Durante muito tempo acreditou-se que o rosto envelhecia simplesmente porque a pele caía. Era uma explicação intuitiva, mas incompleta. Nas últimas décadas, a anatomia facial e os métodos modernos de imagem mostraram que o envelhecimento é muito mais complexo. Ele acontece em diferentes camadas e envolve transformações graduais da pele, da gordura, dos músculos, dos ligamentos de sustentação e até dos ossos que formam a arquitetura da face.
A face jovem apresenta características relativamente constantes: contornos bem definidos, distribuição equilibrada dos volumes, pele elástica e uma integração harmônica entre as estruturas profundas e superficiais. Com o passar dos anos, esse equilíbrio vai sendo perdido.
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“A pele reduz progressivamente a produção de colágeno, elastina e ácido hialurônico. Os tecidos tornam-se menos hidratados, alguns compartimentos de gordura diminuem de volume, outros sofrem pequenas mudanças de posição e o próprio esqueleto facial passa por um lento processo de remodelação. O resultado é uma transformação tridimensional que não pode ser explicada apenas pelo excesso de pele’, explica o cirurgião plástico Eduardo Sucupira,membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e do Colégico Brasileiro de Cirurgiões.
Eduardo explica que as primeiras alterações costumam surgir por volta dos 30 anos, embora quase sempre passem despercebidas. “Nessa fase, os fibroblastos, células responsáveis pela produção do colágeno, tornam-se menos ativos. A renovação celular desacelera, a pele perde parte da luminosidade e começa a reter menos água."
As primeiras linhas de expressão aparecem principalmente ao redor dos olhos, na testa e entre as sobrancelhas. O especialista ressalta que, ao mesmo tempo, ocorre uma discreta perda de volume nas maçãs do rosto, alteração sutil, mas importante, porque marca o início da mudança do chamado triângulo da juventude. Aos poucos, a concentração de volume deixa de predominar no terço médio da face e passa a se deslocar para a região inferior.
Na prática, poucas pessoas percebem essas mudanças quando elas começam. Normalmente, o paciente identifica apenas uma impressão vaga de que o rosto parece menos descansado ou menos iluminado, mesmo sem conseguir apontar exatamente o motivo.
Eduardo Sucupira diz que, depois dos 40 anos, o envelhecimento torna-se mais evidente. “A perda de colágeno se intensifica, a pele oferece menor sustentação e os tecidos passam a responder de forma diferente às forças mecânicas exercidas diariamente pela gravidade e pela própria movimentação facial. As alterações dos ligamentos e das estruturas vizinhas favorecem a descida gradual dos tecidos”, explica.
Começam então a se aprofundar os sulcos ao redor do nariz e da boca, a linha mandibular perde definição, surge o início da papada e o olhar frequentemente adquire um aspecto mais cansado, consequência das mudanças nas sobrancelhas, nas pálpebras e na região ao redor dos olhos.
Nas mulheres, esse período costuma coincidir com a transição para a menopausa. A redução dos níveis de estrogênio acelera a perda de colágeno e modifica a qualidade da pele. Trata-se de uma alteração biológica que repercute em diversos tecidos do organismo, e não apenas na aparência.
Depois dos 50 anos, o envelhecimento passa a ser predominantemente estrutural. A pele torna-se mais fina, menos elástica e recupera-se com maior dificuldade. As rugas deixam de ser apenas marcas da expressão para refletir alterações permanentes da qualidade dos tecidos.
Também ocorre uma redistribuição importante da gordura facial. "Alguns compartimentos profundos perdem volume, especialmente nas bochechas e nas têmporas, enquanto outros podem tornar-se mais evidentes ou sofrer deslocamentos, contribuindo para bolsas, sulcos e perda dos contornos naturais do rosto”, pontua.
O especialista lembra que uma das descobertas mais importantes da anatomia facial moderna foi demonstrar que o envelhecimento também acontece no esqueleto. “Maxila, mandíbula e órbitas sofrem remodelação ao longo da vida. Como todas as estruturas superficiais dependem desse suporte ósseo, pequenas alterações profundas acabam produzindo mudanças bastante visíveis na face."
Depois dos 60 anos, todas essas alterações tornam-se mais pronunciadas. A pele apresenta menor espessura, menor vascularização e capacidade reduzida de regeneração. A musculatura perde parte do tônus, os volumes profundos continuam diminuindo e os contornos faciais tornam-se menos definidos. A região dos olhos costuma apresentar maior excesso de pele, o pescoço perde definição e a mandíbula deixa de apresentar o desenho nítido característico da juventude.
Ainda assim, idade não determina, sozinha, a aparência de ninguém. A genética exerce influência importante, mas está longe de explicar tudo. A exposição solar acumulada continua sendo um dos principais fatores responsáveis pelo envelhecimento cutâneo. Tabagismo, estresse oxidativo, alterações metabólicas, oscilações importantes de peso, alimentação inadequada e privação crônica de sono também aceleram esse processo.
Essa compreensão modificou profundamente a cirurgia plástica facial. O objetivo deixou de ser simplesmente esticar a pele para suavizar rugas, como acontecia nas técnicas de décadas atrás.
"Hoje buscamos restabelecer equilíbrio, proporção e naturalidade. Em alguns pacientes, predomina a perda de volume; em outros, a flacidez dos tecidos ou o excesso de pele. Na maioria das vezes, todos esses fatores coexistem em maior ou menor intensidade, tornando indispensável uma avaliação individualizada”, avalia o cirurgião plástico.
Não existe um único rosto que envelhece, mas inúmeros padrões de envelhecimento. É justamente essa diversidade que explica por que dois pacientes da mesma idade raramente precisam do mesmo tratamento.
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"Envelhecer faz parte da condição humana. A medicina não pretende interromper o tempo nem apagar a história inscrita no rosto. O que buscamos é compreender os mecanismos desse processo para preservar aquilo que cada pessoa tem de mais valioso: sua identidade. No fim das contas, o melhor rejuvenescimento é aquele que não chama atenção para o procedimento, mas para a própria pessoa. A aparência muda, sem que a expressão deixe de contar a mesma história”, aponta Eduardo Sucupira.
