Nem toda paciente com câncer de mama precisa de quimioterapia: entenda
Oncologista explica sinais de alerta, importância do rastreamento e os avanços que permitem definir terapias de acordo com as características de cada tumor
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Durante o Outubro Rosa, campanha de conscientização sobre o câncer de mama, a atenção costuma se concentrar nos sinais que podem indicar a doença. Embora o aparecimento de um nódulo seja uma das manifestações mais conhecidas, alterações na pele, no mamilo e no formato das mamas também merecem avaliação médica.
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Segundo do Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer de mama é o tumor mais incidente entre as mulheres no Brasil, desconsiderando os cânceres de pele não melanoma, e representa cerca de 30% de todos os cânceres femininos. Para 2026, o risco estimado é de aproximadamente 71,57 casos para cada 100 mil mulheres. O cenário também aponta para um aumento no número de diagnósticos: são cerca de 5 mil novos casos anuais a mais em comparação com a estimativa do período de 2023 a 2025.
Embora a maior parte dos casos ocorra em mulheres com mais de 50 anos, observa-se também uma incidência relevante e um leve crescimento entre pacientes mais jovens. Estima-se, ainda, que entre 10% e 15% dos casos tenham origem genética, relacionados, entre outras alterações, a mutações nos genes BRCA1 e BRCA2.
Para o oncologista Ângelo Bezerra, especialista em câncer de mama e ginecológico e coordenador médico do Centro de Oncologia do Hospital Samaritano Higienópolis, no entanto, a principal recomendação é não esperar o surgimento de sintomas para investigar a saúde das mamas. “O sinal mais conhecido é o aparecimento de um nódulo ou caroço na mama, principalmente quando ele é endurecido, não desaparece ou aumenta progressivamente. Mas o câncer de mama pode se manifestar de outras maneiras”, explica o médico.
Entre os sinais que devem ser observados estão retração da pele ou do mamilo, vermelhidão persistente, espessamento da pele com aspecto de “casca de laranja”, saída espontânea de secreção pelo mamilo, especialmente quando sanguinolenta, alterações no formato ou tamanho da mama e aparecimento de nódulos nas axilas.
Segundo o especialista, essas alterações não significam necessariamente a presença de um tumor maligno, já que doenças benignas também podem provocar sintomas semelhantes. Ainda assim, qualquer mudança nova e persistente deve ser avaliada. O rastreamento tem papel fundamental justamente porque a mamografia pode identificar alguns tumores em estágios muito iniciais, antes mesmo de serem palpáveis.
Diagnóstico vai além da identificação do tumor
Quando há uma alteração suspeita, a investigação pode envolver mamografia, ultrassonografia e, em situações específicas, ressonância magnética. A confirmação do diagnóstico é feita por meio de biópsia, que permite analisar o tecido e identificar as características da doença.
O avanço da oncologia, porém, fez com que o diagnóstico deixasse de se limitar à identificação da presença ou ausência de câncer. Atualmente, é necessário compreender também qual é o tipo de tumor e quais são suas características biológicas e moleculares. “Hoje sabemos que câncer de mama não é uma única doença. Existem tumores com receptores hormonais positivos, HER2 positivo, triplo-negativos e diferentes subdivisões dentro desses próprios grupos”, afirma Ângelo.
Na análise da biópsia, informações como os receptores de estrogênio e progesterona, a expressão do HER2 e outros parâmetros anatomopatológicos ajudam a classificar a doença e orientam a escolha do tratamento. Em determinadas situações, testes genômicos também podem contribuir para estimar o risco de recorrência e avaliar a necessidade de quimioterapia.
Já os testes genéticos podem identificar alterações relacionadas à predisposição hereditária, como as encontradas nos genes BRCA1, BRCA2 e PALB2, entre outros.
Tratamento cada vez mais individualizado
A evolução do conhecimento sobre a biologia dos tumores também ampliou o arsenal terapêutico. Atualmente, o tratamento pode envolver cirurgia, radioterapia, hormonioterapia, quimioterapia, terapias anti-HER2, imunoterapia, inibidores de CDK4/6, terapias-alvo e os chamados anticorpos conjugados a medicamentos (ADCs).
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A escolha depende de diferentes fatores, como estágio da doença, tamanho do tumor, comprometimento dos linfonodos, receptores hormonais, expressão do HER2, características moleculares, condições clínicas e preferências da paciente.
Uma das mudanças importantes é que nem toda mulher diagnosticada com câncer de mama precisa necessariamente receber quimioterapia. Em alguns tumores receptor hormonal positivo e HER2 negativo em estágio inicial, por exemplo, determinadas características clínicas e testes genômicos podem identificar pacientes com bom prognóstico que não obtêm benefício relevante com a quimioterapia.
Por outro lado, em tumores triplo-negativos, HER2 positivos e em determinadas situações de maior risco, a quimioterapia continua tendo papel importante e pode ser associada a outras estratégias terapêuticas.
“O objetivo atual não é simplesmente oferecer mais tratamento. É oferecer o tratamento certo, para a paciente certa, no momento certo, evitando tanto o subtratamento quanto tratamentos desnecessários”, destaca o oncologista.
Novas terapias ampliam possibilidades
Entre os avanços recentes, o médico destaca a evolução dos tratamentos para diferentes subtipos de câncer de mama. Nos tumores receptor hormonal positivo, por exemplo, os inibidores de CDK4/6 e novas terapias endócrinas ampliaram as possibilidades de tratamento. Em situações específicas, alterações moleculares como ESR1, PIK3CA e outras vias também podem orientar terapias direcionadas.
No câncer de mama HER2 positivo, novas terapias anti-HER2 e os anticorpos conjugados a medicamentos também transformaram o tratamento, inclusive em pacientes com doença metastática. Nos tumores triplo-negativos, a imunoterapia passou a integrar o tratamento de pacientes selecionadas.
Os ADCs representam outra frente de inovação. A estratégia utiliza um anticorpo capaz de reconhecer determinadas características da célula tumoral para transportar uma medicação potente até o tumor. O avanço também ampliou a compreensão do papel do HER2, permitindo o desenvolvimento de tratamentos para pacientes com níveis mais baixos dessa proteína.
Segundo Ângelo, a transformação da oncologia está relacionada justamente à possibilidade de individualizar cada vez mais as decisões terapêuticas. “Estamos deixando para trás uma oncologia baseada apenas no diagnóstico ‘câncer de mama’ e caminhando para uma medicina baseada nas características de cada tumor e de cada paciente. Isso significa aumentar as chances de cura a doença inicial, prolongar a sobrevida na doença avançada e, ao mesmo tempo, buscar tratamentos cada vez mais individualizados e com melhor qualidade de vida”, afirma.
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