Estima-se que cerca de 2 milhões de brasileiros tenham sido diagnosticados com transtorno do espectro autista (TEA), segundo dados do Censo 2022, do IBGE. Para muitas pessoas, o aumento no número de diagnósticos costuma ser associado a fatores sociais ou até medicamentosos. No entanto, especialistas explicam que, nas últimas décadas, a evolução dos critérios diagnósticos provocou uma verdadeira transformação na forma de identificar e compreender o transtorno.

No episódio mais recente do podcast Na Onda do Conhecimento, Manuelly Dopazo, coordenadora das Assessorias em Acompanhamento Neurodivergente da Faculdade Unimed, explica que essa mudança de perspectiva permitiu que pessoas que, durante anos, foram classificadas de forma equivocada ou permaneceram sem diagnóstico passassem a ter acesso a um acompanhamento mais adequado.

Segundo ela, a ampliação do conhecimento sobre o TEA foi fundamental para romper estigmas e permitir que mais pessoas fossem reconhecidas em suas especificidades. “Falar em autismo era algo que, no passado, era proibido, assim como falar de saúde mental”, afirma a especialista.

Ela ressalta que o aumento dos diagnósticos precisa ser acompanhado por discussões sobre estratégias de atenção e cuidado capazes de promover autonomia, bem-estar e qualidade de vida para pessoas autistas.

Estratégias de acompanhamento

Nesse cenário, uma das principais estratégias de cuidado é garantir que o diagnóstico seja realizado por profissionais especializados. A identificação adequada do TEA permite compreender as necessidades individuais de cada pessoa e definir estratégias de acompanhamento mais assertivas. 

Como o espectro é amplo e se manifesta de diferentes formas, não existe uma abordagem única que possa ser aplicada a todos os indivíduos.

Outro ponto essencial é o acesso à informação de qualidade. Com a grande quantidade de conteúdos disponíveis na internet e nas redes sociais, cresce o risco de autodiagnósticos e de interpretações equivocadas sobre sinais e comportamentos.

Por isso, a orientação de profissionais capacitados é indispensável para diferenciar características do espectro de outras condições e evitar condutas inadequadas.

Participação e autonomia

O cuidado, no entanto, não se limita ao diagnóstico ou ao acompanhamento clínico. A atenção às pessoas com TEA deve considerar os diferentes ambientes em que elas estão inseridas e promover adaptações que favoreçam sua participação e autonomia.

Na escola, por exemplo, estratégias pedagógicas individualizadas e uma comunicação adequada podem facilitar tanto a aprendizagem quanto a convivência.

No mercado de trabalho, ambientes preparados para acolher diferentes formas de comunicação e interação também contribuem para a inclusão e para o aproveitamento das competências de profissionais neurodivergentes.

A comunicação, inclusive, é um dos aspectos que demandam maior atenção. Pessoas autistas podem apresentar diferentes formas de compreender e expressar informações, e características como a literalidade podem gerar ruídos quando interlocutores não estão preparados para lidar com essas particularidades.

Mais do que esperar que a pessoa autista se adapte ao ambiente, a inclusão pressupõe que a sociedade também esteja disposta a rever suas formas de comunicação e interação.

Qualificar o cuidado

A tecnologia também pode ser uma importante aliada nesse processo. Quando utilizada de forma consciente e orientada, ela pode apoiar a comunicação, a aprendizagem e o desenvolvimento de habilidades, além de ampliar os recursos de acessibilidade. No entanto, essas ferramentas devem estar integradas a uma estratégia de cuidado individualizada, sem substituir o acompanhamento profissional ou as relações humanas.

Para Manuelly, ampliar a atenção às pessoas com TEA exige uma mudança de perspectiva. O cuidado deve considerar não apenas as características do transtorno, mas também as potencialidades, necessidades e escolhas de cada indivíduo. Isso significa construir uma rede de apoio que envolva familiares, profissionais de saúde, educadores e organizações.

A disseminação do conhecimento é um dos principais caminhos para essa transformação. Ao compreender melhor a neurodiversidade, a sociedade pode desenvolver ambientes mais acessíveis e acolhedores, reduzindo barreiras e criando condições para que pessoas autistas exerçam sua autonomia e participem plenamente da vida em sociedade.

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Nesse contexto, investir em informação e capacitação não representa apenas uma estratégia de inclusão, mas também uma forma de qualificar o cuidado e preparar a sociedade para uma realidade cada vez mais diversa. A atenção às pessoas com TEA passa, portanto, pela combinação entre diagnóstico adequado, acompanhamento especializado, comunicação acessível, ambientes adaptados e respeito às singularidades de cada pessoa.

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