“Hoje eu não vou pensar em chocolate.” Pronto. Agora o chocolate está na cabeça. A situação parece contraditória, mas existe uma explicação para esse mecanismo: quando tentamos deliberadamente afastar um pensamento, precisamos, de alguma maneira, continuar monitorando se estamos ou não pensando nele. No caso da comida, esse mecanismo pode ganhar ainda mais força quando existe fome, vontade, restrição alimentar ou uma regra rígida em torno do que pode e não pode ser consumido.

Em um experimento publicado no Appetite em 2010, pessoas que apresentavam diferentes níveis de restrição alimentar (aquelas classificadas como mais restritivas e orientadas a suprimir pensamentos sobre chocolate, para dar um exemplo) consumiram significativamente mais chocolate do que as que receberam outras instruções. O mesmo estudo encontrou associação entre o uso frequente de supressão de pensamentos e maior desejo por chocolate.





Para a nutricionista e neurocientista do comportamento alimentar Sophie Deram, o problema começa quando a alimentação deixa de ser prazerosa e respeitando as necessidades do organismo e passa a exigir um esforço mental constante de controle.

“Quando eu digo para o meu cérebro ‘não pense em comida’, ele precisa saber exatamente o que é aquilo em que ele não pode pensar. A comida continua presente como referência. E quando existe uma regra rígida, um alimento proibido ou uma tentativa constante de controlar o que se come, podemos acabar aumentando justamente a vigilância em torno da comida”, explica Sophie.





Esse processo não significa que toda pessoa que faz uma dieta ou restringe determinado alimento necessariamente passará a pensar mais em comida. A literatura científica é mais complexa. Uma meta-análise publicada na Clinical Psychology Review, que reuniu 57 conjuntos de dados de estudos com participantes não clínicos, não encontrou evidência consistente de que níveis maiores de restrição alimentar estivessem associados, por si só, a maior viés de atenção ou distração diante de estímulos alimentares.

A questão não é simplesmente afirmar que “restringir alimentos no intuito de emagrecer faz pensar em comida”. O ponto está em entender como restrição, fome, regras alimentares rígidas, estímulos externos e mecanismos de controle cognitivo podem interagir.

“O cérebro tem papel central nesse processo. A tomada de decisão alimentar envolve redes relacionadas à recompensa, à percepção dos estados corporais e ao controle cognitivo”, ensina Sophie.

Uma meta-análise de estudos de neuroimagem publicada no NeuroImage identificou um conjunto de regiões cerebrais envolvidas no autocontrole alimentar, incluindo áreas do córtex pré-frontal, ínsula e regiões parietais. Isso ajuda a compreender por que comer não é uma simples questão de “ter disciplina”.

“Nosso cérebro não é um fiscal que fica esperando a gente errar. Ele está o tempo todo tentando interpretar o ambiente, o estado do nosso corpo e aquilo que tem valor para nós. Quando transformamos a comida em uma lista interminável de proibições, podemos aumentar a quantidade de energia mental dedicada a monitorá-la”, afirma Sophie.

O chamado food noise, expressão que ganhou espaço nos últimos anos para descrever pensamentos recorrentes e intrusivos relacionados à comida, ajuda a traduzir essa experiência para o cotidiano.





“Pensar repetidamente no que vai comer, calcular o que já comeu, decidir o que poderá comer mais tarde ou negociar mentalmente se determinado alimento “vale a pena” pode fazer com que a alimentação ocupe uma parcela desproporcional da atenção”, explica a neurocientista.

Para Sophie, compreender os mecanismos dessa equação é mais produtivo do que transformar cada episódio de desejo ou perda de controle em uma questão moral.

“Eu gosto de lembrar que pensar em comida não é um defeito do cérebro. Comer é uma das coisas que o cérebro precisa regular. O problema aparece quando a comida começa a ser preocupação e ocupar um espaço mental enorme porque estamos o tempo todo tentando controlá-la, evitá-la ou compensá-la. Em vez de perguntar ‘como faço para ter mais controle?’, talvez seja mais interessante perguntar ‘por que estou precisando controlar tanto?’”, diz.

A resposta pode estar em diferentes lugares: uma restrição excessiva, longos períodos sem comer, regras muito rígidas, medo de determinados alimentos, experiências anteriores de dieta ou até mesmo um ambiente em que a comida está constantemente presente. O cérebro não precisa aprender a “não pensar em comida”. Ele precisa receber condições para que a alimentação volte a ocupar o lugar que deveria ocupar: importante, prazeroso e necessário, mas não o centro permanente da vida.

“Quando comer deixa de ser uma batalha o tempo todo, sobra espaço mental para outras coisas. E esse, para mim, é um dos sinais mais interessantes de uma relação mais saudável com a comida: não é pensar perfeitamente sobre o que comer. É conseguir pensar em outras coisas também”, conclui Sophie.

Perfil


Sophie Deram é nutricionista, autora, pesquisadora em neurociência do comportamento alimentar e uma das principais vozes no Brasil sobre alimentação consciente e comportamento alimentar. Francesa naturalizada brasileira, é doutora pela Faculdade de Medicina da USP no departamento de endocrinologia. Ela coordena o projeto de genética do Ambulatório de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC-FMUSP), com pesquisas em obesidade, obesidade infantil, transtornos alimentares, nutrigenômica e neurociência do comportamento alimentar.

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