José Augusto Malheiros é neurocirurgião, mestre e doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente, coordena o Serviço de Neurocirurgia e Cirurgia de Coluna do Hospital Orizonti. Em entrevista ao Bem Viver, ele fala sobre as principais aplicações da cirurgia robótica na medicina e sobre as vantagens para os pacientes e especialistas.

Quais são as vantagens de se utilizar a cirurgia robótica do ponto de vista do paciente?

Quando falamos de cirurgia robótica, sempre gosto de destacar três pilares que fazem toda a diferença para o paciente: precisão, segurança e rapidez. Mas tem um ponto muito importante: cada especialidade utiliza um tipo diferente de robô. O robô da urologia é totalmente diferente do robô usado na coluna, que também é diferente do robô utilizado na ortopedia. Por isso, as vantagens variam conforme o tipo de procedimento.

"Estamos entrando em uma fase interessante no Brasil", diz o neurocirurgião José Augusto Malheiros

Jair Amaral/EM/D.A Press

Nas cirurgias de cavidade, como urologia, ginecologia, coloproctologia e tórax, o grande diferencial é a visão ampliada, em alta definição e em três dimensões, que permite a visão de estruturas delicadas, mesmo em profundidade. Isso aumenta a precisão e segurança da cirurgia. Além disso, o robô elimina o tremor natural das mãos e oferece uma amplitude de movimentos muito maior, alcançando ângulos que a mão humana não consegue.

Já em cirurgias ortopédicas e articulares, a vantagem é outra: a robótica permite um posicionamento mais preciso de próteses, parafusos e implantes. Isso reduz o insulto aos tecidos, diminui o trauma cirúrgico, torna a cirurgia mais rápida e diminui, significativamente, a chance de revisão futura, o famoso ‘ter que operar de novo’ porque algum componente não ficou na posição ideal.

Então, no geral, para o paciente, tudo isso se traduz em: menos dor, menos sangramento, menos agressão aos tecidos e uma recuperação mais rápida e previsível.

E no caso do cirurgião?

Para nós, cirurgiões, é como se o robô ampliasse a capacidade humana. Ele aumenta o campo visual e a acurácia da visão e permite movimentos de pinça em 360 graus que a mão humana não realiza. Além disso, o robô não treme. O robô elimina os tremores naturais das mãos, aumentando a precisão, principalmente nos movimentos mais finos, como acontece, por exemplo, numa cirurgia de próstata ou em outras cirurgias dentro de cavidades.

Já nas cirurgias ortopédicas e na coluna, a grande vantagem é a precisão no posicionamento de implantes e instrumentos. O braço do robô se posiciona de acordo com o planejamento prévio de uma prótese em questão de segundos. Além da acurácia no posicionamento de uma prótese ou parafusos, tal posicionamento é feito com uma velocidade incomparável à mão de um cirurgião experiente.

Para nós, isso torna a cirurgia mais fácil, mais segura e mais padronizada.

Outro ponto importante é que a curva de aprendizagem da cirurgia robótica é menor quando comparada a outras técnicas minimamente invasivas, ou seja, o cirurgião consegue alcançar um nível de excelência mais rápido e isso beneficia diretamente o paciente.

A cirurgia robótica pode ser aplicada em quais áreas?

Ela pode ser aplicada em diversas áreas, mas cada especialidade utiliza um tipo diferente de robô e uma técnica própria. Por isso, o impacto da robótica varia bastante de acordo com o tipo de cirurgia.

Na neurocirurgia, por exemplo, usamos a robótica, principalmente, para procedimentos percutâneos para colocação de cateteres e drenagens de hematomas ou abscessos. É o caso da colocação de eletrodos para estimulação cerebral profunda, em que o robô navega por pontos muito específicos do cérebro para posicionar esses eletrodos com exatidão milimétrica.

Na cirurgia da coluna, a robótica também tem um papel fundamental, especialmente na colocação de parafusos em trajetórias que não admitem erro. Ela ajuda a garantir uma precisão maior, reduz o risco de complicações e é mais rápida. E, claro, existem as especialidades que mais difundiram a robótica no Brasil: a urologia, a cirurgia torácica, a cirurgia geral e a coloproctologia. Nessas áreas, o robô é amplamente utilizado para remoção de tumores e para tratar diversas patologias dentro das cavidades do corpo.

Então, de forma geral, a robótica já está presente em boa parte da medicina moderna e a tendência é que sua aplicação continue se expandindo, à medida que novas tecnologias cheguem ao país.

Como funciona a cirurgia robótica? Qual é a diferença para outras cirurgias?

É importante dizer que o robô não opera sozinho. Ele funciona como uma ferramenta extremamente avançada, mas sempre guiada pelo cirurgião. A robótica não criou novas cirurgias; as cirurgias são essencialmente as mesmas, os objetivos são os mesmos e muitos passos continuam muito parecidos. O que muda é a forma como executamos esses passos, com muito mais precisão e estabilidade.

E para entender como ele funciona, precisamos lembrar que cada especialidade usa um tipo diferente de robô. O impacto da robótica é diferente na urologia, diferente na ginecologia, diferente na coluna e na ortopedia. Por isso, existe uma pergunta que sempre fazemos como médicos: qual é o problema real que a robótica resolve? Às vezes existe um conflito entre a ‘alegoria e o benefício real’, ou, como nós brasileiros entendemos bem, entre o desfile e o samba-enredo.

De forma geral, dividimos a robótica em dois grandes grupos. No primeiro, que são as cirurgias de cavidade como urologia, coloproctologia e tórax, o cirurgião trabalha fora do corpo do paciente, sentado numa bancada. Ele olha através de uma câmera binocular, em 3D real e controla o robô como se estivesse usando joysticks. No paciente, o robô oferece uma visão tridimensional ampliada e utiliza pinças e instrumentos com articulações que alcançam ângulos impossíveis para a mão humana. Isso permite acessar áreas que antes ficavam ‘escondidas’. É um sistema muito sofisticado, que exige treinamento específico para que o cirurgião aprenda a operar daquela forma.

No segundo grupo, que são as cirurgias de articulações e coluna, o funcionamento é completamente diferente. Aqui o princípio é a navegação robótica. Primeiro fazemos um mapeamento tridimensional do paciente com tomografia ou ressonância. Depois, com o paciente já na mesa cirúrgica, adquirimos novas imagens e fundimos com as anteriores.

A partir daí, tudo aparece na tela do robô como uma tomografia em 3D em tempo real. Navegamos pela tela e não pela câmera binocular. Planejamos exatamente onde queremos colocar cada prótese ou parafuso. Quando apertamos o pedal, o robô posiciona o braço exatamente na trajetória desejada. Aí, apenas apertamos os parafusos, literalmente. Isso reduz drasticamente o tempo cirúrgico e aumenta a precisão.

Então, no fim das contas, a robótica funciona como uma extensão altamente precisa do cirurgião. Ela não substitui ninguém; potencializa o que fazemos, aumenta a segurança e melhora o resultado final para o paciente.

Quando a gente compara a cirurgia robótica em cavidades com a cirurgia aberta tradicional, a diferença é enorme. A aberta exige cortes maiores, mexe mais na musculatura, gera mais sangramento e a recuperação é mais lenta. Já a robótica permite um acesso mais delicado, com mínima agressão aos tecidos e isso muda completamente o pós-operatório do paciente.

Se compararmos com a navegação ou com a fluoroscopia, que são tecnologias já muito usadas, aí entra outra grande vantagem: a robótica é mais estável e mais precisa. Ela elimina tremores, garante que o instrumento siga exatamente a trajetória planejada e, além disso, reduz muito a exposição à radiação, tanto para a equipe quanto para o paciente. Então, no fim das contas, a cirurgia é mais segura, mais previsível e menos traumática.

Há algum risco ou desvantagem?

Os riscos da cirurgia robótica são, na verdade, os mesmos de qualquer cirurgia: sangramento, infecção e outras complicações já conhecidas na prática médica. A tecnologia em uma cirurgia robótica visa diminuir tais riscos.

A desvantagem no Brasil é o custo. A aquisição dos robôs e o valor dos materiais descartáveis utilizados na cirurgia acabam sendo um desafio, até porque muitos desses itens ainda não são contemplados pela ANS. Isso faz com que nem todos os hospitais tenham acesso à tecnologia.

Mas a tendência é que isso mude em pouco tempo. Estamos vendo a chegada de novos robôs asiáticos, especialmente de origem chinesa, que são extremamente sofisticados, de alto padrão e com um custo mais acessível. Essa nova geração de robótica vai democratizar o acesso e permitir que mais centros adotem a técnica de forma sustentável.

Quem pode se submeter à cirurgia robótica?

Nem toda cirurgia pode ser feita com o auxílio do robô. Existem áreas da medicina em que simplesmente não há sistemas robóticos desenvolvidos ainda, como por exemplo, as cirurgias encefálicas para ressecção de tumores, as cirurgias vasculares, várias cirurgias ortopédicas e também os procedimentos estéticos. Nessas especialidades, a tecnologia atual não contempla o uso do robô.

Por isso, é fundamental que o paciente converse com o médico que o acompanha. É o cirurgião quem vai avaliar se a técnica robótica é indicada para aquele caso específico, levando em conta a patologia, a anatomia e a segurança do procedimento.

Outro ponto importante é a questão financeira: assim como muitas outras técnicas percutâneas e minimamente invasivas, a cirurgia robótica ainda não é coberta pela maioria dos convênios. Então é essencial discutir previamente valores e condições de pagamento. No fim das contas, a indicação precisa ser individualizada, sempre buscando aquilo que é mais seguro e adequado para cada paciente.

Como você vê a expansão da cirurgia robótica no Brasil nos próximos anos, especialmente na área da coluna?

Vejo um crescimento muito rápido. Até pouco tempo, a cirurgia robótica era algo restrito a poucos centros de excelência, principalmente por causa do custo elevado dos equipamentos. Mas estamos entrando em uma fase muito interessante, com novas tecnologias chegando ao Brasil.

A tendência é que, nos próximos anos, a robótica se torne padrão em vários procedimentos da coluna, da mesma forma que aconteceu na urologia. À medida que a tecnologia se torna mais viável, mais hospitais conseguem adotá-la e criar programas estruturados de treinamento. E, no fim das contas, quem realmente ganha com isso é o paciente, que passa a ter acesso a cirurgias mais seguras, menos invasivas e com resultados muito mais previsíveis.

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