Por que sentimos mais vontade de comer alimentos calóricos nos dias frios
Nutricionista explica como fatores hormonais e neuroquímicos influenciam o aumento do apetite no inverno
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Com a chegada do inverno, muitas pessoas percebem um aumento do apetite e uma preferência maior por alimentos como massas, pães, chocolates e doces. Embora esse comportamento seja frequentemente atribuído apenas às baixas temperaturas, a ciência mostra que fatores hormonais, metabólicos e neuroquímicos também contribuem para esse fenômeno. A redução da exposição à luz solar, característica da estação, pode influenciar mecanismos relacionados ao humor, à saciedade e à busca por alimentos mais energéticos.
O papel da serotonina
Durante o inverno, os dias ficam mais curtos e a exposição à luz solar diminui. A luz é um dos estímulos envolvidos na regulação da atividade serotoninérgica, sistema relacionado ao humor, ao sono e à sensação de bem-estar. Em algumas pessoas, especialmente as mais sensíveis às mudanças sazonais, essa redução pode favorecer sintomas como desânimo, fadiga e maior desejo por alimentos ricos em carboidratos.
Segundo estudos, a ingestão de carboidratos desencadeia alterações metabólicas que facilitam a entrada do triptofano (aminoácido precursor da serotonina) no cérebro, contribuindo para a produção desse neurotransmissor e proporcionando uma sensação temporária de conforto e bem-estar.
O processo ocorre em etapas:
- Liberação de insulina: após o consumo de carboidratos, ocorre aumento da glicose no sangue e consequente liberação de insulina.
- Maior disponibilidade de triptofano: a ação da insulina favorece a entrada de outros aminoácidos nos músculos, aumentando proporcionalmente a disponibilidade do triptofano para atravessar a barreira hematoencefálica.
- Produção de serotonina: no cérebro, o triptofano participa da síntese de serotonina, neurotransmissor associado à sensação de bem-estar.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que alimentos ricos em carboidratos costumam proporcionar alívio emocional imediato, favorecendo sua repetição ao longo do dia.
O corpo realmente gasta mais energia no frio?
Uma justificativa comum para os excessos alimentares durante o inverno é a ideia de que o organismo precisa gastar muito mais energia para manter a temperatura corporal. Embora exista um aumento do gasto energético quando o corpo é exposto ao frio, especialistas ressaltam que esse efeito costuma ser pequeno na rotina da maior parte das pessoas.
Estudos realizados em condições experimentais demonstram que a exposição ao frio moderado pode elevar discretamente o gasto energético. No entanto, na vida cotidiana, esse impacto tende a ser reduzido, já que a maioria das pessoas permanece em ambientes fechados, utiliza roupas adequadas e conta com sistemas de aquecimento que minimizam o esforço do organismo para produzir calor.
Segundo a nutricionista da equipe científica da WebDiet, Larissa Martins, além das alterações fisiológicas, outros fatores contribuem para o aumento do consumo alimentar durante o inverno.
"Nessa época do ano, aumenta a procura pelas chamadas comfort foods, alimentos quentes e ricos em gorduras e carboidratos, que proporcionam sensação de prazer e acolhimento. Ao mesmo tempo, algumas alterações hormonais, como mudanças na leptina, podem favorecer o aumento do apetite em determinadas situações."
A especialista explica que o maior problema não está no frio em si, mas no comportamento adotado durante a estação. "Criou-se a ideia de que o inverno faz o organismo gastar muito mais calorias. Na prática, como passamos boa parte do tempo agasalhados e em ambientes climatizados, esse aumento costuma ser pequeno. Quando a pessoa acredita que está queimando mais energia, acaba se permitindo comer mais e, muitas vezes, reduz a prática de atividade física por causa do frio. Esse conjunto de fatores favorece o superávit calórico e, consequentemente, o ganho de peso."
Fome fisiológica x fome emocional
Outro aspecto importante é diferenciar a fome fisiológica da fome emocional ou comportamental.
Segundo Larissa Martins, a fome fisiológica surge gradualmente e está relacionada à necessidade real de energia e nutrientes. Nesses casos, praticamente qualquer refeição equilibrada é capaz de promover saciedade.
Já a fome emocional costuma surgir de forma repentina, acompanhada de um desejo específico por alimentos altamente palatáveis, ricos em açúcar e gordura, mesmo quando não há sinais físicos de fome.
"No inverno, é comum buscarmos conforto por meio da alimentação. Esse comportamento faz parte de mecanismos de recompensa do cérebro e pode envolver neurotransmissores como serotonina e dopamina. Reconhecer essa diferença ajuda a evitar que a alimentação aconteça no piloto automático."
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A nutricionista ressalta que algumas estratégias simples ajudam a reduzir esse comportamento, como manter uma rotina alimentar equilibrada, priorizar proteínas e fibras nas refeições, aproveitar a exposição à luz natural sempre que possível e não abandonar a prática de atividade física durante os meses mais frios.