Ana Mendonça
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COLUNISTAS

Zema prometeu arrumar a casa. O que Minas entrega em 2026

Ao projetar sua imagem nacional, Zema enfrenta dificuldades para converter o capital político mineiro em viabilidade presidencial

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Quando Romeu Zema (Novo) se apresentou aos mineiros em 2018, a promessa era simples e poderosa: arrumar a casa; colocar as contas em ordem; governar Minas com a lógica da eficiência empresarial depois de anos de crise fiscal, atrasos salariais e descrédito administrativo. Em 2022, reeleito no primeiro turno, o discurso mudou pouco. A diferença estava na narrativa: a casa, dizia o governador, já estava organizada. Era hora de consolidar resultados.

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Ao se preparar para deixar o Palácio Tiradentes antes do fim do mandato para disputar a Presidência da República em 2026, o balanço entre o que foi prometido e o que Minas efetivamente tem nas mãos é mais complexo do que a retórica oficial costuma admitir.

No campo fiscal, Zema construiu seu principal ativo político. Minas saiu do déficit crônico, voltou a registrar superávits primários, regularizou repasses obrigatórios e retomou previsibilidade orçamentária. O pagamento em dia de salários e fornecedores marcou uma ruptura real com o colapso herdado em 2019. Esse resultado sustenta a imagem do gestor austero e explica parte relevante de sua aprovação entre o eleitorado mineiro.

O ajuste, no entanto, não resolveu a equação estrutural. A dívida pública de Minas segue em patamar elevado, acima da casa dos R$ 200 bilhões, e continuou crescendo ao longo da gestão. Mesmo com superávits operacionais, o peso dos juros e da renegociação com a União manteve o Estado sob pressão. A adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) dá fôlego, mas não era a primeira opção do governador.

É nesse contexto que o governo passou a defender com mais ênfase a venda de ativos públicos. A alienação de imóveis e participações do Estado virou parte da estratégia fiscal. Para aliados, pragmatismo. Para críticos, liquidação de patrimônio sem atacar o problema central. O fato é que Minas chega a 2026 discutindo a venda de ativos relevantes.

Vale lembrar que, em 23 de dezembro do ano passado, entrou em vigor a lei aprovada na Assembleia Legislativa que autoriza a privatização da Copasa. Na forma como foi sancionada, a Lei 25.664, de 2025, autoriza o Governo de Minas a iniciar o processo de desestatização da companhia, permitindo que o Estado deixe de ser seu controlador, mantendo a posse da chamada golden share, ação com poder de veto sobre decisões estratégicas. A futura empresa deve adotar o modelo de corporation, no qual nenhum acionista concentra grande poder decisório.

Os recursos obtidos com a desestatização deverão ser utilizados na amortização da dívida do Estado com a União ou no cumprimento de outras obrigações assumidas no âmbito do Propag, ressalvada a destinação de parte dos valores ao fundo estadual de saneamento básico.

Na economia, os números ajudam o discurso governista. Minas voltou ao radar de grandes investimentos, atraiu projetos bilionários nas áreas de energia, mineração, indústria e infraestrutura e melhorou indicadores de ambiente de negócios. O Estado ganhou competitividade e retomou protagonismo regional. Esse avanço, porém, convive com críticas à política de renúncias fiscais e à dificuldade de transformar grandes investimentos em desenvolvimento mais equilibrado entre as regiões.

Na gestão administrativa, Zema também deixou marcas. Houve avanço consistente na digitalização de serviços, redução de entraves burocráticos e reorganização de estruturas internas do governo. São mudanças pouco visíveis para a população, mas que alteraram a rotina da máquina pública e reduziram gargalos históricos.

Esse discurso de eficiência, no entanto, encontrou limites concretos na própria Cidade Administrativa, símbolo máximo do modelo de gestão. Ao longo dos últimos anos, servidores relataram problemas estruturais persistentes. Falta de políticas básicas de apoio, como espaços adequados para mães lactantes, falhas recorrentes em elevadores, deficiência de manutenção e episódios graves relacionados à demora no atendimento de emergência dentro do complexo. Pensada como vitrine de modernidade, a sede do governo se tornou também um retrato das contradições da reorganização administrativa.

É na relação com o funcionalismo que o desgaste se torna mais evidente. O caso mais sensível é o da segurança pública. Desde o primeiro mandato, Zema prometeu valorização das forças policiais. Na prática, policiais civis, militares e penais acumulam perdas inflacionárias significativas. Auxílios e medidas pontuais aliviaram pressões imediatas, mas não substituíram a recomposição salarial reivindicada pelas categorias. Em 2025 e na entrada de 2026, o impasse se aprofundou, transformando a segurança pública em um dos principais focos de tensão política da gestão.

Na saúde, o governo ampliou repasses e retomou obras paralisadas, mas hospitais regionais prometidos desde 2018 seguem com entregas parciais ou inconclusas, empurradas para o próximo governo. Na educação e em outras áreas do serviço público, o cenário se repete. Houve avanços administrativos, mas também frustração de expectativas e promessas cumpridas apenas em parte.

Politicamente, 2026 escancara outro desafio. Ao projetar sua imagem nacional, Zema enfrenta dificuldades para converter o capital político mineiro em viabilidade presidencial. Em pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, em cenários estimulados, o presidente Lula (PT) lidera com folga, outros nomes tradicionais aparecem à frente e Romeu Zema registra desempenho modesto.

Em levantamento da Genial/Quaest, por exemplo, Lula somou cerca de 37% das intenções de voto, enquanto Zema ficou em torno de 4%, atrás de outros candidatos testados.

Em Minas, a sucessão também não se mostra automática. Pesquisas indicam que o vice-governador e candidato apoiado por Zema, Mateus Simões (PSD), aparece com índices baixos, enquanto outros pré-candidatos largam com vantagem. No levantamento mais recente da Paraná Pesquisas, em um cenário com múltiplos nomes, Cleitinho (Republicanos) liderava com 40,6%; seguido por Alexandre Kalil (PDT), com 13,5%; e Rodrigo Pacheco (PSD), com 13%. Mateus Simões aparecia com 5,9% das intenções de voto.

Os números indicam que, mesmo com uma avaliação positiva relativamente alta em Minas Gerais, cerca de 63,6%, segundo a Paraná Pesquisas, a transferência direta de apoio a um sucessor não é automática, abrindo espaço para adversários na disputa estadual de 2026.

Fato é que, ao deixar o Palácio Tiradentes para disputar o Planalto, Zema transfere esse legado ao vice Mateus Simões, que assume o desafio de preservar o que foi construído sem herdar integralmente os desgastes da gestão. A questão que permanece é simples e incômoda. Parte da casa foi arrumada. Outra ficou para depois.

Juliano assume PBH

O presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Juliano Lopes (Podemos), assume interinamente a Prefeitura de BH neste sábado (3/1), durante o período de férias do prefeito Álvaro Damião (União), que se estende até o dia 30. Desde que Damião tomou posse, em 3 de abril, esta é a quinta vez que Lopes comanda o Executivo municipal.

Mais longa

Chama atenção que, nas vezes anteriores em que Juliano Lopes esteve à frente da Prefeitura de Belo Horizonte, as substituições ocorreram sempre por viagens internacionais de Damião. A interinidade que se inicia neste sábado (3/1) é, até agora, a mais longa nesta gestão. Até aqui, o afastamento mais extenso havia sido em outubro, quando o prefeito passou 10 dias na China. Em junho, uma nova viagem ao exterior tinha previsão ainda maior, de 14 dias, durante visita a Israel. O período acabou encurtado após Damião permanecer cinco dias em bunker, em meio à escalada do conflito entre Israel e Irã, o que antecipou o retorno ao Brasil.

As outras substituições ocorreram em abril, durante viagem de cinco dias ao Peru para participação em evento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID); e em novembro, também por cinco dias, quando Damião esteve no Paraguai para acompanhar a final da Copa Sul-Americana entre Atlético e Lanús. Em maio, o prefeito viajou à Alemanha para assistir à final da Champions League, mas como a ida ocorreu em um fim de semana, não houve transmissão do cargo.

Visita do filho

A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) solicitou ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes autorização para que ele receba a visita do filho Carlos Bolsonaro (PL-RJ). Bolsonaro retornou, na quinta-feira (1º), à Superintendência da Polícia Federal (PF), em Brasília, onde cumpre pena de 27 anos e três meses de prisão no processo que apura a trama golpista. Desde a véspera do Natal, o ex-presidente estava internado em um hospital da capital federal. No pedido encaminhado ao STF, os advogados solicitam que o encontro entre os dois ocorra nesta terça-feira (6/1), dia em que as visitas são permitidas na PF. O regulamento da unidade prevê reuniões às terças e quintas-feiras, com duração máxima de 30 minutos.

De volta

Decreto publicado no Diário Oficial da União (DOU) de sexta-feira (2) determina o retorno imediato de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) ao cargo de escrivão da Polícia Federal (PF), após o fim do período de afastamento para o exercício de mandato eletivo. Segundo o ato, a reapresentação deve ocorrer na lotação de origem, no Rio de Janeiro, “para fins exclusivamente declaratórios e de regularização da situação funcional”, com a ressalva de que a ausência sem justificativa poderá ensejar a adoção de providências administrativas e disciplinares cabíveis.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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