Além do prato: o papel da nutrição e da terapia alimentar no autismo
Para quem apresenta a condição, um dos desafios mais persistentes é a seletividade alimentar
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O mês de abril veste-se de azul para a conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mais que o diagnóstico, famílias e especialistas voltam o olhar para um pilar da qualidade de vida: a alimentação. O que para muitos é um ato automático, para uma criança autista pode ser um campo de batalha sensorial e comportamental.
A alimentação vai muito além de nutrir o corpo. É peça-chave no desenvolvimento global. No TEA, um dos desafios mais persistentes é a seletividade alimentar. Não se trata de frescura ou falta de educação, mas de uma recusa sistemática que pode restringir a dieta a um grupo curtíssimo de alimentos.
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"A seletividade pode levar a uma dieta extremamente restrita, impactando diretamente a ingestão de nutrientes essenciais como ferro, zinco, fibras e vitaminas do complexo B. Precisamos observar de perto as deficiências desses nutrientes, que surgem devido à baixa ingestão", explica a nutricionista e mestra em ensino, Bárbara Júnia Patrício Mercini, especializada em terapia alimentar, que desenvolve um trabalho para tratar a seletividade alimentar infantil, principalmente das crianças com TEA.
Essa carência nutricional, reforça a nutricionista, não afeta apenas o crescimento físico. "As consequências costumam aparecer no funcionamento gastrointestinal, na imunidade e até no comportamento, agravando quadros de irritabilidade ou desatenção."
Para entender a dificuldade dessas crianças, é preciso compreender as alterações sensoriais. A hipersensibilidade a texturas, cheiros fortes, cores vibrantes ou temperaturas específicas transforma o prato de comida em uma experiência aversiva.
Somando-se aos padrões rígidos de comportamento — a necessidade de que tudo esteja "exatamente igual" — o momento das refeições torna-se um foco de estresse familiar.
É um ciclo delicado. Insistir ou forçar a alimentação pode gerar traumas e aumentar a resistência, transformando a mesa em um ambiente de conflito ao invés de acolhimento, destaca.
Nesse cenário, a terapia alimentar emerge como uma solução especializada e humanizada. Longe de técnicas impositivas, essa abordagem foca em:
- Gradualismo: a exposição ao novo alimento é feita de forma lenta e segura
- Ludicidade: o uso de jogos, desafios e o preparo de receitas transformam o comer em uma descoberta prazerosa
- Multidisciplinaridade: trabalha aspectos sensoriais, motores (mastigação) e emocionais
"O objetivo principal não é fazer a criança comer, e sim ensiná-la habilidades necessárias para comer qualquer alimento, criar uma relação leve e segura com a comida", diz Barbara. "O trabalho é para estimular as habilidades da criança, sejam elas motoras ou orais. Atuamos para diminuir a rigidez comportamental e tratar a parte sensorial, como a aversão ao cheiro e às texturas, que muitas vezes é muito grande", detalha.
Ao focar no desenvolvimento dessas competências, o tratamento busca expandir as opções de consumo de maneira gradual. O resultado esperado é uma mudança na dinâmica familiar durante as refeições, transformando um momento de estresse em uma atividade positiva, conforme Bárbara. "Queremos aumentar esse repertório alimentar de forma leve, prazerosa e responsiva. O foco é tornar o momento da refeição tranquilo para a criança."
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A especialista salienta que investir em nutrição especializada e terapia alimentar é, em última análise, um investimento na autonomia da criança. "Ao melhorar a saúde física e reduzir o estresse sensorial, abrem-se portas para que ela se relacione melhor com o mundo ao seu redor. Afinal, alimentar uma criança é nutrir também sua saúde emocional e seu potencial de desenvolvimento."