TUMOR

Chico Pinheiro revela câncer no intestino: entenda a doença

No Brasil, são estimados 53.810 casos a cada ano do triênio 2026-2028. Neoplasia pode ser silenciosa e não causar sintomas imediatos

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Chico Pinheiro, ex-âncora do Bom Dia Brasil, contou que foi diagnosticado com um câncer de intestino. O jornalista, de 72 anos, revelou que passou por uma cirurgia e ficou mais de um mês internado.

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"A princípio [a cirurgia], [era] relativamente fácil, porque estava bem no começo, e uma cirurgia que era para ser feita em um dia e três dias depois eu ia para casa. Só que teve uma complicação posterior. (...) E eu passei uns belos dias na UTI. E a coisa mais presente na minha cabeça era você cantando. Ouvi você cantar uma música todo o tempo. Ouvia e chorava", disse, enquanto entrevistava Zeca Baleiro.

Ele completou. "Não era chorar de medo nem de nada, não. Era de perceber as pessoas que, na correria, você não vê, né? E pessoas sofrendo com a doença. E eu dizia assim: 'calma aí, você vai passar.' Às vezes não vai, mas a gente fala: 'você vai passar.' Você entra no hospital como doente. Agora, para virar paciente, você tem que exercitar a paciência para os médicos poderem trabalhar. Então, eu ouvia essa música e chorava muitas vezes".

O tumor colorretal se desenvolve no intestino grosso, também chamado de cólon, ou no reto. O principal tipo é o adenocarcinoma e, em cerca de 90% dos casos, ele se origina a partir de pólipos na região que, se não identificados e tratados, podem sofrer alterações ao longo dos anos, tornando-se malignos.

Entre os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) no início do ano, um número chama atenção e preocupa especialistas: o câncer colorretal, que acomete o intestino grosso e o reto, aparece entre os tumores mais incidentes tanto em homens (10,3%) quanto em mulheres (10,5%), ocupando a segunda posição em ambos os sexos quando excluído o câncer de pele não melanoma.

As estimativas para o triênio 2026-2028 apontam aproximadamente 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil. Desse total, os tumores de cólon e reto representam cerca de 53.810 casos ao ano no período.

Diagnóstico tardio: o calcanhar de Aquiles

Um dos maiores obstáculos no enfrentamento do câncer colorretal no Brasil é o diagnóstico tardio. Mais de 80% dos pacientes são diagnosticados em estágios avançados (3 e 4), muitas vezes em situações de emergência, quando o tumor já causou obstrução intestinal ou perfuração.

“O câncer colorretal pode ser uma doença silenciosa e não causar sintomas imediatos. Mas, quando presentes, incluem alteração nos hábitos intestinais, sangramento retal, presença de sangue nas fezes, cólica abdominal, fadiga e perda de peso sem motivo aparente. O problema é que muitas pessoas ignoram esses sinais ou os confundem com outras condições, como hemorroidas ou síndrome do intestino irritável”, explica Alexandre Jácome, oncologista da Oncoclínicas.

Esse atraso no diagnóstico reduz drasticamente as chances de cura. Quando detectado precocemente, o câncer colorretal tem taxas de sobrevivência que podem superar 90%. Em estágios avançados, esse percentual cai para menos de 15%.

“É importante ressaltar que muitos desses sintomas podem ser causados por outras condições que não sejam câncer colorretal, como infecção, hemorroida ou síndrome do intestino irritável. Por isso a importância de, ao primeiro sinal de anormalidade, buscar por uma avaliação médica”, aconselha o especialista.

A epidemia silenciosa dos fatores evitáveis

O oncologista é taxativo: grande parte dos casos de câncer colorretal poderia ser evitada com mudanças no estilo de vida. O tumor está diretamente associado a fatores de risco modificáveis, aqueles que dependem de escolhas comportamentais.

O estudo da Organização Mundial da Saúde divulgado em fevereiro deste ano reforça essa relação: 40% dos casos de câncer no mundo estão ligados a causas evitáveis, e o colorretal figura entre os três tipos que mais poderiam ser prevenidos, ao lado do câncer de pulmão e de colo do útero.

Entre os principais vilões estão:

- Alimentação inadequada: consumo elevado de carne vermelha e processada (como embutidos, bacon e salsicha), combinado com baixa ingestão de fibras, frutas e vegetais

- Obesidade: o excesso de peso está fortemente associado ao desenvolvimento do tumor, especialmente devido à inflamação crônica e alterações metabólicas

- Sedentarismo: a falta de atividade física regular aumenta significativamente o risco

- Tabagismo e álcool: ambos são fatores de risco estabelecidos para diversos tipos de câncer, incluindo o colorretal

- Consumo de ultraprocessados: alimentos industrializados, ricos em conservantes, corantes e aditivos químicos, têm sido cada vez mais associados ao aumento da incidência do tumor

“A mudança nos hábitos alimentares da população brasileira, com aumento do consumo de ultraprocessados e redução de alimentos in natura, é um dos fatores que explica o crescimento dessa doença. Somado ao sedentarismo e à obesidade crescente (inclusive entre jovens), temos a tempestade perfeita para o desenvolvimento desse tipo de tumor”, analisa Alexandre Jácome.

Rastreamento: a arma mais poderosa (e subutilizada)

A colonoscopia, exame que permite visualizar diretamente o interior do intestino grosso e do reto, é considerada o padrão-ouro para detecção precoce do câncer colorretal. O procedimento não apenas identifica tumores em fase inicial, como também permite a remoção de pólipos (lesões benignas que podem se transformar em câncer ao longo dos anos) durante o próprio exame.

A recomendação médica é que pessoas a partir dos 45-50 anos realizem colonoscopia de rastreamento — ou antes, em casos de histórico familiar da doença. Testes de sangue oculto nas fezes também são ferramentas importantes e menos invasivas para rastreamento inicial.

O problema é que a cobertura populacional de rastreamento no Brasil é baixíssima. Há grande demora na realização de exames, falta de centros especializados — especialmente fora dos grandes centros urbanos — e desconhecimento da população sobre a importância da prevenção.

“Após os 50 anos de idade, a chance de apresentar pólipos aumenta, o que consequentemente representa um aumento no risco de tumores malignos. Como resultado, mais de 80% dos casos de câncer colorretal acontecem a partir dos 50 anos, o que explica este limite de idade como critério para início do rastreio ativo”, explica Alexandre Jácome.

O oncologista destaca que pessoas com histórico pessoal de pólipos ou de doença inflamatória intestinal, como retocolite ulcerativa e doença de Crohn, bem como registros familiares de câncer colorretal em um ou mais parentes de primeiro grau — principalmente se diagnosticado antes de 45 anos — devem ter atenção redobrada e realizar controles periódicos antes da idade base indicada para a população em geral.

Desigualdade regional aprofunda o problema

Assim como ocorre no panorama geral do câncer no Brasil, o colorretal também reflete as desigualdades regionais do país. As estimativas do INCA evidenciam que, enquanto as regiões Sul e Sudeste concentram centros especializados, tecnologia diagnóstica e acesso mais rápido a colonoscopias, as regiões Norte e Nordeste enfrentam carência de estrutura e profissionais capacitados. Essa disparidade se traduz em diagnósticos ainda mais tardios e menores chances de sobrevivência para pacientes dessas regiões.

“O desafio não é apenas conscientizar a população sobre a importância do rastreamento. É garantir que, quando uma pessoa procura o sistema de saúde com sintomas ou para exame preventivo, ela consiga realizar a colonoscopia em tempo hábil e em um centro com estrutura adequada. Infelizmente, essa não é a realidade da maioria dos brasileiros”, critica o especialista.

Avanços no tratamento trazem esperança

Apesar dos desafios, há boas notícias. O arsenal terapêutico para o câncer colorretal evoluiu significativamente nas últimas décadas. Além de cirurgia, quimioterapia e radioterapia, os pacientes agora têm acesso a imunoterapia e terapias-alvo — tratamentos que atuam de forma mais precisa nas células cancerígenas, com menos efeitos colaterais.

“Felizmente, o câncer colorretal conta com um arsenal importante de alternativas terapêuticas e possui altas chances de cura na grande maioria dos casos. No entanto, é muito importante que a doença seja diagnosticada o quanto antes através dos exames de rotina, o que se reflete diretamente nas taxas de sucesso do tratamento”, enfatiza Alexandre Jácome.

A análise genômica do tumor também permite identificar mutações específicas que orientam a escolha do melhor tratamento, aumentando as chances de resposta e reduzindo a toxicidade. Entre as alternativas de conduta para tratar o câncer colorretal estão cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo, indicadas de acordo com o estágio da doença e as características moleculares do tumor.

Um chamado à prevenção

Para o médico, a mensagem é clara: o câncer colorretal é altamente evitável e, quando detectado precocemente, altamente curável. Mas isso exige uma combinação de mudanças individuais e políticas públicas efetivas.

“Precisamos de campanhas massivas de conscientização sobre os sintomas e a importância do rastreamento. Precisamos ampliar o acesso à colonoscopia no SUS. E, fundamentalmente, precisamos promover mudanças no estilo de vida da população — combater a obesidade, incentivar atividade física, melhorar a qualidade da alimentação”, resume.

Ele reforça que pequenas mudanças podem ter grande impacto. “Aumentar o consumo de fibras, reduzir carne vermelha e processada, praticar exercícios regularmente, manter o peso adequado e não fumar são medidas simples que podem salvar vidas. E para quem tem 45 anos ou mais, ou histórico familiar da doença, não deixe de procurar um médico para avaliar a necessidade de rastreamento.”

O próprio INCA, em sua publicação, reforça que investir em políticas públicas voltadas à prevenção primária — incluindo promoção da alimentação saudável e da atividade física — e ao diagnóstico oportuno dos cânceres de cólon e reto é investir em vidas, garantindo que cada brasileiro tenha melhores chances de prevenção, cuidado e sobrevida.

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“O câncer colorretal não é uma sentença. Com prevenção, diagnóstico precoce e acesso a tratamento adequado, é possível reverter a curva de crescimento dessa doença e salvar milhares de vidas a cada ano”, reforça Alexandre Jácome.

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