TDAH: o psiquiatra que passou anos com sintomas até descobrir o diagnóstico
Transtorno não se resume a crianças; vivências do médico e de outras profissionais da área revelam desafios de quem chega à vida adulta sem tratamento adequado
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O aumento do número de diagnósticos de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) nos últimos anos revela histórias de muitas pessoas que passaram quase toda a vida sem saber que suas dificuldades poderiam estar relacionadas ao TDAH.
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Segundo o psiquiatra João Henrique Dupin, o aumento não significa que o número real de casos esteja crescendo. “A realidade é que até pouco tempo não sabíamos quase nada sobre esse transtorno. A ampliação do conhecimento faz com que mais profissionais estejam preparados para lidar com o TDAH, o que por sua vez aumenta o número de pessoas que se tratam e compartilham suas experiências positivas, colocando o assunto ainda mais em evidência”, afirma.
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O médico foca seu trabalho em TDAH, transtorno do espectro autista (TEA) e outros tópicos hoje chamados de "neurodivergências". “O TDAH sempre esteve presente na minha vida, mas por muitos anos eu nem sabia que existia. Pensava que era preguiçoso, malandro, enrolado, irresponsável, afinal, era isso que todos diziam de mim”, revela.
Desde o início da sua vida escolar, manter o envolvimento em atividades era um desafio. Ele passou por dificuldades por ser desatento e, por isso, estar sempre atrasado. Sua mãe chegou a buscar avaliação e tratamento com muitos psicólogos, médicos e outros profissionais, mas sem sucesso.
Anos depois, sua mãe se interessou pelo livro Mentes Inquietas, escrito pela psiquiatra Ana Beatriz Barbosa e publicado pela editora Principium/Globo, que falava sobre pessoas muito distraídas, impulsivas e inquietas. E disse para o filho: “Esse livro é sobre você. Se esse tal de TDAH existe, então eu tenho certeza de que você tem”. João Henrique, que já estava na faculdade de medicina, ganhou o livro da mãe e o leu rapidamente. Porém, teve a impressão de que o pior em sua vida já havia passado, ficado na infância.
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Já formado e atuando como psiquiatra, João Henrique teve uma experiência pessoal que mudou sua vida. “Eu havia assumido a responsabilidade por algumas perícias e não conseguia fazer os laudos. Desesperado, eu tive uma ideia simples, mas fundamental: se eu sei que tenho TDAH, por que eu não tomo um remédio? Comprei uma caixa de metilfenidato, tomei o primeiro, sentei-me diante do computador e minha vida nunca mais foi a mesma. Naquela manhã eu sabia que minha vida estava mudando, principalmente por dois motivos: o primeiro era que eu precisava daquele remédio e, o outro, como eu havia vivido até ali sem o medicamento?”, lembra.
Desde então, João Henrique se dedica amplamente ao TDAH. Ele participa de congressos e eventos científicos da área e passou a dar aulas sobre o assunto para outros psiquiatras. "Tenho alegria de poder ensinar aos colegas sobre esse tema tão relevante e ainda desconhecido de muitos. Em 2019 ministrei o primeiro curso sobre o diagnóstico de TDAH em adultos na Jornada Mineira de Psiquiatria. A partir daí passei a dar outros cursos sobre o tema”, conta.
Outras histórias
A experiência do psiquiatra encontra paralelo em histórias de adultos que também chegaram ao diagnóstico somente depois de anos de dificuldades. A neuropsicopedagoga Fernanda Lyra, de 45 anos, recebeu uma primeira indicação de TDAH aos 12 anos, mas, segundo ela, os pais não acreditaram e ela sequer soube do diagnóstico na época.
Aos 33, Fernanda recebeu uma nova avaliação, que considera seu primeiro diagnóstico efetivo. “O prejuízo principal era a angústia de me sentir diferente, menos produtiva e com menos capacidade”, conta. Após o tratamento, ela diz que diminuiu sua sensação de esgotamento. E passou a ter melhora na produtividade, capacidade de foco, qualidade de vida e conseguiu ser bem-sucedida profissionalmente.
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Outra história é a da psicóloga Jocasta Knihs, diagnosticada aos 35 anos, depois de 15 a 20 anos buscando respostas para dificuldades que afetavam estudos, trabalho, relacionamentos e organização de vida. Ela conta que planejava tarefas e projetos, mas frequentemente não conseguia colocá-los em prática. Também esquecia compromissos e abandonava projetos.
Depois do diagnóstico e do início do tratamento, passou a retomar tarefas acumuladas, além de reorganizar aspectos da vida profissional e pessoal, como o cuidado com a saúde. “Acredito que consegui dar um sentido ao sofrimento que passei por meio do meu trabalho como psicóloga, acolhendo pessoas que também sofrem com o TDAH, principalmente as que estão passando por diagnósticos equivocados e submetidas a medicações que podem representar riscos”, conta Jocasta.
Para o psiquiatra, histórias como essas ajudam a mostrar que o TDAH não deve ser associado apenas à imagem da criança hiperativa. O transtorno pode acompanhar a pessoa ao longo da vida e se manifestar de diferentes formas, incluindo dificuldades de atenção, organização, planejamento, controle de impulsos e funções executivas.
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