O diagnóstico de toxoplasmose da influenciadora Isabella Scherer durante a gravidez reacendeu uma dúvida frequente entre futuras mães: afinal, conviver com um gato aumenta o risco de contrair a doença? A chef de cozinha contou que descobriu a infecção com dez semanas de gestação e acredita que o contágio possa ter ocorrido pelo contato dos filhos com áreas de areia. O caso voltou a chamar atenção para uma doença que preocupa na gravidez, mas que ainda é cercada de mitos.
Embora os gatos façam parte do ciclo do Toxoplasma gondii, parasita causador da toxoplasmose, eles estão longe de ser a principal fonte de infecção em humanos. Segundo a ginecologista e obstetra Gisele Maciel, mestre em Saúde da Criança e da Mulher, professora universitária e com mais de 25 anos de experiência no acompanhamento de gestantes, descobrir a gravidez não é motivo para abandonar o animal de estimação.
Leia Mais
"Esse talvez seja um dos maiores mitos relacionados à gestação. Embora os felinos sejam os hospedeiros definitivos do Toxoplasma gondii, isso não significa que todo gato represente risco. Gatos que vivem exclusivamente dentro de casa, não caçam, não comem carne crua e recebem ração ou alimento cozido têm uma probabilidade muito baixa de se infectar e eliminar o parasita", explica.
A especialista ressalta que fazer carinho no gato, pegá-lo no colo ou dividir o sofá com ele não transmite toxoplasmose. Além disso, mesmo quando um gato é infectado, ele costuma eliminar o parasita por um curto período, geralmente apenas uma vez na vida, e os oocistos presentes nas fezes ainda precisam permanecer no ambiente por um a cinco dias para se tornarem infectantes.
O gato não é o principal vilão
Hoje, a maior parte das infecções humanas está relacionada ao consumo de carne crua ou malpassada, frutas, verduras e legumes mal higienizados, água contaminada ou contato com solo contaminado.
Por isso, Gisele afirma que os principais cuidados durante a gravidez estão ligados à alimentação e à higiene. A orientação é consumir carnes sempre bem cozidas, lavar adequadamente frutas, verduras e legumes, utilizar água potável e higienizar as mãos após manipular alimentos crus. Quem faz jardinagem ou tem contato frequente com terra também deve usar luvas.
Para quem tem gatos, a recomendação é simples. O ideal é que outra pessoa faça a limpeza da caixa de areia durante a gestação. Se isso não for possível, basta utilizar luvas, limpar a caixa diariamente e lavar bem as mãos ao terminar. Também é importante manter o animal dentro de casa, alimentá-lo com ração ou alimentos cozidos e impedir que tenha acesso à rua, à caça ou à carne crua.
Informação evita medo e abandono
A médica veterinária Eliza Mariana Araújo Souza, de 33 anos, mãe de um bebê de dois meses, viveu a gestação ao lado do gato de estimação e diz que nunca cogitou abrir mão do animal.
"Sabia que a presença do gato, por si só, não representa risco de toxoplasmose. Existem muitos mitos em relação ao papel do gato na transmissão e, adotando os cuidados corretos, era perfeitamente possível manter uma convivência segura", conta.
Ela afirma que recebeu orientações do obstetra, mas praticamente não precisou mudar a rotina com o gato. "Minha maior atenção continuou sendo com alimentos crus ou mal cozidos e com a higienização adequada de frutas e verduras, que são fontes de infecção muito mais frequentes."
Mesmo assim, ouviu comentários sugerindo que doasse o animal. "Esse é um comentário muito comum e baseado em desinformação. Aproveitava esses momentos para explicar que abandonar ou doar um gato não reduz o risco de toxoplasmose se a gestante continuar exposta às verdadeiras principais fontes de infecção."
Durante toda a gravidez, Eliza manteve o gato exclusivamente dentro de casa, alimentado apenas com ração e sachê, sem acesso à rua, à caça ou à carne crua. Também reforçou os cuidados com a higiene ao limpar a caixa de areia e seguiu as recomendações alimentares indicadas para a gestação.
Segundo Gisele Maciel, a preocupação existe quando a mulher contrai toxoplasmose pela primeira vez durante a gravidez. Nessa situação, o parasita pode atravessar a placenta e infectar o bebê. O risco de transmissão aumenta com o avanço da gestação, mas as infecções nos primeiros meses costumam provocar consequências mais graves, como aborto, óbito fetal, alterações oculares, comprometimento neurológico e outras manifestações da toxoplasmose congênita.
A obstetra destaca que o pré-natal é essencial para identificar precocemente uma possível infecção e iniciar o tratamento quando indicado, reduzindo o risco de transmissão e de sequelas para o bebê.
Para ela, a principal orientação é buscar informação de qualidade e evitar decisões tomadas pelo medo. "Ter um gato não torna a gestação de alto risco. Com pré-natal adequado e medidas simples de prevenção, é perfeitamente possível viver esse período com tranquilidade, sem abrir mão da companhia do animal de estimação."
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
