Por Bruno Bucis - Além da tradicional colonoscopia, exames de sangue e de fezes podem fazer parte da rotina de rastreio do câncer de intestino, segundo as mais recentes diretrizes da Sociedade Americana do Câncer (ACS), nos Estados Unidos. A atualização, divulgada no último dia 27 de maio, tem como objetivo promover o diagnóstico cada vez mais precoce da doença.

Publicada na revista CA: A Cancer Journal for Clinicians, principal periódico científico da entidade, a recomendação é de que esses procedimentos sejam realizados como rotina entre os 45 anos até os 75. “A ACS foi pioneira na modificação da faixa etária de início do rastreamento e agora mostra seu pioneirismo de novo ao reforçar o papel de outros testes além da colonoscopia para ajudar no combate a essa doença, que tem um número progressivo de casos globalmente”, avalia o coloproctologista Sergio Eduardo Araujo, diretor médico da Rede Cirúrgica do Einstein Hospital Israelita.

A norma também orienta sobre o uso de testes que avaliam a presença de marcadores de DNA tumoral no sangue. Apesar de sua popularização, esses exames não identificam lesões pré-cancerígenas e tampouco podem retirá-las, como ocorre na colonosocopia. Mas, segundo a ACS, podem complementar as opções de rastreamento, desde que realizados em consultório médico.

Fazer o diagnóstico antes da doença manifestar seus primeiros sintomas é estratégia central para aumentar as chances de cura do câncer de intestino. Quando ele manifesta sintomas, como sangue nas fezes e alterações no fluxo intestinal, a probabilidade de remissão completa cai pela metade.

“Temos de ampliar o alcance do rastreamento, especialmente na população jovem. E não é uma questão apenas para quem tem casos na família ou outros riscos aumentados especiais: a maioria dos pacientes jovens com câncer colorretal não possui predisposição genética para a doença”, alerta.

Fatores ambientais e de estilo de vida — como sobrepeso, consumo de álcool, tabagismo, sedentarismo e alimentação baseada em ultraprocessados e gordura saturada — estão por trás da maior incidência da doença antes dos 50 anos.

Para aqueles com histórico de casos na família, a prevenção deve ser ainda mais precoce. "O que recomendamos é que o exame comece a ser feito dez anos antes da idade em que o parente de primeiro grau, pai ou mãe, foi diagnosticado ou a partir dos 45 anos como a população média, o que ocorrer primeiro", orienta o cirurgião.

Apesar do esforço da ACS em atualizar suas diretrizes, a colonoscopia permanece como padrão de referência no rastreamento do câncer colorretal. Além de poder identificar lesões cancerígenas mais precoces, o procedimento localiza pólipos e já os retira durante o exame. Outros testes, como o de sangue oculto nas fezes, podem ajudar a identificar melhor qual público deve passar pela colonoscopia, já que a demanda por preparo intestinal prévio e a necessidade de sedação podem ser um impeditivo para que mais pessoas realizem o procedimento.

Nova estratégia no SUS

Em março, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) anunciou a criação de um protocolo de atendimento ampliado do teste imunoquímico fecal (FIT) para a população brasileira, a partir do segundo semestre de 2026. O exame rastreia a presença de sangue oculto nas fezes e integrará a cobertura da atenção primária no Brasil para homens e mulheres assintomáticos entre 50 e 75 anos. Também consta nos planos do Ministério da Saúde ampliar a rede de cobertura de colonoscopia no país.

Apesar de a idade adotada pela ACS e pelas sociedades brasileiras de Cirurgia Oncológica (SBCO) e de Coloproctologia (SBCP) ser 45 anos para início do rastreio, o Sistema Único de Saúde (SUS) mantém a recomendação de que o processo comece a partir dos 50. A justificativa é de que ainda não há consenso internacional sobre os benefícios da medida.

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A expectativa da pasta para a implantação da nova iniciativa é de que 40 milhões de brasileiros façam o exame como parte do protocolo preventivo. O ministério não informou à reportagem quando o projeto de fato começará nem quais cidades devem recebê-lo primeiro. "Para nós, a adoção de uma política pública nacional é uma grande vitória. O ideal seria que esses exames começassem aos 45 anos, mas ter uma rede de prevenção de casos assintomáticos era uma demanda que não podia mais esperar”, avalia o coloproctologista.

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