PRESSÕES DA VIDA MODERNA

Redes sociais podem aumentar o bruxismo em crianças e adolescentes

Ansiedade, estresse crônico e sobrecarga sensório-informacional são hoje reconhecidos como os principais causadores da condição

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Muito se fala nos efeitos da ansiedade provocada pelo estresse da vida moderna (com especial participação das telas), e um deles é o bruxismo, o ato involuntário e inconsciente de apertar ou ranger os dentes que pode se expressar tanto de dia (bruxismo em vigília) como à noite (bruxismo do sono).

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A literatura é unânime em apontar que o bruxismo é uma condição originada no sistema nervoso e expressada como um comportamento, e não causada por fatores anatômicos como má oclusão dentária, um mito antigo e já superado. Fatores psicossociais como ansiedade, estresse crônico e sobrecarga sensório-informacional são hoje reconhecidos como as principais causas, especialmente do bruxismo diurno.

"Meu consultório muitas vezes funciona como um divã. Tenho oportunidade de identificar questões dos meus pacientes que muitas vezes vão além do âmbito odontológico, mas que impactam a saúde bucal. A perda dentária mudou de padrão. O que antes acontecia por má higienização, agora acontece por ansiedade. Estamos recebendo pacientes cada vez mais jovens perdendo dentes por estarem com bruxismo e apertamento exacerbado", diz o cirurgião-dentista Mario Groisman, que trabalha com implantes dentários.

Dados de uma metanálise de 2024 indicam que a prevalência global do bruxismo do sono em crianças é de aproximadamente 31%, um índice superior à média da população em geral. Isso demonstra que o problema é particularmente frequente nessa faixa etária, reforçando a importância de investigar seus gatilhos, como as pressões da vida moderna e o uso de telas.

Uma das evidências vem de um estudo publicado no International Journal of Paediatric Dentistry, conduzido com 213 adolescentes entre 11 e 17 anos durante o período de lockdown na Espanha. Os pesquisadores avaliaram comportamentos e sintomas antes e durante o confinamento — um ambiente extremo de estresse e aumento do uso de telas. Os resultados mostram que o uso noturno de redes sociais saltou de uma média de 7,9 ocorrências para 20,7, enquanto o nível de ansiedade de estado subiu de 18 para 32,7.

Paralelamente, o índice de bruxismo autorrelatado aumentou de 10,4 para 15,4. A conclusão do estudo foi direta: o aumento do uso de redes sociais durante a noite, combinado com níveis elevados de ansiedade, esteve diretamente associado ao agravamento do bruxismo, sendo o uso noturno de plataformas digitais um fator moderador relevante dessa relação.

Esse achado se alinha a um corpo teórico mais amplo, que identifica o estresse psicossocial como um dos principais gatilhos para o bruxismo, especialmente o diurno. O pico de prevalência do bruxismo é observado em jovens a partir de 12 anos e, sobretudo, em adultos jovens (18 a 25 anos) — esse período coincide justamente com as maiores pressões da vida moderna: instabilidade econômica, cobranças acadêmicas excessivas, e a cultura de comparação social exacerbada pelas redes sociais.

No Brasil, estudos com estudantes do ensino médio apontam prevalências de 20% a 30%, com maior frequência em meninas e em alunos sob alta pressão acadêmica. Entre universitários, a prevalência pode chegar a 31.8% para o bruxismo noturno e 37.9% para o diurno.

Fenômenos como o FOMO (Fear of Missing Out, em tradução livre o “medo de ficar por fora de algo”) e a busca incessante por validação externa geram uma sobrecarga psicológica crônica, ativando respostas fisiológicas de tensão muscular e alteração da arquitetura do sono. Além disso, o volume massivo de informações — muitas vezes negativas, alarmistas ou falsas — excede a capacidade de processamento do cérebro jovem, contribuindo para um estado de alerta permanente que facilita o bruxismo.

Infância e adolescência comprometida

Uma revisão "guarda-chuva" (um estudo que analisa múltiplas revisões sistemáticas) estimou que a prevalência de bruxismo do sono em crianças e adolescentes varia de 3% a 49%, demonstrando que o problema é comum e significativo nessa população.

As evidências atuais indicam que, em jovens a partir dos 12 anos, o bruxismo é influenciado por uma tríplice articulação: o uso excessivo e noturno de redes sociais, que amplifica a ansiedade; a ansiedade, que atua como gatilho direto para a hiperatividade dos músculos mastigatórios; e as pressões estruturais da vida moderna — acadêmicas, econômicas, informacionais e sociais — que criam o ambiente propício para o surgimento ou agravamento do quadro.

Embora a literatura ainda não tenha estabelecido uma relação de causalidade definitiva (as redes sociais "causarem" o bruxismo), a força da correlação e a consistência dos achados em diferentes populações e contextos tornam essa hipótese não apenas plausível, mas altamente provável e clinicamente relevante.

"Mesmo sendo um dos temas mais estudados em odontologia, o bruxismo ainda é extremamente mal compreendido. O desafio hoje é entender quando esse comportamento representa um fator de risco, protetor ou simplesmente uma adaptação fisiológica", explica o cirurgião-dentista Eduardo Groisman.

Segundo ele, “dores cervicais, sinais de desgaste e hipersensibilidades dentárias, fadigas musculares, dificuldade de abertura de boca, zumbido no ouvido, dores de cabeça tensionais são alguns dos sinais de alerta de possíveis sintomas de bruxismo. Lembrando que mais importante do que tratar a dor é entender a causa raiz do problema”.

Mario acrescenta que é preciso um tratamento multidisciplinar para minimizar os dados e tratar as causas. "Depois do diagnóstico, costumamos recomendar que nossos pacientes procurem também profissionais da área da saúde mental, para que assim tenham um tratamento eficiente e complementar. Assim conseguimos devolver função, qualidade de sono e de vida num contexto geral."

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Eduardo acrescenta que identificar o bruxismo pode ser uma tarefa complicada para os pais, a não ser que percebam sinais sonoros de ranger os dentes. "O bruxismo às vezes também acontece como um mecanismo fisiológico de proteção, em episódios de apneia noturna: o cérebro induz o ranger/apertar dos dentes para facilitar a passagem do ar e manter as vias aéreas abertas. Por isso é recomendado levar as crianças regularmente ao dentista para avaliação de sinais e sintomas."

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