Bebel Soares
Bebel Soares
PADECENDO

Bets: a destruição da família brasileira

As apostas online têm uma característica mais agressiva do que as drogas tradicionais: a acessibilidade absoluta

Publicidade

Mais lidas

Você conhece alguém viciado em apostas. Isso não é uma pergunta, é uma afirmação. Mesmo que você não saiba, você conhece alguém que está viciado e que está perdendo muito dinheiro, se endividando e fazendo absurdos graças ao vício. O que estamos vendo é a destruição das famílias por causa das bets.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

A primeira vez que ouvi falar das tais apostas on-line foi em 2022, quando uma mãe me mandou um email contando sobre uma situação familiar: o filho dela estava viciado em apostas esportivas, começou a jogar na pandemia e os pais só descobriram quando o gerente do banco ligou ao perceber muitos saques na poupança do jovem. 

Foi quando eu soube que as apostas eram um perigo dentro de casa. O menino usou todo o dinheiro da poupança para pagar a faculdade, fazendo apostas. Em 2023, pude ver de perto como se comporta uma pessoa viciada, ver os mecanismos que as plataformas usam para manter o vício e entender como é difícil vencer a luta e deixar de apostar.

Uma pessoa viciada nessas bets se comporta como um toxicômano. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Americana de Psiquiatria (APA) reclassificaram o vício em jogos, colocando-o na mesma categoria dos transtornos por uso de substâncias. 

Eles são vícios comportamentais que ativam exatamente os mesmos circuitos cerebrais. A pessoa viciada perde o controle de si mesma, mente para esconder o tamanho do estrago, se afasta dos amigos e familiares e negligencia o trabalho ou os estudos. Embora os mecanismos cerebrais sejam parecidos, as apostas online têm uma característica mais agressiva do que as drogas tradicionais: a acessibilidade absoluta. 

Para conseguir uma droga ilícita, o usuário enfrenta barreiras geográficas, sociais, legais e o próprio estigma. Já as bets estão "no bolso" de qualquer pessoa, 24 horas por dia, mascaradas como entretenimento e endossadas por celebridades e influenciadores, patrocinando times de futebol. Isso diminui a percepção de risco, acelerando a velocidade com que um usuário casual se transforma em um dependente. 

O jogo é muito injusto; uma pessoa que ganhou R$ 50 mil após ter passado um período sem jogar, só poderia resgatar R$ 5 mil por dia. Dessa forma, ela teria que acessar a plataforma durante 10 dias para resgatar o valor. Cada vez que ela entrava, ela não conseguia se controlar e jogava mais.

Não preciso dizer que a ilusão dos R$ 50 mil ganhos se tornou um pesadelo de novas dívidas adquiridas com as perdas nas novas apostas. Nas apostas com o tigrinho, só o tigrinho ganha!. E quem perde, não perde só dinheiro e patrimônio, perde a dignidade, perde o discernimento. Alguns chegam ao ponto de matar ou morrer.

Tigrinho, Aviãozinho, apostas esportivas nunca deveriam ter sido liberadas. Hoje, elas são um problema gravíssimo, gerando endividamento de famílias e adoecimento psíquico. As apostas são a destruição da família brasileira. Até as crianças estão se viciando. A dica da psicóloga @larissafigueiredogomes é deixar a criança e/ou adolescente sem celular, se começar a jogar. Se esses jogos fazem um estrago enorme na vida de adultos, imagine em menores. E lembre, dívida de menor é dívida dos pais.

Atualmente, já tem campanha contra as bets - #blocknotrigrinho. A campanha "Block no Tigrinho" é um movimento nacional de grande impacto lançado nas redes sociais com o objetivo de conscientizar a população sobre os perigos das apostas online (bets) e jogos de azar digitais. 

Diferentemente do ato individual de bloquear robôs no Instagram, a campanha é uma mobilização social, cultural e política. Eu ainda acho que a solução precisa ser mais radical do que proibir propagandas e cancelar quem divulga. Deveria ser proibido novamente. Embora o estrago já tenha sido feito, as consequências estão aí, impactando a economia nacional, a saúde pública, a segurança e a própria estrutura social do país.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Para tratar o vício em apostas é preciso uma abordagem multiprofissional (psiquiatria, psicologia e grupos de apoio como os “Jogadores Anônimos”) e a urgência que dedicamos à dependência química é o único caminho para conter os danos sociais e de saúde mental atuais. Se você está tendo problemas com a ludopatia ou transtorno do jogo, busque ajuda profissional.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

apostas bets doenca familia vicio

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay