer até o fim de março –, irá impor “limites” ao órgão, o vice-governador Mateus Simões (PSD) conseguiu uma proeza. Alcançou unanimidade entre os quatro grupos de desembargadores que atuam, a depender do contexto da disputa eleitoral interna, em maior ou menor convergência.

“Na hora que mexe com a instituição, não tem grupo. A unidade é absoluta. Não há divergência entre grupos quando se trata de ataque ao Judiciário”, afirmou um desembargador a esta coluna nessa segunda-feira, sob condição de sigilo de identidade, refletindo o sentimento de outros magistrados ouvidos.

Considerada “bravata eleitoral”, desembargadores estranharam o posicionamento do vice-governador, diante de uma decisão técnica do TCE envolvendo o programa estadual de escolas cívico militares – que não tem previsão orçamentária e, segundo a Corte, não tem planejamento –, que foi confirmada no âmbito do Tribunal de Justiça.

Mateus Simões sobe o tom acreditando cativar o eleitorado de viés bolsonarista, num momento em que está enfrentando dificuldades na articulação das alianças. A eventual confirmação da candidatura do senador Cleitinho (Republicanos) representa, para o vice-governador, o mais forte obstáculo ao crescimento de sua candidatura, que, neste momento, ainda apresenta baixo desempenho nas pesquisas de intenção de voto. Ainda que assuma o governo com a desincompatibilização do governador Romeu Zema (Novo) e tenha o apoio, pela força da máquina, de prefeitos, o vice-governador ainda não construiu uma narrativa consistente para a sua campanha.

Ao deixar o Novo para se filiar ao PSD, deu sinais de que seguiria uma linha comedida, tentando expandir o seu discurso ao eleitor moderado. Mas, na medida em que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) não será candidato e em que aposta que conseguirá impedir a candidatura de Cleitinho, Mateus Simões redesenha a sua narrativa para a direita bolsonarista.

Em um de seus recentes posts, o vice governador brande um cassetete e anuncia as razões pelas quais a polícia mineira “não se esconde”. Diz: “Criminoso, vamos atrás de você”. Acredita, assim, acenar para o senador Flávio Bolsonaro (PL), indicando-lhe que em Minas também seria acolhido em seu palanque – onde estará Romeu Zema e, por uma questão partidária, a terceira via de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD.

Exatamente por ter dimensão do peso político de Minas Gerais, segundo colégio eleitoral, Flávio Bolsonaro quer palanque próprio no estado e tende a apostar na candidatura de Cleitinho, com o apoio do PL. Ainda que o presidente Lula não tenha definição de seu palanque político em Minas, os nomes colocados na disputa vão ocupar o espaço da centro-direita à esquerda, ainda que o senador Rodrigo Pacheco (PSD) não concorra. Estão anunciadas as candidaturas do ex-prefeito Alexandre Kalil (PDT) e do ex-presidente da Câmara Municipal Gabriel Azevedo (MDB), além de outras possibilidades, ainda não confirmadas, como a reitora da UFMG, Sandra Goulart, que se filiaria ao PT, e o deputado federal André Janones que deixará o Avante para se filiar à Rede.

Mateus Simões está em busca de seu tom eleitoral. Agora vive a fase das ameaças. De prático, pouco resultado. Como diria o ditado, cão que late por hábito acaba ignorado quando decide morder.

 

De olho no MDB

Com o PSD posicionado para se firmar como terceira via, projetando-se para o pós-Lula, em 2030, o presidente Lula trabalha em 2026 pela neutralidade da Federação União-PP, enquanto arranca os nacos do PSD em estados em que as lideranças vão preferir marchar com a campanha à reeleição presidencial em detrimento da terceira via de Gilberto Kassab. Se, por um lado, Lula ganha retirando a federação União PP de Flávio Bolsonaro e, cooptando os apoios do PSD em alguns estados, por outro, ele precisa ampliar a sua chapa, em direção à centro-direita, com uma coligação formal. O MDB é a meta.

 


Vai a vice?

Em mapeamento dos diretórios estaduais do MDB no país, em 16 estados o partido se posiciona contra coligação com Lula; em 11 estados há apoio à sua gestão. Lula cogita, se necessário, entregar a posição de vice à legenda. A maior resistência vem de São Paulo, estado para o qual o presidente já afirmou que o seu vice, Geraldo Alckmin (PSB), o ministro da Fazenda,Fernando Haddad (PT), e a ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB), terão papel a cumprir nas eleições de outubro.

 

 

E o Alckmin?

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou nessa segunda-feira que o partido está disposto a conceder qualquer palanque ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) nas eleições. Ele também declarou que a sigla continua interessada em lançar o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), em uma disputa majoritária em São Paulo. Mas ressaltou que não haverá campanha sem o consentimento do próprio ministro. Apesar de Alckmin ter manifestado interesse em permanecer na vice-presidência, sua continuidade não está assegurada. Até o momento, a preferência de Lula é que Alckmin e a ministra do Planejamento, Simone Tebet, disputem o Senado por São Paulo, em uma chapa com ministro Haddad como candidato ao governo.

 


Fim da escala 6 x 1

O líder do União Brasil na Câmara, deputado Pedro Lucas Fernandes (União-MA), anunciou em suas redes sociais que a discussão em torno da PEC 8/2025, de autoria da deputada Erika Hilton (Psol-SP), que propõe o fim da escala 6 x 1, será “séria, responsável e sem preconceitos”. A proposta será analisada pela Comissão de Constituição e Justiça, presidida por Leur Lomanto Jr (União-BA).

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No primeiro semestre

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos- PB) pretende levar a PEC à votação ainda no primeiro semestre deste ano, antes do recesso do período eleitoral. A PEC 8/2025 começou a ser debatida no segundo semestre de 2025, em uma subcomissão vinculada à Comissão de Trabalho. Como não houve acordo entre o relator Luiz Gastão (PSD-CE) e a bancada da base do governo, o texto entrou em zona cinzenta: com o impasse, o ano se encerrou sem uma data definida de votação e sem um parecer consensual. Nessa segunda-feira Hugo Motta transferiu o texto à CCJ, onde será reinstituído o debate.

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